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Computer World

Falta de crédito engessa setor de TI

Publicado em 22 abril 2003

Por Ricardo César
A ausência de financiamento para o mercado brasileiro de Tecnologia da Informação (TI) vem de longa data. O problema foi agravado durante o segundo semestre de 2002, quando as incertezas eleitorais levaram os investidores a adotar uma postura ainda mais conservadora e o cenário, que já não era bom, tornou-se negro. Passado o período mais crítico e com o novo governo há três meses com o leme do País nas mãos, é hora de perguntar: como fica a liberação de linhas de crédito para o setor? O questionamento cabe, sobretudo, porque o mercado de TI depende quase exclusivamente de órgãos públicos para obter financiamento. Os bancos e agentes financeiros privados mostram-se refratários a investir na área. A falta de acesso fácil a capital afeta as duas pontas do setor -tanto os compradores quanto os fornecedores de tecnologia - e engessa o mercado como um todo. O sócio-diretor da consultoria Quendiam, Carlos Rosolem, comenta que a captação externa de recursos - outra forma de buscar dinheiro para projetos mais custosos - foi bastante prejudicada na segunda metade do ano passado. "Felizmente os juros cobrados para o País caíram muito nas últimas semanas, acompanhando o declínio do chamado risco-Brasil. As empresas brasileiras estão voltando a conseguir linhas de crédito no exterior", diz. Alguns problemas, no entanto, têm se mostrado mais resistentes. "A falta de financiamento de longo prazo é um mal crônico e representa uma deturpação muito grande do sistema de crédito brasileiro", diz Paulo Feldmann, diretor da BearingPoint. O executivo também destaca a alta taxa de juros do Brasil como uma das barreiras para o acesso a crédito. "O diretor financeiro que aprova um financiamento com os juros nos patamares em que estão incorre em uma decisão muito arriscada", afirma. Rosolem acredita que, se as empresas tivessem facilidade para obter recursos financeiros, os projetos de tecnologia seriam amplamente beneficiados. "Tivemos poucos investimentos em TI nos últimos anos, o que significa que algumas iniciativas de tecnologia passaram a ser prioridade e não podem mais ser adiadas. Se as empresas tiverem capacidade de obter linhas de crédito, grande parte desse dinheiro irá para os departamentos de informática." Os empresários do setor também reclamam. "Nos Estados Unidos, as empresas têm abundância de recursos para financiar pesquisas, desenvolvimento, distribuição e mercado - e trazem isso para nosso cliente aqui. Competimos em bases desiguais", afirma Oswaldo Gouvêa de Oliveira Neto, diretor da Radium Systems, empresa focada no desenvolvimento de software para portais colaborativos. O benefício que se obtém com respaldo financeiro não é difícil de perceber. Algumas das empresas de tecnologia nacionais de mais sucesso, como Itautec e Scopus, são ligadas a conglomerados financeiros - no caso, Itaú e Bradesco, respectivamente. "No final, os recursos pesam mais para diferenciar um empreendimento de sucesso do que a tecnologia ofertada", afirma Marcelo Porto Fernandes, sócio-diretor da Mentor Tecnologia, empresa de soluções de e-learning. A FONTE Não há dúvida de que a melhor porta para os representantes de TI baterem quando surge a necessidade de financiamento é o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O órgão público possui diversas ações que beneficiam a área. A principal delas é o Programa de Apoio ao Setor de Software (ProSoft), uma linha de financiamento para empresas de software que existe desde 1997 e até agora beneficiou 26 companhias. Atualmente a dotação orçamentária total do ProSoft é de R$ 110 milhões - sendo que R$ 60 milhões já estão comprometidos com projetos em andamento. O gerente da área industrial do BNDES, Carlos Henrique Cabral Duarte, explica que o ProSoft é um programa de financiamento extraordinário do banco. O objetivo desse tipo de mecanismo é beneficiar um determinado setor da economia que mostra dificuldades de obter financiamento pelos