Notícia

Gazeta Mercantil

EXPERIÊNCIAS COM A PELE DOS OUTROS

Publicado em 11 junho 1996

Por WASHINGTON NOVAES
Era uma tarde quente e pesada de outubro de 1993. Enquanto Brasília se agitava em torno dos mais recentes escândalos no Congresso Nacional (a CPI do Orçamento), a umas poucas centenas de metros, no auditório do Itamaraty, um homem sozinho, apenas com sua voz, restituía a esperança às poucas dezenas de pessoas que foram ouvi-lo. Era Ignacy Sachs, o economista que viveu 14 anos no Brasil e hoje, como diretor do Centro de Estudos do Brasil Contemporâneo, na França, é uma das pessoas mais respeitadas no que se refere a desenvolvimento sustentável. Sachs começou desmontando a teoria do triunfo do neoliberalismo depois da derrocada do socialismo de Estado. Mostrou que os países arautos desse neoliberalismo querem vender o modelo para os subdesenvolvidos, mas não se comportam dentro dos padrões que apregoam. Ao contrário, são protecionistas no comércio internacional, subsidiam setores deficitários de suas economias, impedem o acesso de terceiros a tecnologias de ponta e assim por diante. Adoram fazer experiências com a pele dos outros, disse Sachs. Desse Primeiro Mundo, acredita ele, não devemos esperar nada, até mesmo porque já tem dezenas de milhões de desempregados (sem falar nos empregos subsidiados pelos governos) e está às voltas com as pressões da imigração. A curto prazo, não haveria solução: com a automação provocada pelo avanço tecnológico, hoje, nos países industrializados, criar um único emprego industrial exige um investimento médio de 1,4 milhão de dólares. Só para empregar os já desempregados, seria preciso investir uns 7 trilhões de dólares. Esse dinheiro não está disponível. Porque já foi para a especulação financeira. Em outubro de 1993, Sachs já falava num giro especulativo da ordem de 1 trilhão de dólares por dia, 250 trilhões por ano, trinta e tantas vezes mais que todo o comércio mundial ao longo de um ano. Se alguém argumentar que o Primeiro Mundo tem defesas para esses males, principalmente o desemprego, disse Sachs, cabe lembrar que "o welfare state só funcionou enquanto ninguém precisava dele". O que o Primeiro Mundo vai fazer - pensa o economista - é fechar-se em fortalezas inacessíveis ao Terceiro Mundo. E intensificar suas vantagens em relação a ele. O que nos caberia é pensar em alternativas. Se tivéssemos o bom hábito de ouvir e acompanhar a experiência dos que sabem mais - como Sachs -, talvez não estivéssemos hoje enfiados nos apertos em que vivemos -quando a palavra de uma única pessoa (Rudiger Dornbusch) é capaz de fazer tremer as colunas do templo. Depois da porta arrombada, há pouco mais de 10 dias, em Paris, o presidente da República ouviu conselhos de muitas personalidades, entre elas o ex-presidente da Comunidade Européia, Jacques Delors, que sugeriu a criação de um Conselho de Segurança Econômica. Ignacy Sachs, que também estava lá, disse não acreditar que nada novo ou importante nasça no Primeiro Mundo, onde cada país está interessado em salvar a própria pele, sem disposição de abrir mão de qualquer parcela de sua soberania para encontrar uma fórmula capaz de enquadrar a especulação (agora já em torno de 1,7 trilhão/dia). O Brasil é que deveria organizar essa discussão. Mas por onde começar? Em artigo aqui mesmo na GAZETA MERCANTIL, o ex-presidente do Banco Central dos EUA, Paul Volcker, sugeriu a criação de um mecanismo internacional de controle da especulação. Mas retendo todo o controle nas mãos dos três "grandes": EUA, Europa, Japão. George Soros, o megainvestidor, num livro que está nas livrarias ("George Soros", Editora Nova Fronteira), propõe que "todos os derivativos comercializados por bancos deveriam ser registrados no Banco de Compensações