Notícia

Correio Popular online

Expressão traduzida em movimentos

Publicado em 14 fevereiro 2017

Por Inaê Miranda

Um time de pesquisadores-empreendedores está dando um novo significado para as nossas expressões faciais. Eles desenvolveram o Wheelie, o primeiro programa de computador do mundo capaz de traduzir os movimentos do nosso rosto, como um piscar de olhos, um beijo ou um sorriso, em comandos para a cadeira de rodas. O mecanismo, que alia tecnologia 3D a algoritmos inteligentes, é capaz de dar autonomia para as pessoas que não conseguem movimentar as mãos para controlar a alavanca de uma cadeira de rodas motorizada. O protótipo já está sendo testado com sucesso e a previsão é colocar o produto no mercado em 18 meses.

A Hoobox Robotics, startup que desenvolveu o projeto, está incubada na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), por onde passaram todos os pesquisadores, e planeja levar a tecnologia para o Vale do Silício, na Califórnia, ainda este ano. Nos corredores da Faculdade de Engenharia Elétrica, onde fica o laboratório, o programa Wheelie já vem sendo testado em uma cadeira. A pessoa pode usar as expressões faciais favoritas para controlar os movimentos. Em um levantar de sobrancelhas, a fisioterapeuta Renata leva a cadeira para a direita. Ela coloca a língua para fora e a cadeira vai para a esquerda. Em um sorriso completo faz o equipamento parar. As expressões podem ser outras como um beijo ou micromovimentos nos olhos, por exemplo.

Paulo Gurgel Pinheiro, pesquisador e presidente da Hoobox Robotics, explica que a ideia de desenvolver o programa nasceu no ano passado. “A gente estava no aeroporto e tinha uma menina esperando o voo na cadeira de rodas. O pai movimentava a cadeira porque ela não movia nem pernas nem braços. Mas, em contrapartida, conseguia realizar todas as expressões faciais. A gente pensou: por que não pegar nossa experiência com tecnologia 3D e a inteligência artificial para que ela pudesse usar as expressões para movimentar a cadeira de rodas?”

Ele explica que alguns usuários utilizam outras tecnologias para movimentar a cadeira. O problema é que a maioria delas exige que o usuário coloque algum sensor no rosto. O que é incômodo e invasivo, e muitas vezes não responde bem. O diferencial do Wheelie é que ele utiliza câmara 3D e, desta forma, não há sensores corporais. O programa de computador é capaz de reconhecer quase uma dezena de expressões faciais com eficiência. Além disso, não exige treinamento. O computador não precisa ter visto a pessoa antes para funcionar com ela. “Atualmente, o nosso programa consegue até adivinhar as expressões que serão realizadas.”

O projeto completou seis meses e segue na fase de protótipo funcional em experimentação. Pinheiro explica que o projeto é o Kit, que vem com um computador de bordo com o Wheelie instalado, uma câmara 3D, uma haste semi-flexível para instalar a câmara na cadeira de rodas e o Gimme, uma garra colocada em cima do joystick que permite que o sistema seja usado em qualquer cadeira.

Ele esclarece que a Hoobox não vende a cadeira, de modo que qualquer pessoa que já tenha uma cadeira motorizada pode aproveitá-la, por meio da tecnologia, para receber os comandos de um computador. Como se trata de protótipo, o produto ainda não está no mercado, mas já tem usuários testando a solução e alguns deles, no Vale do Silício, já pagam pelo programa. Eles quiseram comprar para continuar usando em casa. “Atualmente, para esses casos, nós enviamos o kit de forma gratuita e fechamos contratos de 5 meses, onde o usuário paga 300 dólares por mês. Assim ele não precisa comprar o equipamento todo, mas pode utilizar o sistema no dia a dia, nos ajudando a melhorar o produto.”

Objetivo é colocar o produto no mercado em 18 meses e, para isso, o programa precisa de recursos. A empresa está submetendo o projeto para receber a segunda rodada de investimento — para até 24 meses — da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio do Pipe, programa que apoia a execução de pesquisa científica ou tecnológica em micro, pequenas e médias empresas de São Paulo.