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Diário Oficial do Estado de São Paulo

Exposição de crianças a substâncias contaminantes é tema de pesquisa

Publicado em 30 junho 2018

Estudo inédito realizado na América Latina e no Hemisfério Sul, conduzido por pesquisadores brasileiros e norte-americanos, revela que crianças brasileiras estão expostas a diferentes substâncias químicas, presentes em plásticos, utensílios de bebês, cosméticos e outros produtos industrializados. Essa situação, a longo prazo, pode comprometer a saúde das crianças.

São os chamados disruptores endócrinos, presentes em plásticos, cosméticos e utensílios para bebês, muito consumidos no Brasil

Esse é a uma das conclusões de um trabalho do pesquisador Bruno Alves Rocha, durante seu pós-doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da Universidade de São Paulo (USP), com supervisão do professor Fernando Barbosa Júnior. Houve ainda a parceria do Departamento de Saúde do Estado de Nova York, com supervisão do doutor Kurunthachalam Kannan, indiano radicado nos Estados Unidos.

No estudo realizado em 2016, avaliou-se a concentração de diferentes disruptores endócrinos na urina de 300 crianças de 6 a 14 anos de idade, moradoras das cinco regiões brasileiras. Disruptores endócrinos, explica o farmacêutico, são substâncias químicas presentes em cosméticos, produtos de cuidado pessoal, utensílio de bebês e outros itens, capazes de interferir na função hormonal normal do sistema endócrino. “No caso das crianças, o sistema reprodutivo está em fase de amadurecimento. Por esse motivo, o excesso de contato com essas substâncias ocasiona prejuízos hormonais”, acrescenta.

Análise da urina – A situação é preocupante, pois o Brasil é um dos líderes mundiais na venda e consumo de produtos de cuidado pessoal, fontes importantes de exposição a esses contaminantes.

A pesquisa envolveu a análise da quantidade das seguintes substâncias na urina: bisfenóis (encontrados em plásticos; legislação proíbe presença em produtos infantis como mamadeiras), parabenos (utilizados como conservantes em cosméticos, alimentos, medicações e desodorantes), benzofenona (usado em filtro solar e em cosméticos como baton), ftalatos (usados em produtos à base de PVC para garantir sua durabilidade e transparência) e triclosan (assim como os parabenos, oferece ação antiséptica em itens como sabonete e creme dental).

“A maioria desses agentes têm regulamentação brasileira específica que limita sua quantidade nos produtos”, informa Rocha.

Com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o farmacêutico realizou as análises laboratoriais durante um estágio no Departamento de Saúde de Nova York. Ele informa que esse foi o primeiro estudo brasileiro do gênero, envolvendo crianças expostas a desreguladores endócrinos.

Obesidade e câncer – “Concluímos que alguns desses contaminantes foram encontrados em concentrações mais elevadas do aquelas observadas em países da Europa, Estados Unidos e Canadá”, informa. Essa exposição, a longo prazo, diz ele, está associada a algumas doenças como obesidade, diabetes, alguns tipos de câncer (como de mama), infertilidade e endometriose.

Na sua avaliação, os órgãos competentes brasileiros, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deveriam intensificar a fiscalização para o comprimento da legislação. “Falta controle”, lamenta o farmacêutico.

“Nosso estudo revela que parabenos, benzofenonas e triclosan foram os contaminantes identificados em maior concentração nas urinas, o que sugere que os cosméticos e os produtos de cuidado pessoal são as principais fontes de exposição a esses contaminantes”, informa o especialista. Outras constatações que confirmam a afirmação acima: a urina das meninas apresentou maiores quantidades dessas substâncias e a frequência de uso foi maior nas regiões Norte e Nordeste do Brasil, provavelmente, por serem áreas mais quentes.

Presença de bisfenol A – Outro disruptor endócrino que se destacou nos resultados foi o bisfenol A, substância utilizada na produção de alguns tipos de plásticos e resinas. Embora seu uso em mamadeiras seja proibido no Brasil desde 2012, o bisfenol A foi detectado em 98% das amostras. De acordo com Rocha, a exposição ao bisfenol A é grande. A molécula está presente em alimentos enlatados, garrafas plásticas de água, brinquedos, papel térmico e inclusive na poeira de ambientes fechados. Apesar do achado, os níveis de bisfenol A encontrados nas amostras brasileiras foram similares aos de países como EUA e Canadá, e muito menores do que os observados na Índia e China.

A expectativa dos pesquisadores é que o estudo colabore para que os órgãos competentes passem a atuar com mais rigor na fiscalização dos produtos comercializados. O Centro de Informação e Assistência Toxicológica de Santa Catarina (Ciatox-SC) elaborou estudos relacionando essas substâncias e os problemas causados por elas (veja em https://goo.gl/uJpkA9).

Os resultados do trabalho foram publicados em abril na revista Environmental International, importante veículo de divulgação científica mundial da área.