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Falta de internacionalização mantém universidades brasileiras longe da elite mundial

Publicado em 13 outubro 2013

Por Herton Escobar

(*Cópia de reportagem publicada na versão impressa do jornal de hoje. Uma versão digital ampliada, abordando vários outros temas relacionados à competitividade das universidades brasileiras, será publicada amanhã aqui no blog.)

Promover a internacionalização, valorizar o mérito, flexibilizar regras e reduzir a burocracia. Essa é a receita básica que as universidades brasileiras precisam seguir se quiserem ficar mais parecidas com Harvard, Oxford, Stanford e outras instituições de ensino e pesquisa que aparecem no topo dos rankings internacionais, segundo especialistas ouvidos pelo Estado.

A falta de interatividade com o resto do mundo é apontada como um dos pontos mais fracos das instituições brasileiras, que reduz sua visibilidade e competitividade internacionais.

"Se eu pudesse singularizar um item que precisa ser incentivado, é a internacionalização", diz o pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Glaucius Oliva. "É isso que vai trazer no seu bojo todo o resto."

Universidades americanas e europeias frequentemente ganham prêmios Nobel com pesquisadores que foram recrutados de outros países ou outras instituições - que muitas vezes competem para contratar os melhores cientistas, como times de futebol que brigam pela contratação de um craque.

O Prêmio Nobel de Química deste ano é um bom exemplo: os três laureados são pesquisadores de universidades norte-americanas (Harvard, Stanford e Califórnia do Sul) que nasceram em outros países e passaram por outras instituições ao longo de sua vida acadêmica.

No Brasil, a barreira linguística e as regras do funcionalismo público tornam muito difícil atrair professores estrangeiros. Mesmo um ganhador do Nobel, se quisesse se mudar para o País e virar professor da USP, teria de prestar concurso público em português e passar por um complicado processo de contratação, além de aceitar ganhar um salário igual ao de todo mundo.

"No Brasil, resolveu-se que um professor universitário deve ser tratado como um funcionário público qualquer. Nenhum país com universidades de ponta faz isso", aponta o físico Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Segundo os especialistas, é preciso flexibilizar as regras e abrir as portas das universidades para estrangeiros - não obrigando-os a falar português, mas fomentando o uso do inglês entre os brasileiros, seja na sala de aula, nos laboratórios ou chamadas de projetos e contratações.

"A língua é uma questão-chave. As universidades asiáticas que estão em ascensão adotaram o inglês tanto para o ensino quanto para a pesquisa. É a língua universal de comunicação acadêmica, indispensável para universidades com uma visão global que queiram participar desse diálogo", disse ao Estado Phil Baty, editor responsável pela formulação do ranking de melhores universidades do mundo do Times Higher Education.

Essa, segundo ele, é uma das principais razões para o Brasil não ter mais nenhuma universidade entre as 200 melhores do último ranking. A USP, que estava na posição 158 em 2012, caiu para o bloco de 226 a 250.

"A universidade é um ambiente onde a diversidade é fundamental. Melhora a formação dos alunos, melhora a qualidade das pesquisas, melhora tudo", diz o físico Marcelo Knobel, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a única outra brasileira no ranking.

Entraves. Além da questão linguística, a internacionalização terá de passar também, obrigatoriamente, pela solução de uma série de mazelas "domésticas" que os cientistas brasileiros enfrentam diariamente. Em especial, a burocracia.

"Nossa burocracia é muito burra; ela emperra tudo. Não tem como ser competitivo desse jeito", diz o médico Jorge Kalil, professor da Faculdade de Medicina da USP e diretor do Instituto Butantan.

"O ponto mais crítico é a inflexibilidade das universidades públicas", avalia Robert Verhine, pró-reitor de Pós-Graduação da Universidade Federal da Bahia e presidente da Comissão Nacional de Avaliação do Ensino Superior (Conaes). "As universidades são vistas como uma repartição pública, cheias de regras inflexíveis para uso de recursos, contratações, demissões, etc. Deixamos de fazer muita coisa por causa disso."

USP pode estar "superdimensionada", reconhece reitor

Uma comparação, mesmo que superficial, entre as duas melhores universidades dos Estados Unidos e do Brasil no ranking do Times Higher Education revela diferenças substanciais entre as instituições.

