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Agência de Notícias da Aids

Faculdade de Medicina da USP pesquisa vacina contra o HIV para soronegativos usando 'pedaços' do próprio vírus

Publicado em 27 fevereiro 2009

A receita, na teoria, é simples: pegue alguns “pedaços” do HIV que o corpo humano consegue identificar e combater, por meio das suas células de defesa, com alguma eficácia. Reúna essas porções do retrovírus em uma mesma estrutura. Em seguida, insira essa estrutura criada artificialmente no organismo do hominídeo. A expectativa, após o término do processo, é de que o corpo apresente uma resposta imunológica altamente eficaz ao vírus causador da Aids. Isso caso o organismo imunizado seja exposto ao HIV, é claro. Esse é um resumo, didático, de pioneira pesquisa brasileira para o desenvolvimento de uma vacina para soronegativos. “Aparentemente, a capacidade de gerar resposta imune com esse tipo de abordagem realmente é muito maior do que quando comparada com uma vacina convencional feita com proteínas inteiras do HIV”, explica o médico Edecio Cunha Neto, coordenador do estudo que começou em 2001. Desde o início da pesquisa, segundo o imunologista da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), foram gastos entre 800 mil e 1,2 milhão de reais. Em uma entrevista concedida, no começo de fevereiro, para a Agência de Notícias da Aids, Edecio Cunha Neto listou os financiadores do estudo: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), Ministério da Saúde, Centro Internacional de Engenharia Genética e Biotecnologia (ICGEB, na sigla em inglês) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Na mesma entrevista, Edecio Cunha Neto disse que o fracasso de diversos estudos “criou um desalento grande na comunidade de HIV e nos pesquisadores de vacina.” O médico lembrou do cancelamento, em 2007, de um grande estudo realizado pela companhia farmacêutica Merck Sharp & Dohme (saiba mais). “Hoje o quadro mundial é: não existe uma vacina eficaz”, resumiu.

Diante da ineficácia dos estudos até então desenvolvidos, o médico disse que os pesquisadores começaram a investigar “novos métodos”. O imunologista explicou que a maioria das vacinas testadas nos últimos anos teve como meta “induzir a imunidade celular” dos voluntários. Ou seja, fazer com que as células de defesa do organismo, conhecidas como linfócitos, fossem “capazes de destruir células infectadas pelo HIV.”

“Então nós fizemos um desenho de vacina indutora de imunidade celular que tentava contornar alguns dos problemas que foram observados nessas vacinas”, esclareceu o médico Edecio Cunha Neto. Ele conta que no estudo desenvolvido pela Merck, os pesquisadores usaram “três proteínas grandes do HIV” para induzir a resposta imunológica do corpo humano. A pesquisa da multinacional fracassou. Os voluntários, lembra o médico, tiveram uma “resposta imune desenvolvida a muitas poucas partes da vacina.”

O médico explica que, para ser eficaz, o modelo de vacina já abandonado pela companhia farmacêutica Merck precisaria que as células de defesa reconhecessem “um número muito grande de regiões do HIV”. Afinal, dessa forma, o vírus não teria como passar despercebido pelos linfócitos. Na teoria, essas células, já expostas a um simulacro do retrovírus, atacariam o vírus da Aids, caso ele invadisse o corpo da pessoa imunizada, com muito mais eficácia.

Edecio Cunha Neto espera acertar onde o estudo da Merck falhou. Ao invés de utilizar proteínas inteiras do HIV, com o intuito de criar uma resposta imune do corpo, a pesquisa desenvovida pela Faculdade de Medicina da USP vai usar fragmentos menores do vírus. Fragmentos, ressaltou o médico, “que nós já sabíamos que eram antigênicos, muito antigênicos.”

“Antigênico”, de acordo com o dicionário online Michaelis, é o nome dado a qualquer substância que, quando inserida no corpo, “faz que se produzam como reação anticorpos específicos.” Em suma: espera-se que quando inoculadas no organismo, essas frações minúsculas do retrovírus produzam uma eficiente resposta do sistema imunológico.

