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Diário Oficial do Estado de São Paulo

Exposição divulga biodiversidade da Amazônia com ciência e arte

Publicado em 12 junho 2018

“A gente só vai conseguir preservar as florestas quando entender o valor delas e de onde vieram as suas plantas”, salienta a bióloga Lúcia Lohmann, professora do Departamento de Botânica do Instituto de Biociências da USP, em vídeo da exposição Amazônia: Os novos viajantes.

Em cartaz no Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia (MuBE) até 29 de julho, com entrada gratuita, a mostra resulta do esforço de aproximar a Amazônia das pessoas e de mostrar a beleza de seu bioma. “Para isso, a gente buscou uma abordagem integrativa, que alia ciência, arte e história”, explica Lúcia, que responde pela curadoria ao lado de Cauê Alves, do MuBE.

A exposição foi criada como parte do projeto de pesquisa Estruturação da Biota Amazônica e seu Ambiente: Uma Abordagem Integrativa, desenvolvida desde 2012 com financiamento da Fapesp, da National Science Foundation (NSF) e da Nasa. “É uma parceria entre Brasil e EUA, com a participação do geólogo Paul Baker, da Universidade Duke, e que tem como finalidade a integração de informações genômicas (biológicas) e dados das Ciências Exatas, no caso a geologia, para que se possa entender como a Amazônia se formou nos últimos 30 milhões de anos. Queremos saber, por exemplo, quando surgiram os rios e as várias espécies de sua biodiversidade”, esclarece a bióloga.

De acordo com ela, a proposta da mostra ocorreu naturalmente no início da pesquisa, em virtude da parceria. “Nos EUA existe a tradição de realização de exposições para a divulgação das pesquisas científicas, o que é uma prática importante, que queremos desenvolver aqui também”, informa.

A iniciativa ganhou no MuBE espaço ideal, pois a montagem de Amazônia: Os novos viajantes tornou-se marco do resgate da vocação original da instituição, criada em 1986, que se tornou centro cultural dedicado a iniciativas voltadas à ecologia, além das dedicadas à escultura.

Para a montagem do projeto foi realizado um concurso vencido pelo premiado arquiteto Paulo Mendes da Rocha. O jardim, por sua vez, leva a assinatura de Roberto Burle Marx. “A segunda missão acabou se perdendo ao longo dos anos”, explica Cauê Alves, que assumiu a curadoria da instituição para a nova fase.

Cenário abrangente – Dividida em três módulos complementares, a exposição compõe um cenário abrangente da Amazônia. De acordo com os curadores, a ideia foi recuperar o olhar diversificado dos naturalistas do século 19, que não apresentava os limites entre arte e ciência impostos com a especialização no século seguinte.

No módulo histórico, portanto, destacam-se as obras dos alemães Carl Friedrich Phillipp von Martius e Alexander von Humboldt, viajantes que desbravaram o território brasileiro para produzir mapas e investigar a fauna e a flora. Humboldt viajou pela Amazônia entre 1799 e 1804.

Martius chegou ao Brasil em 1817 e durante três anos percorreu 10 mil quilômetros catalogando e registrando espécimes vegetais. A litografia Amazonenstrome é um dos seus registros expostos, assim como mapas e outras obras deles e de artistas que viajaram pela região em várias épocas. Um exemplo é Flávio de Carvalho, que fez uma série de fotografias da floresta em 1958.

No módulo científico é possível assistir ao filme sobre expedição à Amazônia realizada em 2002 pela bióloga Lúcia Lohmann e sua equipe. Dela, além de outros biólogos, participaram a artista plástica portuguesa Gabriela Albergaria e o fotógrafo Léo Ramos. “A proposta deste núcleo é informar o público sobre como se dão os procedimentos científicos no trabalho de campo e depois dele”, destaca Lúcia. “A participação desses artistas naturalmente traz novas interpretações”, acrescenta.

No MuBE, o visitante pode ver peças do equipamento utilizado para a coleta de plantas, como tesoura de alta poda, binóculo, peçonha (para escalar árvores), lupas, roteiro e caderno de campo, e para o trabalho em laboratório. Em outra vitrine, artigos científicos representam a etapa final do processo de investigação. Segundo a bióloga, a pesquisa já resultou em mais 100 trabalhos publicados e, ao todo, serão 150, produzidos por uma equipe de 30 pesquisadores e 70 alunos de pós-graduação de várias instituições.

No último módulo, o artístico, foram reunidas obras de técnicas variadas, entre as quais estão as resultantes do próprio projeto, ou seja, aquelas concebidas por Gabriela Albergaria e pelo fotógrafo Léo Ramos Chaves a partir da expedição.

Junto a elas, pode-se observar peças de autores que também foram inspirados, em situações diversas, pela exuberância da natureza amazônica e pela preocupação ambiental. Há os volumes que lembram barcos de Marcone Moreira, o solo de Nem tudo que reluz é ouro, de Simone Fontana Reis, as fotografias de Luiz Braga e Cláudia Andujar e a obra sonora de Cildo Meireles, Rio Oir, com sons das águas, entre outras.

Na área externa são apresentados trabalhos voltados à conscientização sobre efeitos da destruição da floresta: há os troncos queimados em leito de areia vermelha, como chamas, com plantas que tentam brotar, de Fernando Limberger, e a Green house, uma estufa repleta de plantas de plástico, de Alberto Baraya.

Simone de Marco

Imprensa Oficial – Conteúdo Editorial

SERVIÇO

Exposição Amazônia: Os novos viajantes

MuBE – Rua Alemanha, 221

Jardim Europa

De terça-feira a domingo, das 10 às 18 horas

Entrada franca

Perspectiva diferente

“Achei muito legal, principalmente a parte da pesquisa, porque passa uma ideia do que está sendo feito pelo meio ambiente”, opinou Wesley Jesus, de 23 anos, que visitou a exposição em um intervalo de trabalho como motorista de aplicativo.

“Eu estava passando por aqui e como tinha pouco movimento resolvi parar e conhecer o museu”, contou. Para ele, que descobriu o tema da mostra no próprio local, trata-se de uma iniciativa importante por aproximar a perspectiva da floresta da vida urbana.

O estudante de arquitetura e urbanismo Yuri Ramos, de 23 anos, também gostou de ver uma exposição sobre o que conhece pouco. “A floresta é um ambiente muito curioso e ao qual a gente não tem muito acesso”, diz. Acompanhado da amiga Maiara Heleodora, de 24 anos, se programou para visitar a instituição, onde nunca havia entrado. “Eu só conhecia a parte externa. É um local bem bacana”, elogiou.

Recém-formada em comunicação social, Maiara ficou atenta aos estudos botânicos. “Acho que chamaram a minha atenção por se tratar de um tema diferente”, ressaltou.