Uma que salta aos olhos imediatamente é o tamanho. O Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), que está no topo do ranking há três anos, é uma escola privada de elite, extremamente seletiva, com pouco mais de 2 mil alunos, enquanto que a USP é um gigante público, com 92 mil estudantes.

O reitor João Grandino Rodas reconhece que a universidade pode estar "superdimensionada" para uma instituição de ponta. "Não advogo, de maneira nenhuma, que os números da USP sejam diminuídos, mas simplesmente que se deixe de criar novos cursos sem que se redimensione os antigos etc", disse Rodas ao Estado.

"A USP já passou do tamanho", diz o professor Kalil, da Faculdade de Medicina. "A universidade tem de expandir em qualidade, não em tamanho. Esse gigantismo não leva a nada se não houver qualidade."

Vários especialistas defendem que o País priorize, por meio de um planejamento estratégico nacional, o desenvolvimento de algumas universidades específicas, com maior potencial para se tornarem referências internacionais. "Nenhum país consegue fazer isso com todas as universidades", diz Brito Cruz, da Fapesp.

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ENTREVISTA: João Grandino Rodas, reitor da USP

1. O que o senhor apontaria como principal diferencial da Caltech, Harvard, Stanford, MIT e outras universidades que estão constantemente no topo dos rankings internacionais? O que Caltech e Harvard fazem que nós não estamos fazendo nas universidades brasileiras?

Os Estados Unidos da América possuem o maior contingente no âmbito das duzentas universidades melhores do mundo, consoante os rankings internacionais. Algumas das razões para tal liderança, são apontadas a seguir. Esse País investe 3,1% de seu Produto Interno Bruto em educação superior, enquanto que os demais países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico investem apenas 1,5%. Os rankings privilegiam publicações em inglês, o que influencia negativamente o desempenho de outros países, mormente os da América Latina, já que poucos acadêmicos desejam ou estão aptos a publicar em língua inglesa. A maturidade ajuda as universidades mais antigas na atração dos melhores professores e estudantes, em busca da excelência acadêmica. Tanto assim que, as dez universidades mais bem posicionadas do mundo foram fundadas antes de 1900. A metodologia usada pelos rankings internacionais tem como um dos principais critérios a publicação de pesquisas e, nesse quesito, a produção latino-americana ainda é pequena.

Apesar de o financiamento ser um obstáculo, as instituições brasileiras estão entre as mais aquinhoadas da América Latina. Assim, o maior desafio é fazer bom uso dos recursos disponíveis, aumentar a eficiência interna e a agilizar a administração, além de potencializar a habilidade de atrair os melhores talentos, tanto docentes quanto discentes.

Finalmente, as universidades que estão em lugares privilegiados nos rankings, não sofrem ataques, tomadas, vandalismos cadeiraços e paralisações selvagens, como as universidades públicas brasileiras. Tais paralisações minam o que uma universidade pode ter de mais precioso: sua credibilidade.

2. Nos EUA é muito comum universidades recrutarem professores/pesquisadores estrangeiros; assim como é comum professores/pesquisadores migrarem de uma universidade para outra ao longo da carreira, seguindo as melhores oportunidades. Veja o exemplo dos ganhadores do Nobel de Química deste ano: todos nasceram fora dos EUA mas fizeram suas pesquisas em universidades americanas, e passaram por mais de uma instituição do país ao longo da carreira. Por que isso não acontece no Brasil? Se a USP quisesse atrair um pesquisador de ponta da Europa para fazer pesquisa aqui, como poderia fazer isso? Seria viável? Que tipo de incentivos a universidade poderia oferecer a ele? Ele teria de prestar concurso e entrar com o salário base de qualquer outro docente?

O excesso de burocracia representa um entrave para a contratação e a gestão de recursos humanos nas universidades públicas, incluindo aí a atração de docentes e pesquisadores estrangeiros.

Nesse sentido, dada a relevância de se contar com especialistas que representem uma pluralidade de formações, experiências profissionais, acadêmicas e estilos de trabalho para o aperfeiçoamento docente e discente, foi instituído, nesta gestão, o Programa de Bolsas para Professores Visitantes Internacionais.

Esse programa visa promover o desenvolvimento do intercâmbio internacional no âmbito acadêmico, científico e cultural para o fortalecimento do ensino e da pesquisa, bem como para incrementar e consolidar as iniciativas de internacionalização em curso na Universidade.

Outro programa importante instituído foi o de Professores Visitantes estrangeiros e Professores Colaboradores do Instituto de Relações Internacionais da USP (IRI-USP), visando a garantir a presença contínua desses Professores em seu corpo docente.

