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Tribuna da Bahia online

Faltam engenheiros e empresas adiam planos

Publicado em 21 janeiro 2008

No país de forte desemprego, embora o índice de 2007 tenha ficado em de 9,5%, sobram vagas qualificadas no mercado de trabalho, principalmente de engenheiros, o que tem atrapalhado os planos de expansão das multinacionais e gerado dor-de- cabeça às empresas brasileiras. A escassez é acentuada nas indústrias de petróleo, mineração e petroquímica. O país tem quatro grandes projetos de usinas siderúrgicas para sair do papel nos próximos anos. Neles, devem ser necessários 1.600 engenheiros. Mas falta mão-de-obra capacitada também no campo - principalmente no setor sucroalcooleiro - no setor de varejo e, ainda, nos serviços especializados, como o de tecnologia da informação.

Entre os profissionais com maior qualificação, empresários e economistas são unânimes em afirmar que a grande escassez é de engenheiros. Nas contas de Ericksson Almendra, diretor da Escola Politécnica da UFRJ, o país tem quatro grandes projetos de usinas siderúrgicas para sair do papel nos próximos anos. Neles, devem ser necessários 1.600 engenheiros - bem mais que a capacidade de formação das escolas. A UFRJ, por exemplo, forma de 40 a 50 engenheiros por ano. Mas as escolas já se movimentam. No nosso caso, para 2008, estão previstas 20 vagas a mais nos cursos. E há outras 500 em discussão. Para 2009, são mais 100 vagas no Rio e mais 120 em Macaé.

As universidades precisam se adaptar às demandas do mercado de trabalho, afirma Paulo Mota, diretor da Cyrela. Segundo ele, além da carência de operários especializados na construção civil, o setor se ressente da escassez de incorporadores: - Não há faculdade que forme incorporadores.

Esse papel acaba sendo assumido pelas companhias.

- Um engenheiro no setor de construção civil é mosca branca, de tão raro - faz coro Izilda Leal Borges, gerente de atendimento do Centro de Apoio ao Trabalho, administrado pela Secretaria do Trabalho do Município de São Paulo.

Faltam também engenheiros especializados em obras de infra-estrutura, a ponto de grandes empreiteiras nacionais estarem "importando" profissionais. O consultor Cláudio Garcia, da DBM, acrescenta ainda a carência de executivos especializados em varejo, profissionais que entendam de logística e engenheiros para o setor automobilístico, além de executivos financeiros que saibam preparar empresas para lançar ações em bolsa.

- Se o país virar investment grade, isso vai se agravar. O problema é que o Brasil ficou muito tempo empacado e, de repente, passou a receber investimentos em muito pouco tempo.

Para quem está longe de um padrão de excelência em sua formação, resta bater de porta em porta na busca de emprego. Na terça-feira passada, Heberton Costa Silva, de 26 anos, visitou oito bancos de emprego no centro do Rio.

Ele concluiu o ensino médio e fez um curso de informática. Na carteira de trabalho, contabiliza 15 empregos nos últimos três anos.

- Já trabalhei como estoquista, ajudante de cozinha, auxiliar de operações. Minha carteira está "suja" de tantas anotações, mas só de emprego temporário. Depois dos três meses de experiência, me mandam embora. Sem emprego fixo, não dá para pensar em fazer faculdade.

Em alguns casos, como no setor de mineração, a demanda por profissionais qualificados começa antes mesmo do diploma. Guilherme Martins, de 22 anos, ainda não se formou em engenharia de produção. Com apenas um ano de estágio, foi efetivado pela Vale do Rio Doce na área de suprimentos, após freqüentar a universidade corporativa.


Mão-de-obra trava investimentos

Falta mão-de-obra qualificada no Brasil, principalmente engenheiros, o que emperra o investimento de multinacionais com filiais no país.

Essa é a conclusão de um estudo de pesquisadores da Unicamp, USP, Unesp e PUC-MG, que contou com o apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e da Secretaria Estadual de Desenvolvimento paulista.

O projeto, que durou dois anos e terminou em setembro, visou identificar entraves para o investimento de multinacionais no país, sobretudo em pesquisa e desenvolvimento.

Em uma etapa, 81,7% das 88 filiais das maiores multinacionais no país responderam considerar que "a escassez de mão-de-obra qualificada será um fator crítico ou muito importante nos próximos cinco anos".

Depois, dirigentes de 47 dessas empresas foram entrevistados: para 58,7%, a escassez de mão-de-obra já é sentida.

"As empresas apontam que o país tem mão-de-obra com boa qualidade, mas em quantidade insuficiente", diz Sérgio Queiroz, da Unicamp e coordenador de ciência e tecnologia da Secretaria de Desenvolvimento.

"Isso pesa quando a multinacional escolhe em que país irá instalar um laboratório de pesquisa", afirma Queiroz, que também coordenou o projeto.

Dados da Unesco (Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura) apontam que o Brasil tem 462 pesquisadores por milhão de habitantes, contra 708 na China e 5.294 no Japão.

O órgão aponta também que o país investe 0,9% do PIB em pesquisa, ante 1,3% na China e 2,7% nos EUA.

"A pesquisa nas empresas é importante para o desenvolvimento do país porque exige mão-de-obra especializada, que gera salários melhores", afirma Queiroz. Além disso, diz, o desenvolvimento de novos produtos induz o crescimento de outras empresas.

A falta de profissionais qualificados no país já foi exposta em outros levantamentos. A Confederação Nacional da Indústria, por exemplo, informou no ano passado que 56% das cerca de 1.700 empresas consultadas apontaram escassez de técnicos especializados.

Responsável pelas entrevistas com as múltis, Flávia Consoni afirma que os profissionais que as empresas mais sentem falta no mercado são os com diploma de ensino superior, principalmente engenheiros.

De acordo com a OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), 4,5% dos brasileiros com diploma universitário se formaram em áreas ligadas à engenharia. A média entre os países desenvolvidos é de 12,2% e de 15,6% no Chile.

"Levei dois anos para encontrar um engenheiro na área de simulação numérica", disse o gerente de tecnologia da Villares Metals, Celso Barbosa.

"Além da formação universitária, as multinacionais também apontaram que muitos profissionais não dominam a língua inglesa, fator essencial para a pesquisa de ponta", disse Consoni, que é pesquisadora da USP e da Unicamp.