Notícia

Jornal da Unesp

FAPESP: 50 anos de contribuição à ciência

Publicado em 23 julho 2012

Por Vanderlan da Silva Bolzani

Ao decidir escrever sobre os 50 anos da Fapesp – Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo –, sobre o que representa para a pesquisa científica e tecnológica do Estado de São Paulo e, em especial, para a Universidade Estadual Paulista – Unesp, mais que lhe render uma homenagem, foi a forma mais adequada que encontrei para agradecer o suporte financeiro por meio do qual adentrei o universo fascinante da ciência e consolidei minha vida acadêmica.

Minha relação com a Fapesp, prestes a comemorar três décadas, tem motivações científicas e humanas. Não sendo natural da “Terra dos Bandeirantes”, mesmo assim esta instituição me abriu as portas via competição meritória. Com os financiamentos a mim concedidos, foi possível construir uma carreira de que hoje muito me orgulho. Graduada em Farmácia e Bioquímica, pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), lá pelos idos de 1973, desembarquei em São Paulo carregando na mala os sonhos e os anseios de quem deixara a terra natal aos 22 anos com uma única certeza: seguir a carreira acadêmica. No Instituto de Química da USP, sob a orientação de Otto R. Gottlieb, fui das primeiras mestrandas a ganhar uma bolsa Fapesp não sendo natural do Estado de São Paulo.

A descoberta do instigante trabalho de pesquisa, que reúne o aprendizado constante, o ensino e a pesquisa, delineou-se com a minha contratação pelo Instituto de Química (IQ) da Unesp, no câmpus de Araraquara, onde, já como professora assistente, tive meu primeiro projeto de pesquisa financiado pela Fapesp. Esse projeto me possibilitou montar a estrutura inicial do meu laboratório e mergulhar no fascinante mundo molecular das rubiáceas brasileiras, grupo vegetal de rara beleza. Após o doutorado e o pós-doutorado, este também patrocinado pela Fapesp, em novembro de 1993 fui agraciada com um auxílio regular de pesquisa, o que me permitiu montar uma excelente estrutura para investigação de produtos naturais bioativos.

Obviamente, a pesquisa individual do início de carreira cedeu lugar à pesquisa colaborativa, consolidada em vários temáticos e outras modalidades, também esta apoiada pela Fapesp. O Núcleo de Bioensaio, Biossíntese e Ecofisiologia de Produtos Naturais (NuBBE) é o exemplo mais gratificante da minha trajetória tendo como parceira a Fapesp. Estabelecido em 1998, o NuBBe floresceu devido ao trabalho colaborativo em torno de um único ideal: a criação do Programa Biota, em 1999. Do time que concebeu o programa, todos foram bolsistas Fapesp.

Escrever este texto sobre a Fapesp e o que ela representa na trajetória acadêmica de uma geração de colegas, incluindo a minha própria, portanto, é a maneira mais singular de reconhecimento por uma instituição que, de uma maneira ou de outra, marcou as nossas trajetórias. Somos todos um pouco coadjuvantes desta instituição de fomento à pesquisa.

A festa das bodas de ouro, no dia 30 de maio de 2012, representa o auge de uma trajetória de lutas, desafios, crescimento, consolidação e excelência não apenas da Fapesp, mas de todo o sistema de ciência e tecnologia de São Paulo, notadamente o das universidades públicas estaduais: Unesp, Unicamp e USP; das federais: UFSCar e Unifesp; e dos vários Institutos de Pesquisa. Hoje, esta celebração extrapola os limites acadêmicos do Estado, dado a expansão dos programas de amplitude nacional e internacional.

Passados 50 anos desde a sua criação, a Fapesp dispõe hoje de um capital em torno de US$ 500 milhões, essencial aos incontáveis programas criados e disponíveis no portal da instituição, cobrindo praticamente todas as áreas de pesquisa e desenvolvimento de vanguarda. Dentro de um cenário mundial complexo, em que o Brasil, embora com indicadores positivos, ainda tem um longo caminho a percorrer, a Fapesp cumpre seu papel de forma exemplar.

São em ocasiões especiais, em que festejamos os caminhos percorridos, que podemos fazer avaliações e prestar tributos aos que, com maior ou menor evidência, participaram da jornada. Nesta trajetória, as universidades públicas e os institutos de pesquisa estaduais são testemunhas do vigor da Fapesp. São elas que dão corpo e alma à vida científica de São Paulo. Impossível falar de todas aqui. Dessa forma, me restrinjo a mapear ligeiramente o caminho que vem sendo trilhado pela Unesp, tendo na Fapesp um suporte financeiro substancial para o avanço das pesquisas desenvolvidas em 33 faculdades e institutos e sete unidades complementares, distribuídas na Capital, Litoral e Interior Paulista.

A partir dos anos 1990, a Fapesp passa a editar programas voltados para a ampliação e fortalecimento do sistema de pesquisa em todas as áreas do conhecimento, permitindo um salto qualitativo substancial do sistema de pesquisa paulista, em especial da Unesp. As universidades e institutos de pesquisa aprovam projetos mais longos, e o sistema como um todo se vitaliza sobremaneira. A Unesp – em especial as unidades de Jaboticabal, Botucatu, Rio Claro e Araraquara – participa de forma substancial, comprovando uma vocação nos temas abordados, enfatizado nas áreas biológica, bioquímica e química, principalmente. Em 1999 surge o Instituto Virtual da Biodiversidade (Biota-Fapesp), e novamente a Unesp participa ativamente deste programa.

O último relatório de atividades mostra uma instituição à frente de seu tempo, dinâmica e ousada, marca imposta pela atual direção: Celso Lafer, presidente; Eduardo Moacyr Krieger, vice-presidente; José Arana Varela, diretor presidente do Conselho Técnico-Administrativo; e Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico.

Festejar a trajetória de meio século de uma instituição como a Fapesp também significa determinar quais os próximos caminhos a serem trilhados. Num ambiente democrático, onde a pesquisa básica de qualidade é cada dia mais vital, o Brasil precisa de inúmeras agências como ela. Só seremos uma grande nação, de fato, quando a ciência e a tecnologia estiverem marcadas nas agendas de cada cidadão – do mais simples trabalhador ao mais alto escalão de governo. A Fapesp vem cumprindo seu papel e considero que esta é uma celebração especial: deve ser comemorada por toda a comunidade acadêmica e, por que não, por todos os grupos sociais que entendem que uma sociedade rica e igualitária detém obrigatoriamente um sistema sólido de pesquisa, tecnologia e inovação em todos os níveis.

Vanderlan da Silva Bolzani é professora titular do Instituto de Química da Unesp, Câmpus de Araraquara, diretora da Agência Unesp de Inovação e membro da Coordenação Biota-Fapesp.