caminhos tradicionais. Mas mesmo o ProSoft só consegue atender a uma parcela pequena dos empreendimentos nacionais de software. O programa não financia companhias com faturamento anual superior a R$ 100 milhões. Negócios muito pequenos também costumam ser excluídos. "O grosso dos recursos vai para empresas que faturam entre R$ 1 milhão e R$ 10 milhões por ano. Este é o perfil básico de quem consegue financiamento", explica Duarte. Para obter uma linha de crédito, o empresário precisa fornecer um plano de negócios que mostre que o empreendimento é viável. Se o financiamento for aprovado, os recursos liberados variam de R$ 500 mil a R$ 4,5 milhões em condições especiais, que incluem juros abaixo dos praticados pelo mercado e amortização do financiamento em quatro anos, depois de um prazo de carência de dois anos. O BNDES também não exige garantias tangíveis, como máquinas e propriedades. A única garantia requisitada é a fiança dos software da empresa. O banco conta também com o Financiamento a Empreendimentos (Finem). Trata-se de um mecanismo que envolve procedimentos normais para aprovação de crédito, com garantias reais e juros pré-fixados. Isso torna o Finem menos atrativo para as software houses, mas o canal tem sido bastante utilizado por companhias de hardware. O BNDES possui ainda linhas de capital de risco que funcionam nos moldes dos fundos privados, envolvendo a participação acionária - sempre minoritária, porém acima de 10% do capital da empresa. Além dessas três frentes para atender ao setor de TI diretamente, o banco oferece linhas de crédito para financiar os compradores, como o próprio Finem e o "BNDES Automático". Em ambos os casos quem contrata é o comprador, mas a fornecedora de tecnologia pode apontar aos potenciais clientes quais são as vendas passíveis de financiamento. Existem ainda formas de apoio às exportações, como as linhas "Pré-Embarque" e "Pré-Embarque Especial". Há também o financiamento Pós-Embarque, que é um apoio à comercialização do que foi exportado. Neste caso, o BNDES oferece duas modalidades: uma para o produtor, que assim consegue recursos para avançar nos mercados de outros países, e outra para o comprador, que pode inclusive ser uma empresa estrangeira. Outro mecanismo que o BNDES pretende usar para oferecer crédito ao setor de TI será o repasse do Fundo para o Desenvolvimento Tecnológico das Telecomunicações (Funttel). O fundo é proveniente das receitas das operadoras e será aplicado prioritariamente em empresas fornecedoras de hardware e software para o setor de telecomunicações. A linha, que para 2003 soma recursos de R$ 40 milhões, foi criada em agosto do ano passado, mas o banco ainda está fechando os trâmites burocráticos para liberar os primeiros financiamentos. Já existem sete pedidos em análise. Além do BNDES, um meio de financiamento importante para as empresas de software é a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), uma agência de fomento do Ministério da Ciência e Tecnologia responsável pela promoção do desenvolvimento tecnológico. A instituição possui o Projeto Inovar, voltado para o apoio às empresas que desenvolvem tecnologia, por meio de instrumentos como capital de risco e linhas de financiamento especiais. "Ajudamos a constituir novos fundos de capital de risco, junto com outras instituições e empresas privadas", conta Luciane Gorgulho, superintendente da área de empresas emergentes da Finep. "Temos três fundos operando para os quais a Finep comprometeu R$ 14 milhões e estamos constituindo um quarto fundo no qual vamos aportar cerca de R$ 5 milhões." Luciane afirma que o objetivo é gerar retorno. "Queremos mostrar para a iniciativa privada que investir em tecnologia é um bom negócio." Como uma ação complementar, a Finep organiza os Venture Fóruns, eventos que colocam as empresas em contato com os investidores. "Começamos a trabalhar com os empreendedores dois meses antes para que as companhias tenham um bom plano de negócios e estejam aptas a receber aportes", explica Luciane. O evento conta com uma edição por semestre e procura levar