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Dourados Agora

Exposição ao chumbo produz comportamento antissocial em jovens

Publicado em 18 março 2012

Uma pesquisa da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP mostra que a exposição ao chumbo leva ao aumento das atitudes transgressoras e causa prejuízos psicológicos em crianças. Pesquisadores estrangeiros já haviam observado danos semelhantes.

De acordo com o estudo, o corpo de crianças absorve chumbo com mais facilidade que o de adultos. Além disso, os pequenos tendem a colocar objetos como brinquedos na boca, aumentando o risco da exposição.

" Não há um nível de exposição ao chumbo que seja seguro à saúde humana. Estudos recentes têm demonstrado prejuízos neurocomportamentais ligados a concentrações muito baixas no sangue" , diz a pesquisadora responsável pela pesquisa, Kelly Polido Kaneshiro Olympio.

Para o levantamento, foram selecionados 173 jovens em Bauru, no interior de São Paulo.

Os selecionados residiam em bairros com altos índices de violência. Kelly analisou o esmalte - a parte que enxergamos do dente - para identificar a carga corporal de chumbo nos jovens.

Também foram aplicados questionários a pais e filhos sobre o estabelecimento de comportamento antissocial, cometimento de atos infracionais, condições familiares e contexto socioeconômico.

O cruzamento dos dados apontou uma associação entre agressividade, tendência a quebrar regras, problemas sociais, e queixas físicas com maiores níveis de chumbo no corpo.

Proximidade

Ainda de acordo com a pesquisadora, os mais afetados viviam em regiões próximas a fábricas que utilizam o chumbo ou que conviviam com empregados dessas empresas.

" O metal está presente em muitos itens do nosso cotidiano, como cerâmica, plásticos, pigmentos e baterias.

Também em esmalte anticorrosivo para portões, brinquedos piratas e produtos domésticos de baixa qualidade" , explica.

Ela ressalta que a redução do uso de chumbo é muito desejável. " Há um movimento global da Organização Mundial da Saúde (OMS) para eliminação de chumbo em tintas.

Também preocupa a contaminação pelo metal causada pelas baterias, devendo haver um esforço para que se regule o caminho percorrido por este produto, desde sua origem até o descarte final" , explica.

E é necessário que haja uma fiscalização mais rigorosa sobre os importados, " principalmente aqueles de baixa qualidade destinados ao público infantil" , conclui.

Além disso, a pesquisadora recomenda a conscientização de pessoas que trabalham com chumbo, para que saibam evitar ou minimizar a exposição e não levem a ameaça para casa.

E é preciso reforçar a vigilância ambiental dessas indústrias, para minimizar a exposição da população vizinha e os consequentes efeitos à saúde.

Prejuízos

Os prejuízos nos jovens permanecem até idades mais avançadas. Um estudo publicado nos Estados Unidos, em 2008, mostrou uma associação entre exposição a chumbo durante o crescimento e comportamento criminoso em adultos.

Neles, a exposição pode causar hipertensão, neuropatias, perda de memória e irritabilidade, entre outras doenças. Pode-se chegar até a morte, dependendo do nível da exposição.

Segundo Kelly, a América Latina está pouco preparada para lidar com a situação.

No Brasil, só em 2008 foi aprovada uma lei que limita a quantidade de chumbo na fabricação de tintas imobiliárias e de uso infantil e escolar, vernizes e materiais similares.

A situação é diferente nos Estados Unidos, onde o uso é restrito há mais tempo. Lá, a lei foi recentemente atualizada, delimitando a concentração de chumbo permitida a níveis mais baixos do que os fixados no Brasil.

" Ainda precisamos conhecer a extensão do problema da contaminação por chumbo no Brasil" , diz Kelly.

No momento, ela coordena uma pesquisa sobre a exposição de crianças ao chumbo no município de São Paulo, que vem sendo desenvolvida no Departamento de Epidemiologia da FSP, sob a supervisão da professora Maria Regina Alves Cardoso, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa (Fapesp), OMS e Organização Panamericana de Saúde (OPAS).(Isaude.net)