Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

Faculdades - Universidade pública centraliza recursos para pesquisa científica

Publicado em 30 março 2000

Por Arminda Augusto - Da Reportagem
Universidades públicas são grandes centros canalizadores de pesquisas científicas, tanto através de parcerias com empresas privadas de captação de recursos como de fontes de financiamento exclusivas para isso. Analisando os valores investidos nela Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapesp), órgão ligado à Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia, é possível verificar que a quase totalidade dos projetos acadêmicos de pesquisa bancados nos últimos anos é proveniente das três instituições públicas de ensino superior: Unicamp, USP e Unesp. E por extensão, os municípios-sede dessas universidades também acabam se beneficiando, já que parte dos projetos tem parceria com empresas regionais. A Fapesp é uma instituição que fomenta a pesquisa através do repasse de verbas provenientes do orçamento estadual. Criada há 38 anos, a fundação tem, por ano, 1% de toda a arrecadação, o equivalente a aproximadamente R$ 200 milhões. Em 99, além desse valor, outros R$ 150 milhões foram aplicados em pesquisas científicas, dinheiro que a Fapesp arrecadou através da valorização de seus próprios investimentos. Um dos mais recentes programas de concessão da Fapesp é o Pite (Parceria para Inovação Tecnológica), que se destina a co-financiar projetos de interesse de empresas desenvolvidos nas instituições de pesquisa de todo o Estado. Desde que foi criado, 78 projetos já foram apresentados, dos quais 46 foram aprovados. Desses, 21 referem-se a parcerias entre empresas e a Universidade de São Paulo (USP), nove com a Unicamp e cinco com a Unesp. Entidades federais instaladas no Estado entraram com apenas um, outros institutos de pesquisa estaduais com oito e apenas dois referem-se a projetos envolvidos com entidades particulares. Excelência - José Fernando Perez, diretor científico da Fapesp, garante que os recursos da fundação são disponibilizados a todas as instituições de ensino e também a empresas privadas que estejam desenvolvendo projetos de inovação tecnológica de interesse. "O que acontece é que as universidades públicas parecem ter uma tradição maior em pesquisa", justifica. Nos relatórios da Fapesp dos últimos quatro anos, instituições particulares da região figuram três vezes: a Fundação Lusíada, com projetos financiados em 96 e 97, e a Unisanta, com um projeto do ano passado avaliado em R$ 67 mil. "A única discriminação que fazemos é quanto ao mérito", diz o diretor científico, referindo-se aos critérios que a fundação utiliza para avaliar se o projeto receberá auxílio da fundação ou não. "Não nos interessa se é de universidade pública ou particular", garante. Fernando Perez explica que todos os projetos científicos que chegam à Fapesp são analisados por uma equipe de assessores, que se reúnem semanalmente. Os critérios utilizados levam em conta a competência da equipe envolvida com o projeto, quais os objetivos práticos que os resultados poderão alcançar e a relação custo x benefício. INICIATIVA AJUDA NO DESENVOLVIMENTO REGIONAL Á análise dos relatórios da Fapesp indica ainda um outro aspecto: a distribuição das empresas contempladas pelos municípios do Estado se com a existência de centros de pesquisa, ou seja, parte das empresas que se interessam em formalizar um projeto procura uma instituição pública de ensino superior. Na Fapesp, existe uma linha de concessão de recursos própria para as parcerias entre empresas e instituições de pesquisa, o programa Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (Pipe), que desde sua criação, em 97, já canalizou cerca de R$ 10 milhões. Entre os municípios que de forma indireta se beneficiaram com esses recursos estão Campinas, São Paulo, São José dos Campos e São Carlos, todos portadores de instituições públicas de ensino superior. "Essa maior concentração reflete a existência de centros de excelência na formação de pesquisadores, mostrando que o programa, muito embora não sendo dirigido para pesquisadores em ambiente acadêmico, deverá se constituir em instrumento de transferência de conhecimento do sistema de pesquisa para o ambiente empresarial", enfatiza o último relatório da Fapesp sobre o total de recursos investidos nos mais variados programas. Desenvolvidos - Fernando Perez entende que a concentração de pesquisas em instituições de ensino é uma situação típica do Brasil, que ainda busca se firmar nessa questão. Em países como Estados Unidos, a maior parte dos projetos científicos é desenvolvido nas próprias empresas, e com recursos do Governo. "É balela dizer que as empresas devem colocar dinheiro na instituição de ensino para fazer pesquisa. São elas que têm que tomar a iniciativa. Pesquisa feita na empresa tem outro cunho, porque a aplicação prática é inequívoca. A obrigação primeira da universidade é formar profissionais". PARA DIRETOR, PARCERIA É BENÉFICA José Fernando Perez, que nasceu em Santos e mora na Capital há mais de 20 anos, acredita que a instalação de uma instituição pública na Baixada "poderia fomentar a cultura da pesquisa" e também estimular uma participação maior das empresas através de parcerias. "Eu só não sei se existem hoje recursos suficientes para criar um novo campus", questiona. O diretor científico acredita que as universidades particulares já começam a criar também uma tradição em pesquisa. "Até anos atrás, tudo partia das públicas, mas agora já sentimos que esse centro de gravidade começa a mudar". Parte desse fenômeno, explica, é decorrente da própria migração de pesquisadores e mesmo docentes de qualidade das instituições públicas para as particulares. "Hoje, muitos estão se aposentando de uma USP ou Unicamp, mas continuam dando aula nas particulares. Isso é benéfico para elas". Mesmo considerando as inúmeras exceções, o diretor científico da Fapesp acredita que falta às instituições particulares a determinação e o empenho em fomentar projetos científicos. "Muitas estão preocupadas apenas em colocar gente no mercado, não importa com que qualidade. Eu acredito que com o tempo e a concorrência entre elas, isso deverá mudar nos próximos anos". - PROGRAMAS DA FAPESP (97 A 99) De inovação tecnológica Apresentados - 78 Aprovados - 46 Da USP - 21 Da Unicamp - 9 Da Unesp - 5 De entidades particulares - 2 De entidades federais - 1 De inst. pesq. Estaduais - 8 - MUNICÍPIOS BENEFICIADOS COM PARCERIAS EMPRESARIAIS Campinas - 5 São Carlos - 5 S.José dos Campos - 5 São Paulo -12 Outros municípios - 8 Fonte: Fapesp