O Programa consiste na concessão, a cada dois anos, de dez bolsas para Professores Visitantes estrangeiros e Professores Colaboradores admitidos no IRI-USP, que terão duração mínima de 1 (um) mês e máxima de 24 (vinte e quatro) meses. Tal programa foi estendido para outras faculdades e institutos da USP que desejam.

Além disso, nos últimos três anos e meio, tem havido investimentos importantes nas ações voltadas para o ensino, a pesquisa e a extensão dos serviços à comunidade, que representam os objetivos permanentes da Universidade. Recentemente, a exemplo das mais importantes universidades mundiais, a USP criou programa inédito, chamado "USP Internacional", que objetiva fortalecer a presença da Universidade no exterior.

Esse fortalecimento se dá por meio de quatro vertentes principais. A primeira delas diz respeito à promoção, implementação e consolidação de parcerias com Instituições de Ensino Superior e setores empresariais e organizações governamentais e não-governamentais. A segunda está voltada ao apoio, incremento, agilização e expansão de iniciativas em curso ou em implantação na Universidade. A terceira compreende a implantação e o gerenciamento de quatro Núcleos Internacionais da USP, em São Paulo, Boston, Londres e Singapura. A quarta refere-se ao estabelecimento de um novo Programa de Internacionalização da USP para os próximos anos.

Também foi criado o programa de Bolsas de Intercâmbio Internacional para alunos de graduação, no qual mais de 2 mil alunos já tiveram ou estão tendo a oportunidade de desenvolver atividades acadêmicas em instituições estrangeiras. Trata-se de um projeto pioneiro entre as instituições brasileiras de ensino superior e abrange, também, áreas não contempladas no programa Ciência sem Fronteiras.

3. E se o senhor quisesse atrair um pesquisador de destaque da UFMG, por exemplo, seria viável fazer uma "oferta de emprego" a ele para migrar para a USP?

A contratação de docentes deve seguir os trâmites burocráticos regulares, que são complexos. A Universidade, entretanto, tem privilegiado ações que contemplem a interdisciplinaridade de pesquisas e, consequentemente, de pesquisadores de outras instituições de ensino brasileiras.

Exemplo disso é o sucesso obtido pelos Cepids, que inspirou a criação de outros programas de pesquisa semelhantes, como os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), criados em 2008 pelo CNPq, e Programa de Incentivo à Pesquisa da USP, criado em 2010, e que representa o terceiro maior programa de pesquisa interdisciplinar do país. Os INCTs, os Cepids e o Programa de Incentivo à Pesquisa são três programas que diferem grandemente em sua abrangência, duração e volume de recursos empregados, mas têm várias características em comum. São programas de pesquisa - não simples projetos que se esgotam em si - que visam a reorganizar o trabalho de um grupo de pesquisadores e dar mais força e coerência, fazendo com que a cooperação de competência diferentes se associem para levar à produção de resultados que possam ser mais relevantes, ter mais impacto na ciência e na sociedade.

Lançado em 2010, o Programa de Incentivo à Pesquisa representa iniciativa inédita dentro do panorama das universidades brasileiras, no qual foram aplicados cerca de R$ 219 milhões de recursos oriundos da própria USP. As duas primeiras chamadas (2010-2011 e 2011-2012) envolveram um total de recursos da ordem de R$ 146 milhões. Uma característica essencial exigida para a submissão das propostas era a participação de pesquisadores de pelo menos duas unidades diferentes da universidade, procurando promover sua natureza interdisciplinar, garantindo aos selecionados a transformação do grupo de pesquisa em um Núcleo de Apoio à Pesquisa (NAP).

As propostas exigiam que os pesquisadores pertencessem a pelo menos duas Unidades diferentes da Universidade. A exigência da interdisciplinaridade e de pesquisadores de diferentes entidades era também uma exigência do Programa dos INCTs, do CNPq, e uma forte recomendação no caso dos Cepids, da Fapesp.

O primeiro programa de apoio à pesquisa que nós organizamos, em 2010-2011, e que deu origem aos 43 NAPs da primeira fase, teve um forte impacto nos Cepids: vários grupos de pesquisa se organizaram e foram contemplados com o financiamento da USP para os NAPS, e essa experiência serviu de base para o projeto que apresentaram, em seguida, para a Fapesp. Assim, o Programa de Incentivo à Pesquisa e os NAPs contribuíram em parte para o sucesso da USP no programa dos Cepids.

