Notícia

Jornal do Commercio (RJ)

Expedição termina com dúvidas

Publicado em 01 março 2005

O Ary Rangel, navio de apoio oceanográfico brasileiro, regressou na semana passada para águas nacionais. Essa viagem encerrou oficialmente as atividades de verão 2004/2005 do Programa Antártico Brasileiro (Proantar), iniciada em novembro do ano passado. A 23ª Operação Antártica do Brasil ainda continua até outubro.
Entre as dezenas de trabalhos de pesquisa em curso na área de abrangência da base brasileira Comandante Ferraz, um grupo de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), liderado pelo cientista Volker Kirchhoff, está particularmente interessado no ozônio e na radiação ultravioleta sobre a Antártica.
O estudo sistemático do comportamento dessas variáveis, que vai continuar pelos próximos anos, ampliou bastante o conhecimento científico sobre o buraco de ozônio antártico, mas ainda não respondeu a algumas perguntas importantes.
"A primeira premissa, de que a queda do ozônio estratosférico causa o aumento do buraco sobre a Antártica, já está mais do que demonstrada. O que ainda não está comprovado é o aumento, lento e progressivo, dos níveis de radiação ultravioleta do tipo B ano após ano", diz Kirchhoff. O pesquisador lembra que isso não significa que, quando o buraco se abre sobre o continente gelado, a incidência de raios ultravioleta não seja maior. "Estamos falando sobre um intervalo de tempo maior", explica.
As expedições científicas sistemáticas no sul do planeta, que a cada ano ajudam a esticar a espiral do conhecimento científico, revelaram que o chamado buraco de ozônio aumentou de forma brutal nos últimos dez anos. E, de três anos para cá aproximadamente, esse fenômeno chegou ao seu ponto máximo. "Costumo dizer que o buraco de ozônio, por causa da cobertura geográfica, está saturado", diz o pesquisador do Inpe.

Medições
O que ainda não ocorreu por completo, segundo as medições brasileiras feitas na Antártica, é a chegada ao chamado grau zero de ozônio. Mesmo nos piores dos cenários, alguma quantidade da substância é detectada pelos equipamentos científicos. "Provavelmente chegamos ao fundo do poço. É possível que o ozônio volte a se recuperar a partir de agora. E, mesmo se isso ocorrer, apenas daqui a 100 ou 150 anos é que os níveis estarão iguais aos encontrados nos anos 1950", avalia Kirchhoff.
Terminado o verão começam agora, em março, as atividades científicas de inverno na Antártica. O Inpe será representado pelo técnico Armando Hadano, que dará apoio logístico não apenas ao projeto sobre o ozônio e radiação ultravioleta, mas a outros como o de geoespaço, luminescência atmosférica e de meteorologia. (Agência Fapesp)