cerca de 15 companhias de tecnologia e reunir 40 investidores em cada edição. A Finep contava ainda com linhas complementares de financiamento, que beneficiaram 42 empresas, mas que foram suspensas "porque tinham condições pouco favoráveis para o fundo". Em seu lugar serão empregados outros instrumentos que ainda não foram definidos. Por outro lado, a entidade começa a trabalhar com linhas de co-financiamento. As empresas que passarem pelo crivo e conseguirem o aporte de um fundo de capital de risco estão automaticamente aptas a tentar um financiamento com a Finep. Por fim, existe uma linha de retorno variável. As companhias de tecnologia com faturamento de no mínimo R$ 2 milhões podem obter um financiamento e pagá-lo como uma porcentagem de sua receita, sem condições fixas. UM PROBLEMA DO BRASIL Até que ponto a falta de financiamento atrapalha o mercado nacional de TI? O presidente da Fundação ParqTec, Sylvio Rosa, lista uma série de mecanismos de apoio, como a Fapesp, o Recurso Humano em Áreas Estratégica (RHAE) e os Fundos Setoriais, além do BNDES (veja quadro com canais de crédito para a área de TI). "Temos uma cesta de financiamentos relativamente boa", diz. "Mas para obter a verba a empresa precisa ter um plano de negócios, tem de estar organizada e ter planejamento. Tenho uma visão que não é cor-de-rosa, mas que não é pessimista. Existem alguns mecanismos sim." Mas o coordenador executivo da Sociedade para a Promoção da Excelência do Software Brasileiro (Softex), Eratóstenes de Araújo, acredita que os recursos disponíveis não são suficientes. "Não temos linhas de financiamento adequadas para as empresas de software. Em pesquisas que fizemos com os empresários do setor em anos anteriores, o índice maior de dificuldade se reportava justamente à falta de linhas crédito", conta. Araújo afirma ainda que o problema muitas vezes começa na estruturação dos empreendimentos de informática. "As empresas de software no Brasil têm origem não no capital, mas na tecnologia. Os empresários vêm de formação técnica, com recursos próprios", diz. Um dos papéis da Softex, destaca Araújo, é criar uma ponte entre o empresário e as poucas entidades financiadoras. "Estabelecemos canais de conversação entre os empreendimentos e os financiadores", diz. O coordenador alerta para o fato de que muitos pequenos negócios de tecnologia estão despreparados para falar com investidores. "As empresas às vezes não têm a maturidade para apresentar um plano de negócios consistente." A iniciativa é bem vinda porque existem deficiências tanto dos agentes financeiros quanto das empresas de TI. O diálogo entre ambas as partes é especialmente complicado em tempos em que os bancos conseguem lucros exorbitantes com facilidade e não se sentem tentados a investir em projetos mais arriscados. Por outro lado, os empresários do setor precisam desenvolver uma mentalidade mais agressivamente voltada ao mercado. Enquanto nada disso muda, o limitado apoio financeiro fica restrito a iniciativas do governo - e o Brasil assiste a países como a índia dominarem o mercado mundial de software. EM QUE PORTAS BATER FAPESP Possui o Pipe, um programa que se destina a apoiar o desenvolvimento de pesquisas de pequenas empresas em ciência, engenharia ou em educação científica e tecnológica que tenham alto potencial de retorno comercial ou social. BNDES O banco possui uma série de alternativas de financiamento para as companhias do setor de Tl. A principal é o ProSoft, mas há também o Finem, linhas de capital de risco, programas de apoio à exportação e está previsto o repasse de recursos do Funttel. Finep A agência de fomento do MCT possui o Projeto Inovar, voltado para o apoio às empresas que desenvolvem tecnologia. CTInfo O Fundo Setorial para Tecnologia da Informação destina-se a estimular as empresas nacionais a desenvolverem e produzirem bens e serviços de informática e automação. RHAE O Programa de Capacitação de Recurso Humano para Atividades Estratégicas visa apoiar projetos para a capacitação de recursos humanos vinculados a linhas de pesquisa tecnológica.