4. Sobre a possibilidade de a USP estar "superdimensionada" para ser uma universidade de ponta: O senhor concorda com essa colocação? O que quer dizer com isso exatamente? A USP está grande demais para o seu próprio bem? Qual seria o tamanho ideal?

Nos rankings internacionais, ao se analisar as universidades mais bem classificadas, a USP tem sido uma exceção no que tange a sua idade, abrangência, tamanho e número de alunos. É plausível a preocupação de estarmos superdimensionados para ser uma universidade de ponta, em comparação com as universidades mais bem classificadas do mundo. Na avaliação de 2012 do Q. S. Universities, fomos tidos como extra large university, o que nesse contexto não é um elogio! Não advogo, de maneira nenhuma, que os números da USP sejam diminuídos, mas simplesmente que se deixe de criar novos cursos, sem que se redimensionem os cursos antigos etc.

Além disso, falamos um idioma que não é internacional e estamos localizados fora do "centro do mundo". Tais características, menos positivas, terão de ser compensadas por muito investimento e esforço de todos, para que a USP se mantenha visível entre as universidades do globo.

5. Sobre o ensino de aulas em inglês na graduação e a realização de processos seletivos em língua estrangeira na pós-graduação: Isso já está sendo colocado em prática? Já há cursos sendo ministrados em inglês?

Sim, várias Unidades de Ensino e Pesquisa já estão promovendo seus processos seletivos em inglês e espanhol e algumas disciplinas dos programas estão sendo publicados nesse idioma.

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ENTREVISTA: Phil Baty, editor do Times Higher Education

1) Vários acadêmicos com quem conversei no Brasil disseram que não há "explicação plausível" para o fato de a USP ter caído 60 posições no último ranking de universidades do THE (porque, essencialmente, nada mudou de forma tão significativa na universidade de um ano para o outro), e que isso representa uma deficiência ou "bias" na metodologia do ranking. O que o senhor pensa disso? O que mudou na USP de 2012 para 2013 para fazê-la despencar no ranking dessa forma, numa janela de tempo tão curta?

A metodologia das tabelas que usamos para produzir o ranking não mudou nos últimos três anos e ela é muito sólida; o grau de estabilidade dos resultados é muito alto. A USP teve uma leve queda em vários dos 13 indicadores que utilizamos: sua nota de reputação caiu tanto para a parte de ensino quanto de pesquisa, e também sua nota para o maior de todos os indicadores, que é impacto da produção científica (medido pelo número de citações dos trabalhos publicados). Na área extremamente congestionada da tabela na qual a USP se encontra, pequenas quedas nas notas podem ter um efeito bastante significativo, especialmente se elas ocorrem numa variedade de indicadores. Nessa corrida global e extremamente competitiva para o topo da lista, mesmo ficar parado não é suficiente, pois outros países continuam a crescer rapidamente.

2) Em termos mais genéricos, o que as universidades brasileiras precisam fazer para melhorar no ranking? O que a Caltech, Harvard, MIT e outras universidades no topo da lista estão fazendo que nós não estamos? Qual é o segredo do sucesso delas, por assim dizer?

Um desafio chave para o Brasil é aumentar o impacto da sua produção científica. O país tem núcleos de excelência em algumas áreas de pesquisa, mas não o suficiente. A ciência brasileira está aparecendo mais nas melhores revistas internacionais, mas pouco dessa ciência está sendo compartilhada ou citada globalmente para realmente avançar as fronteiras do conhecimento. Além disso, as instituições brasileiras sofrem mais com red tape (burocracia) e um sistema de controle centralizado, comparado à autonomia total de que desfrutam as melhores universidades dos EUA e da Grã-Bretanha, o que as torna mais flexíveis e dinâmicas para avançar.

3) Muitos aqui apontam para a barreira linguística como um dos principais obstáculos para o avanço internacional das universidades brasileiras. O senhor concorda? É obrigatório falar inglês na sala de aula para se ter sucesso globalmente?

A língua é uma questão chave. As universidades asiáticas que estão em ascensão, por exemplo, adotaram o inglês tanto para o ensino quanto para a pesquisa. É a língua universal de comunicação acadêmica, indispensável para universidades com uma visão global que queiram participar desse diálogo.

O Estado de S. Paulo