Notícia

Associação Paulista de Jornais

Famerp agoniza com falta de dinheiro até para o giz

Publicado em 15 outubro 2011

Por Raul Marques

A falta de verba e a carência de professores e funcionários técnicos e administrativos são os principais motivos que fazem a Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp) funcionar de forma precária. Uma das instituições de ensino mais respeitadas do Brasil, a Famerp tem prédios em péssimo estado de conservação, com infiltração, rachaduras e forro caindo, não tem dinheiro para comprar o básico, como giz, açúcar, café e papel higiênico, e não consegue concluir a construção do biotério e de laboratórios.

A situação pode e tem data para piorar: a faculdade tem até 27 de dezembro para devolver 48 funcionários que estão "emprestados" pela Fundação Faculdade Regional de Medicina (Funfarme), que administra o Hospital de Base (HB). O prazo faz parte de uma negociação estabelecida com o Ministério Público do Trabalho. Sem esses servidores, que atuam em áreas como informática e biblioteca, a Famerp não tem condição de se manter em funcionamento. "A gente teme. Será difícil a faculdade seguir sem eles", diz o vice-diretor Dulcimar de Souza.

Em 1994, quando foi estadualizada, a Famerp tinha 682 funcionários, entre professores e técnicos. Hoje, o quadro é formado por 296 docentes (12 contratados recentemente) e 180 servidores, fora os 48. Para manter a excelência é necessário contratar, de imediato, pelo menos 30 professores e 150 servidores. A falta de funcionários é sentida no dia a dia da faculdade. Segundo alunos e professores ouvidos pelo Diário, a biblioteca, por exemplo, deixou de funcionar aos sábados e já fechou em dias úteis. A portaria central está fechada há dois anos. Outro problema grave é a falta de segurança. "Temos apenas um terço da segurança necessária", diz Souza.

"Estamos preocupados com a nossa formação. A Famerp forma importantes médicos e enfermeiros para o HB e outros hospitais", afirma a estudante Camila Carla Gaglianone, a presidente do centro acadêmico do curso de enfermagem. Ela cita que falta giz na sala de aula, os funcionários são obrigados a levar café de casa e os estudantes usam canecas para tomar água, em razão da falta de copos plásticos. O complexo esportivo está deteriorado. As quadras de basquete e tênis não são usadas.

Para um aluno de medicina que não se identificou, a situação não é confortável. "Sabemos que todas essas limitações trazem prejuízo. Estamos atentos para cobrar as melhorias." Estudantes, professores e funcionários cogitaram fazer uma paralisação. O presidente do centro acadêmico de medicina não foi encontrado ontem. Em razão da falta de mão de obra, funcionários e professores da instituição estão sobrecarregados. Há professores obrigados a orientar oito pesquisas de mestrado e doutorado de uma vez - antes eram três. Funcionários tomam conta de três laboratórios.

A situação pode piorar. A manutenção da Famerp custa R$ 400 mil mensais. O Estado repassa R$ 180 mil. O restante é complementado pela Funfarme e Fundação de Amparo ao Ensino e Pesquisa (Faep). A partir de 2012, a Funfarme vai suspender o repasse de R$ 1,5 milhão anual. "Não podemos gastar dinheiro da saúde na educação. A responsabilidade é do Estado", afirma Humberto Liedtke Júnior, que é diretor-geral da Famerp e presidente da curadoria da Funfarme. Apesar das dificuldades, os cursos de medicina e enfermagem tiraram, nos últimos três anos, notas máximas nas avaliações. "Ainda não sentimos (queda no aprendizado). Graças aos alunos, professores e funcionários, que estão se redobrando", afirma o vice-diretor.

Diretores aguardam resposta

A direção da Famerp entregou ao vice-governador do Estado, Guilherme Afif Domingos, e à Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia uma pauta com quatro reivindicações para resolver a crise da instituição de ensino. Na próxima terça-feira, o governo prometeu se posicionar. O primeiro pedido é a autorização para a realização de concurso público com objetivo de contratar 150 funcionários técnicos e administrativos. A faculdade quer realizar a seleção ainda em 2011.

O segundo é ter autonomia na gestão do quadro de servidores. No final do ano passado, foi aprovada uma lei que determinou que 452 funcionários, que estavam irregulares, fossem incorporados aos quadros da faculdade. O problema: o texto determinou que eles fossem subordinados à Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia. Hoje, a direção da Famerp só coordena 12 professores contratados em 2010. "Não temos poder para controlar o cartão de ponto, desempenho dos docentes ou propor sindicância", afirma o vice-diretor da Famerp, Dulcimar de Souza.

A terceira solicitação é o aumento no repasse de recursos financeiros para manutenção da instituição - hoje o gasto mensal é de R$ 400 mil, mas o Estado só repassa R$ 180 mil. Por fim, a Famerp quer ter acesso ao relatório elaborado pelo serviço técnico da Secretaria de Estado da Gestão Pública sobre a faculdade e que o governo crie um índice para reajustar, a cada ano, o salário dos técnicos e professores.

"Na próxima terça-feira, poderemos ter uma confirmação do que foi solicitado. A Secretaria da Fazenda deu parecer favorável ao concurso. Agora, só falta o aval da Casa Civil. É importante essa continuidade para trazer segurança aos estudantes", afirma o deputado estadual Orlando Bolçone.

Faculdade pode ganhar três cursos

O vice-diretor da Famerp, Dulcimar de Souza, afirma que a contratação de 30 professores e de 150 técnicos vai resolver o problema administrativo da instituição e propiciar, a partir de 2012, a criação de três cursos: psicologia, odontologia e fisioterapia. O diretor-geral da faculdade, Humberto Liedtke Júnior, diz que serão analisadas as necessidades de cada curso para definir quais docentes serão contratados. Hoje, por exemplo, falta um especialista em oncologia.

A faculdade tem 386 alunos matriculados na medicina, 243 na enfermagem, 97 no mestrado e 88 no doutorado. São 62 especializações nas áreas de enfermagem, medicina, fisioterapia, psicologia, biologia e fonoaudiologia. Há 2,6 mil estudantes na pós-graduação lato sensu e 342 residentes. A Famerp recebeu ontem da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) a doação de vários equipamentos médicos avaliados em R$ 200 mil.

Quer ler o jornal na íntegra? Acesse aqui o Diário da Região Digital