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Falta de orientação sobre como parafrasear leva ao plágio, aponta pesquisa

Publicado em 09 outubro 2019

Por comciencia

Por Bianca Bosso

Razões da ‘cultura’ da cópia de ideias alheias e do sucesso das pseudociências foram debatidas em seminário promovida pelo Labjor. No primeiro caso, antídoto é adotar política nítida de discernimento entre o aceitável e o antiético. No segundo, foco nos processos da ciência é mais eficaz que o tradicional ensino de conceitos prontos.

É preciso estabelecer políticas específicas e estratégias de ensino para inibir ações que comprometam a integridade acadêmica, seja de estudantes, seja de pesquisadores. Com este ponto de partida, Ana Paula Morales, especialista em jornalismo científico e editora da revista Ciência e Cultura, abriu nesta terça-feira (8) os Seminários de Percepção Pública de Ciência e Tecnologia, iniciativa do programa de mestrado em Divulgação Científica e Cultural do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp. Entre as universidades que já aplicam políticas desse tipo está Oxford, que, além de adotar um guia oficial de boas práticas acadêmicas, oferece cursos sobre gerenciamento de tempo, habilidades de leitura, normas de citação e métodos de pesquisa científica.

Em parceria com a consultoria acadêmica Data 14 e a empresa de software educacional Turniti, Morales realizou pesquisa no ano passado sobre integridade acadêmica e percepção de plágio entre alunos da graduação e pós graduação da Unicamp. “Vimos que só 1 em 10 dos entrevistados aprendeu sobre plágio no colégio, então quase 90% dos estudantes chegaram à Unicamp sem ter contato com esse assunto.” Os entrevistados também alegaram que são “acostumados”, desde o colégio, a copiar informações. A falta de orientação, também na universidade, cria dificuldade na hora de distinguir os limites do que é ou não apropriado quando se trata de parafrasear autores: “Quase todo mundo concorda que ações educativas ajudam a prevenir plágio”, afirma a pesquisadora. “É uma questão de aprender o que é para evitar.”

A pesquisadora ressalta a importância da criação de manuais de boas práticas científicas, como o desenvolvido pela Fapesp, e a criação de comissões especiais para tratar de má conduta, como a de Integridade na Atividade Científica (CIAC), que são avanços recentes.

Natália Pasternak Tashner, diretora-presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC), ofereceu um panorama sobre a compreensão de conceitos científicos por parte dos brasileiros através da apresentação dos resultados de pesquisa realizada no início deste ano pelo IQC em parceria com o Datafolha. O estudo colheu respostas de mais de dois mil entrevistados de diversos perfis e faixas etárias. Eles responderam questões sobre temas científicos e pseudocientíficos, como medicina alternativa, mudanças climáticas e vacinação. A partir das respostas, foi possível montar um perfil, verificando a capacidade de discernimento sobre o que é ou não ciência.

Uma das faces do trabalho revela que parte do público entrevistado nega ou não entende conceitos aceitos pela sociedade científica: apenas pouco mais da metade (54%) aceita o conceito de evolução e somente 13% acredita que o aquecimento global trará efeitos graves sobre a sociedade, mesmo que em ambos os casos haja amplo consenso científico. Ainda uma porcentagem significativa dos entrevistados (73%) acredita que alimentos geneticamente modificados fazem mal à saúde, o que revela carência de informações sobre o tema.

Segundo Pasternak, um dos obstáculos para que o público se aproxime da ciência está no processo educacional: “Foram apresentados à ciência, geralmente no colégio, como um grande conjunto de informações passadas para eles como uma verdade pronta, sem que tivessem muito conhecimento de como a ciência é feita, quais são os processos. Ensinar os processos da ciência talvez seja muito mais eficaz que ensinar os conceitos prontos”.

As palestras sobre plágio e pseudociência marcaram o primeiro dia da série de apresentações, iniciativa das pesquisadoras Simone Pallone de Figueiredo e Sabine Righetti e do reitor Marcelo Knobel, que lecionam em conjunto uma disciplina para os alunos de mestrado em Divulgação Científica e Cultural do Labjor.

Serviço

O que: “Seminários de Percepção Pública de Ciência e Tecnologia”

Quando: Todas as terças-feiras de outubro, das 9h às 12h.

Onde: Laboratório de Estudos Urbanos (Labeurb) Unicamp Rua Caio Graco Prado, 70 Cidade Universitária, Campinas.

Inscrições: Gratuitas e não obrigatórias, podem ser feitas pelo e-mail falday@unicamp.br.

Bianca Bosso é graduanda do Instituto de Biologia da Unicamp e bolsista Mídia Ciência

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