Internacionais, o BIS, em Basiléia, através de agências regulatórias nacionais. O BIS poderia estudá-los, reunir dados, estabelecer requisitos de capital estabelecido e, quando necessário, desencorajá-los, aumentando os requisitos de capital ou banindo-o totalmente". São curiosas, aliás, 7 as referências de Soros no livro ao Brasil (escrito em 1995). Para ele, "o Brasil não tem um problema sério. Ele tem uma economia um pouco aquecida e sua moeda está um pouco supervalorizada (...). Mas a balança comercial pode ser corrigida. A taxa de câmbio tem sido aumentada e o superávit comercial deve ressurgir. O Brasil é uma economia grande e auto-suficiente; pode sobreviver por si próprio. Se a Argentina pode sobreviver, também o Brasil sobreviverá". Mas Soros não tem nenhuma indicação numa linha mais transformadora. Está - como grande investidor- interessado apenas na sobrevivência do mercado. Outra possibilidade poderia ser buscar propostas que constam, por exemplo, do Relatório do Desenvolvimento Humano 1994, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o PNUD. James Tobin, Prêmio Nobel de Economia em 1981, avançou ali a tese de que deveria ser criado um imposto de meio por cento sobre as transações internacionais de divisas. Mesmo reduzida a um décimo da proposta inicial (imposto de 0,0005%), a tese não foi, entretanto, aprovada na Cúpula Social do ano passado, em Copenhague. Outra tese posta sobre a mesa no mesmo relatório pelo Prêmio Nobel de Economia de 1969, Jan Tinbergen, sugere nada mais, nada menos, que um governo mundial, em que agências da ONU, como a FAO, se tornariam ministérios mundiais (no caso, da Agricultura e Alimentação). Também seriam criados organismos como uma Polícia Mundial, uma Autoridade dos Oceanos, um Ministério Mundial da Fazenda, um Banco Central Mundial. Segundo Tinbergen, "algumas dessas propostas estão, sem dúvida, longe de ser alcançadas e para além do horizonte das possibilidades políticas de hoje. Mas o otimismo de hoje, muitas vezes, torna-se a realidade do amanhã". Será? Talvez valha a pena retornar a Ignacy Sachs. Porque na opinião dele, expressa naquela tarde itamaratiana, o Brasil seria hoje o único país em condições reais de pensar alternativas. Em nosso território, acha Sachs, se dão todas as condições objetivas para implantar um novo padrão civilizatório, que ele chama de civilização da biomassa. Porque o mundo terá de ser repensado: estamos no fim da civilização do petróleo e da cultura do desperdício; precisamos de novas matrizes energéticas e novos padrões de consumo, que economizem recursos naturais e energia. Com território extenso, sol o ano todo, água abundante, o Brasil poderia pensar numa civilização da biomassa, em que as biotecnologias sejam o grande motor do desenvolvimento. Desde que seja capaz também de mudar o modelo predatório e expulsor no campo. Sachs lembrou que de certa forma já saímos na frente, com a tentativa do Proálcool, que a seu ver teria de ser ajustada: para que não prejudique as culturas de alimentos e não as encareça; para que não seja fonte de poluição; e para que não seja instrumento de exploração social, com salários próximos da indignidade. Mas seria um caminho promissor, inovador (que o governo -convém lembrar agora - perdeu a chance de corrigir recentemente, nas decisões sobre reajuste de combustíveis). E quando se trata de biotecnologias, já estamos na vanguarda na relação com a biomassa. Está na Embrapa, hoje, o maior acervo de tecnologias de desenvolvimento agrícola e controle biológico de pragas, a começar pelo método de controle das pragas da soja, que nos permitiu economizar alguns bilhões de dólares em pesticidas. Foi o que disse o tranqüilo e suave economista, naquela tarde. Sempre é tempo para ouvir.