Notícia

Jornal da Tarde

Existência, imaginação e reflexão em Ítalo Calvino

Publicado em 17 junho 2000

Por Por Cilaine Alves Cunha
Em o Caminho de San Giovanni, o escritor italiano nos traz suas visões, muitas vezes líricas, acerca do género autobiográfico, do exercício da literatura e das contradições da sociedade Como delimitar o ponto preciso a partir do qual a descrição de um detalhe particular pode reverberar o vasto mundo? Como documentar a paisagem histórica de uma época sem sacrificar a expressão poética e sem perder também, na reconstituição do passado, sua precisão? Qual o fio tênue que separa ou mesmo cruza a memória e a imaginação na composição de uma autobiografia? Esses dilemas atravessam, em linhas gerais, os cinco ensaios de ítalo Calvino, redigidos entre os anos 1960 e 70, publicados esparsamente pelo autor e reunidos por Ester Calvino em O Caminho de San Giovanni (tradução de Roberta Barni. Cia. das Letras, 120 págs, R$ 19.00). Como decorrência talvez desse caráter de obra póstuma, o conjunto de textos articula-se sob a forma da heterogeneidade, marcada pelo traço mais autobiográfico dos três primeiros artigos e pelo maior predomínio da reflexão e da imaginação em dois deles, ainda que, no geral, a mistura entre os três traços seja constante. