Notícia

Gazeta Mercantil

"Falta de inovação tecnológica prejudica o País"

Publicado em 01 julho 1997

Por André Vieira e Christiane Bueno Malta - De São Paulo
Desde 1984, a proporção das vendas externas no bolo de exportações mundiais ficou abaixo de 1,5%. No ano passado, o índice foi de 0,9% A indústria brasileira tem dificuldades de obter inovações tecnológicas de modo a modernizar, de fato, o parque produtivo. Esse obstáculo pode trazer complicações, a médio prazo, para o crescimento das exportações. Embora exista uma intenção crescente de aplicação de recursos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) nos próximos anos, o diretor de pesquisa do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), José Eduardo Cassiolato, acredita que parcela dos investimentos não chegue ao seu objetivo. "Há uma diferença entre a disposição de investimento em tecnologia e o que é realizado", diz Cassiolato, secretário de Planejamento Tecnológico do Ministério de Ciência e Tecnologia entre 1985 e 1987. "De uma maneira geral, os investimentos em tecnologia são de alto risco, caros e, às vezes, com elevados prazos de maturação." Portanto, acabam não sendo destinados a seus fins. Cassiolato explica ainda que o processo de reestruturação do setor industrial brasileiro, depois da abertura econômica, foi feito de maneira defensiva. "O ajuste produtivo em curso pela maioria das empresas faz parte de uma estratégia de racionalização da produção, visando reduzir custos", afirma. Em estudo apresentado no seminário nacional de Tecnologia, Competitividade e a Retomada do Desenvolvimento, organizado pelo Indicadores Antecedentes e realizado ontem na GAZETA MERCANTIL, Cassiolato diz que esse movimento ocorre com a entrada parcial e pontual de equipamentos de automação industrial e novas tecnologias de organização do processo de trabalho. O processo de reestruturação se deu também por meio do enxugamento da produção, com dispensa de funcionários e a eliminação de etapas do processo. Às novas tecnologias foram incorporados por meio das importações. "A tecnologia vem incorporada à máquina", diz Cassiolato. Apesar de reconhecer esse movimento evitou a desindustrialização em quase todos os setores, esse ajuste levou ao abandono de linhas de produtos de maior nível tecnológico, que agregam mais valor, em favor de produtos mais padronizados. Com isso, a participação das exportações brasileiras no movimento do comércio exterior tem ficado, cada vez mais, reduzida. Desde 1984, a proporção das vendas externas no bolo de exportações mundiais ficou abaixo de 1,5%. No ano passado, o índice foi de 0,9%. "A estrutura produtiva orientou-se para a produção relacionada aos segmentos sujeitos a menores riscos no mercado, provocando um significativo descolamento da estrutura industrial nacional em relação aos segmentos mais dinâmicos na pauta de consumo dos países industrializados e no comércio internacional". Na tentativa de dar maior competitividade às empresas nacionais e exportar produtos com maior valor agregado, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), esta implantando a partir deste mês o Programa de Software com recursos da ordem de R$ 30 milhões, que serão consumidos até junho de 1998. Trata-se de uma parceria com o programa Softex, informou o técnico da área de operações industriais, Carlos Eduardo Castelo Branco. O crescimento dos investimentos em pesquisa e tecnologia tanto por parte do governo quanto por parte da iniciativa privada, embora com montantes ainda aquém do desejado, é confirmado pelo diretor da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), José Fernando Perez. "No programa de pequenas empresas a Fapesp estabeleceu o objetivo de financiar R$ 5 milhões no primeiro ano, a partir de 30 de julho. O segundo ano, a partir de 30 de novembro, se aparecer demanda mais qualificada que no primeiro ano os recursos podem aumentar. E, a taxa de aprovação de investimentos aumenta mês a mês." Atualmente a Fapesp está financiando 19 projetos de parcerias - recursos ao pesquisador com contrapartida da empresa parceira -, que completam seu segundo ano, com um total de R$ 7 milhões.