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Extinto da natureza, mutum-de-alagoas vai voltar ao habitat natural

Publicado em 02 setembro 2019

Natural de Alagoas, primeira espécie de animal extinta na natureza na América do Sul será reintroduzida ao meio ambiente

Pela primeira vez na história da América Latina, um animal que havia desaparecido por completo do seu local natural será devolvido ao ambiente onde nasceu originalmente. O mutum-de-alagoas (Pauxi mitu), que não mais existia na natureza, volta ao seu habitat ainda neste mês graças ao trabalho de um ambientalista que salvou os últimos cinco exemplares existentes na Mata Atlântica em Alagoas.

A força-tarefa montada para cuidar dos protocolos de reintrodução ainda não tem data marcada para acontecer, mas o Ministério Público Estadual já confirmou que será em setembro. Enquanto eles não voltam para a natureza, equipes envolvidas no projeto fazem os últimos preparativos para que o retorno do animal seja feito de forma segura e para que a mata esteja preservada.

De acordo com o promotor de justiça Alberto Fonseca, três casais serão devolvidos à floresta localizada na usina Utinga, que fica em Rio Largo. Mas, enquanto isso não acontece, um grande viveiro está sendo construído na região exatamente com o objetivo de abrigar as aves para que elas passem por um processo de adaptação e, assim, estejam prontas para ganhar a liberdade.

“Esse é um sonho que está sendo construído a muitas mãos, com gente dedicada, que tem amor à natureza e que quer mostrar ao mundo que ainda é possível termos um meio ambiente equilibrado, com fauna e flora coexistindo ao lado dos seres humanos. Foram muitas reuniões, ao longo de anos, até chegarmos a esse momento de pré-soltura. Vários protocolos e termos de ajustamento de conduta (TAC) foram celebrados de modo que pudéssemos preparar o terreno para chegada das aves. E olha, saber que estamos na contagem regressiva para vê-las soltas, livres, vivendo no seu local de origem, chega a ser emocionante”, disse Fonseca.

O primeiro casal chegou em 2017

Para testar a capacidade do mutum-de-alagoas de se readaptar ao seu habitat natural, em 2017, essa mesma força-tarefa, formada por diversos pesquisadores, criadores e instituições, trouxe um casal de Minas Gerais para Alagoas. Até hoje, macho e fêmea estão em um viveiro instalado dentro do Centro de Educação Ambiental Pedro Nardelli, situado na usina Utinga, que aceitou ceder parte da sua área para o projeto.

O investimento inicial de aproximadamente R$ 500 mil, oriundos de um TAC celebrado pelo Ministério Público, ajudou a tornar realidade a primeira reintrodução na América do Sul de uma espécie já extinta na natureza. O único exemplo conhecido de tal iniciativa realizada até hoje nas Américas aconteceu no Havaí (EUA), algumas décadas atrás.

Os mutuns, que foram trazidas para Alagoas em um voo comercial, fazem parte do plantel da Crax Brasil – Sociedade de Pesquisa da Fauna Silvestre, que fica em Contagem, Minas Gerais.

Como o Mutum-de-Alagoas conseguiu se livrar da extinção?

Foi o ambientalista Pedro Nardelli, empresário carioca, quem veio salvar o animal da extinção. Em 1976, ele descobriu que o mutum-de-alagoas estava desaparecendo. E a sua primeira experiência na mata rendeu até uma história engraçada.

“Depois de muito peregrinar, descobri que havia um mutum preso. Fiquei curioso com a informação e fui à delegacia para saber o que o coitado do animal havia feito para estar atrás das grades. O policial me disse que um camarada fora detido porque bateu na esposa. E como o sujeito estava acompanhado do bicho na hora do cumprimento do mandado, o mutum foi junto, mesmo não tendo nada a ver com a confusão entre marido e mulher (risos). Acho que esse foi o único caso no mundo onde um animal ficou detido num xadrez humano”, relembrou Nardelli, quando esteve em Alagoas em 2017.

E passado esse episódio, ele conseguiu convencer o dono a trocar o mutum-de-alagoas por um faisão. Logo em seguida, em 1978, Nardelli voltou ao estado, dessa vez, com uma expedição, e ficou dois anos embrenhado na mata atlântica alagoana.

Fez amizade com alguns caçadores, que transformou em parceiros na busca por novos mutuns. Seu objetivo era fazer com que eles não matassem os poucos exemplares que ainda poderiam existir naquela localidade, já que o mutum-de-alagoas era alvo fácil por causa do seu tamanho.

Em 1980, o ambientalista voltou para o Rio de Janeiro com cinco indivíduos. Eram os últimos vivos e, exatamente por isso, Nardelli decidiu salvá-los do completo desaparecimento. Foi quando teve início a reprodução em cativeiro.

Tal trabalho de reprodução foi continuado pelos criadores mineiros Moacyr Dias e Roberto Azeredo. “A Crax foi a responsável por um excepcional sucesso reprodutivo. Lá, atualmente, existem hoje aproximadamente 100 aves mantidas sob rigoroso controle genético e sanitário”, explicou o ornitólogo Luís Fábio Silveira, Curador das Coleções Ornitológicas do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP).

Infelizmente Pedro Nardelli não poderá acompanhar a devolução do mutum-de-alagoas ao seu ambiente natural. Ele faleceu no dia 24 de agosto de 2019.

O mutum

O mutum-de-alagoas é uma ave de grande porte, dispersora de sementes e que possui um papel central na regeneração das florestas onde vive. A espécie habitava apenas a estreita faixa de Mata Atlântica de baixada no estado de Alagoas, e hoje é uma das duas espécies de aves endêmicas do Brasil já extintas na natureza.

“Graças aos esforços de criadores, ONGs, governos estadual e federal, pesquisadores brasileiros e o apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o Brasil é, mais uma vez, pioneiro em iniciativas inovadoras em conservação, e demostra que a sinergia e a proatividade entre os diversos atores traz benefícios tangíveis à sociedade e à natureza”, destacou Luís Fábio Silveira, ornitólogo e Curador das Coleções Ornitológicas do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP).

“Hoje só temos que comemorar essa expectativa de ver o mutum livre. Sua soltura coroa o trabalho de um grupo de abnegados que se esforçou para devolver à natureza um animal extinto da mata desde o final da década de 1970. E isso representa um sonho não só nosso, mas especialmente do Nardelli, que foi o responsável por resgatar o mutum, há 40 anos. Infelizmente, ele não estará entre nós para ver aquele seu desejo se tornar realidade. Porém, sei que, onde estiver, também estará celebrando junto conosco. É a ave símbolo do estado de Alagoas voltando a morar no lugar de onde ela nunca deveria ter saído”, disse Fernando Pinto, do IPMA.