“Esses pedaços, eles não estavam dentro, não estavam no contexto das proteínas inteiras, eles estavam isolados”, disse o médico. “Um motivo grande de não reconhecimento de uma região dentro de uma proteína inteira é o que acontece nas regiões vizinhas dela”, prosseguiu. O imunologista da FMUSP esclareceu que foi reunido em uma mesma estrutura, para o desenvolvimento da vacina, “cada pedaço importante com outro pedaço importante.” Nesse processo, continuou o médico, foram identificados 18 pedaços importantes do vírus da Aids (chamados de epítopos).

“Nós encadeamos esses epítopos do HIV em uma fita de DNA, num plasmídeo”, explicou. “E nós fizemos com isso, então, uma vacina de DNA. Vacina de DNA é uma vacina que você ao injetar num indivíduo, ele é capaz de pegar aquele DNA que está lá e traduzir aquele DNA, decodificar os epítopos de HIV, em proteínas, ou seja, nos epítopos do HIV de novo dentro do seu organismo”, esclareceu o médico.

O experimento brasileiro já começou a ser testado em animais. “Nós introduzimos essa vacina em camundongos”, disse Edecio Cunha Neto. “Por que a nossa primeira pergunta era saber se, de fato, essa vacina era imunogênica e se a gente conseguia induzir uma quantidade grande de respostas ao número grande de epítopos diferentes”, explicou. Em resumo: os pesquisadores queriam saber em quantos dos 18 pedaços do HIV, inseridos nos organismos desses animais, haveria algum tipo de resposta imune. Resultado: 11 dos 18 epítopos, “foram reconhecidos” pelo sistema imunológico dos camundongos usados nos testes.

“Nós estamos falando do reconhecimento de 70% da sequência de aminoácidos da nossa vacina”, aponta. “Isso não tem comparação com o que acontece quando você usa uma vacina que é uma proteína do HIV inteira ou uma proteína outra qualquer inteira”, comemora o médico. O imunologista esclare que cada epítopo, ou pedaço do vírus HIV usado nos testes, tem um tamanho que varia de 8 a 20 aminoácidos.

“Digamos que uma proteína tenha 300 aminoácidos”, explica. “Um linfócito T específico ou uma família de linfócitos vai reconhecer uma região determinada, outro grupo de linfócitos T pode reconhecer uma outra região e assim por diante”, acrescenta. Existem, basicamente, dois tipos de linfócitos. O tipo B está relacionado a produção de anticorpos. O linfócito T ataca organismos estranhos que, porventura, invadam o corpo.

“Quando você injetava uma vacina, uma vacina que era proteína inteira, você tinha, em média, para uma proteína inteira, você tinha um epítopo somente que era reconhecido por cada indivíduo”, explica. Entre 15 e 20 aminoácidos “eram reconhecidos dentro uma proteína que tinha 300 aminoácidos”. “A nossa vacina, ela tinha 300 aminoácidos. Quando imunizamos esses camundongos, nós encontramos respostas contra um pedaço que seria correspondente a 220 aminoácidos”, comemora o integrante da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

“Agora nós estamos começando a fazer alguns experimentos com macacos”, adiantou Edecio Cunha Neto, referindo-se ao estágio em que se encontra a pesquisa da vacina para soronegativos. Toda a parte do estudo com primatas tem sido feita na Universidade de Wisconsin (EUA), sob direção do médico David Watkins. O imunologista brasileiro explicou que não há hoje, no país, nenhum laboratório apto a desenvolver pesquisas com animais infectados pelo HIV. O próximo passou, explicou o médico Edecio Cunha Neto, é testar a vacina em seres humanos. Mas isso não vai acontecer antes de 2010. “Nós não temos recursos hoje ainda para o ensaio em humanos porque o custo é muito elevado”, esclareceu.

Léo Nogueira

Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo

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