Notícia

Jornal do Brasil

Falta de professor atinge também universidade

Publicado em 23 março 1996

Por GABRIELA GOULART
Problema crônico nas escolas das redes estadual e municipal, a falta de professores não abandona a cartilha dos alunos depois que estes ingressam no disputado universo do ensino superior. Assim, a conquista de uma vaga nas universidades públicas do Rio - principalmente nas federais - está longe de ser garantia de professores dentro das salas de aula. A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por exemplo, apresenta um déficit de 800 professores em seus quadros, cerca de 27% do total de 2,9 mil que estão lecionando atualmente. Seguindo a aritmética de carências, com 40 mil alunos nos cursos de graduação e pós-graduação, a UFRJ convive hoje com uma relação de 13 estudantes para cada professor. "Não queremos ser um escolão de terceiro grau, a UFRJ tem uma vocação científica e a carência acaba contrariando isso. Os professores que trabalham em pesquisa são obrigados a reduzir o tempo dedicado a projetos para suprir a falta dentro das salas de aula", ressalta a sub-reitora de Ensino de Graduação e Corpo Discente, Neide Felisberto Ribeiro. A sub-reitora tem até dificuldade em enumerar as unidades que mais sofrem com o problema dentro da universidade: "É difícil encontrar uma unidade que não utilize algum dos 200 professores substitutos que contratamos". As faculdades de Arquitetura, Belas Artes, Comunicação, Direito e Engenharia de Produção têm destaque nesta lista. No curso de Arquitetura, por exemplo, cerca de 400 alunos ficaram sem aulas por duas semanas no início do ano letivo devido à falta de professores. As causas do déficit vão desde a falta de motivação pelos baixos salários - um professor iniciante de Arquitetura na UFRJ que dá aulas 20 horas por semana ganha em torno de R$ 318 - até a cessão de professores que deveriam estar na sala de aula para outras áreas. Oa secretários municipais de Habitação e urbanismo, Sérgio Magalhães, e Luiz Paulo Conde, são exemplos de profissionais que foram afastados da prática - lecionavam no curso de Arquitetura da UFRJ - sem reposição, já que os concursos para contratação de professores efetivos estão suspensos pelo governo federal. Soma-se a isso a corrida desenfreada pela aposentadoria por medo do projeto de reforma da Previdência proposto pelo governo federal. Do começo do ano passado até agora, a Uni-Rio já sofreu uma baixa de 70 professores em seus quadros. Como paliativo, as universidades acabam utilizando a figura do professor substituto para contornar a crise. A saída, no entanto, é criticada pela maioria dos reitores, já que esses professores só podem ficar de seis a 11 meses na universidade e não há autorização para a renovação de seus contratos. O governador Marcello Alencar pretende criar um programa de educação à distância para suprir a carência de professores especializados no estado, utilizando equipamentos para transmissão de aulas de reciclagem ou de formação por satélite. Em reunião com os secretários de Educação e de Ciência e Tecnologia, o governador determinou que o programa seja implantado ainda neste semestre. Marcello disse que a crise da educação no estado deve-se à "anarquia" que se instaurou no setor, com muitos casos de desvio de função que só serão corrigidos através da reforma administrativa.