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Inovação Tecnológica

Fábrica brasileira de chips ficará pronta em 2011

Publicado em 07 outubro 2008

Por Thiago Romero

A primeira indústria de semicondutores ferroelétricos na América Latina será instalada no Estado de São Paulo, no Parque Ecotecnológico de São Carlos, no interior paulista.

O anúncio foi feito na manhã no gabinete do reitor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em São Paulo, pelos representantes das duas companhias responsáveis pelos investimentos no projeto, a norte-americana Symetrix Corporation e o Grupo Encalso-Damha, sediado em São Carlos.

Fábrica brasileira de chips

O anúncio da criação de uma fábrica brasileira de semicondutores foi feita em janeiro deste ano, mas na ocasião faltava definir qual região seria beneficiada com o negócio.

Os chips com memórias ferroelétricas são diferentes dos processadores de computador, que são ferromagnéticos. Uma importante aplicação está nos cartões bancários ou de crédito. As memórias ferroelétricas podem ser lidas e escritas cerca de 100 trilhões de vezes, enquanto a memória magnética de um cartão comum suporta apenas algumas dezenas de milhares de leituras.

Para que o produto seja desenvolvido no Brasil serão investidos até US$ 1 bilhão na nova fábrica. "A estimativa é que as construções tenham início no segundo semestre de 2009 e a operação comece no final de 2011", disse Ricardo Castelo Branco, diretor comercial da joint-venture entre os dois grupos empresariais, à Agência FAPESP.

"A fábrica deve faturar cerca de R$ 100 milhões nos primeiros anos de funcionamento. O mercado mundial de chip de memória gira em torno de US$ 53 bilhões e o Brasil tem entre 1% e 2% desse mercado. O objetivo do empreendimento é faturar com a substituição das importações desses dispositivos. Inicialmente, queremos suprir o mercado brasileiro, mas a idéia é exportar também", disse Castelo Branco.

Transferência de conhecimento

Uma boa notícia para pesquisadores e estudantes brasileiros é que a iniciativa contará com apoio científico e tecnológico do Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos (CMDMC), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da FAPESP, vinculado ao Instituto de Química da Unesp, em Araraquara.

O suporte de pesquisa e desenvolvimento (P&D), que inclui a transferência de conhecimento do processo de obtenção de memórias ferroelétricas e sua caracterização, será coordenado pelo físico José Arana Varela, professor do Instituto de Química e pró-reitor de Pesquisa da Unesp, e pelo químico Élson Longo, diretor-geral do CMDMC. Varela é também vice-presidente da FAPESP.

"A Unesp produz conhecimento, mas não é sua detentora. O país é o grande detentor do conhecimento gerado nas universidades paulistas e cabe à iniciativa privada gerenciá-lo do ponto de vista industrial pensando no desenvolvimento do país", disse Marcos Macari, reitor da Unesp.

O CMDMC conta com cerca de 20 teses de doutorado e dissertações de mestrado concluídas na área de materiais ferroelétricos, especialmente filmes finos para memória. São mais de 60 artigos científicos publicados pelo grupo de pesquisa em revistas nacionais e internacionais.

Aplicações das memórias ferroelétricas

Estima-se que a fábrica gere pelo menos 700 empregos diretos na região de São Carlos, mão-de-obra altamente qualificada que deverá ser formada por mestres e doutores de áreas como química, física, engenharia, matemática e design de circuitos integrados.

Os chips de memória produzidos na fábrica serão usados, entre outras aplicações, nos chamados "cartões inteligentes" (smart cards), que têm aplicações que vão desde movimentações bancárias de entidades financeiras e bilhetes para o transporte público até documentos, telefonia celular e TV digital. Esses chips deverão ser usados ainda na produção de sensores de infravermelho voltados à indústria automobilística

"Essa iniciativa marca a criação de uma cadeia produtiva gerada por um novo segmento industrial no Brasil", disse Luciano de Almeida, secretário-adjunto da Secretaria de Desenvolvimento do Estado de São Paulo, também presente no anúncio da instalação da fábrica no interior paulista.

Semicondutores no Brasil

Segundo ele, a questão dos semicondutores no Brasil sempre envolve discussões complexas, uma vez que tecnologias dessa natureza precisam aliar o grande mercado consumidor em todo o mundo com a capacidade de desenvolvimento de tecnologias cada vez mais avançadas.

"Trata-se de um produto que se modifica a cada seis meses. Estamos confiantes nesse projeto, pois os grupos de pesquisa do Estado de São Paulo vêm demonstrando a capacidade tecnológica necessária para atender essa alta velocidade de desenvolvimento", afirmou o secretário-adjunto.

Fundada em 1986 na cidade de Colorado Springs, nos Estados Unidos, a Symetrix atua na produção de memórias não-voláteis com aplicações eletrônicas, científicas, automotivas, médicas e industriais. A empresa tem cerca de 200 patentes na área de microeletrônica e as licencia para fabricantes no Japão, Coréia, Europa e Estados Unidos.

O Grupo Encalso-Damha é um conglomerado de empresas de construção pesada e empreendimentos imobiliários com mais de 40 anos de atuação em diversos segmentos, entre os quais engenharia civil, agronegócio, infra-estrutura urbana, shopping centers e concessões de rodovias.

A instalação da indústria se beneficiará de um decreto presidencial relacionado ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) da Ciência e Tecnologia, que isenta de todos os impostos federais as empresas do setor de semicondutores, uma das quatro prioridades da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (Pitce) do governo federal.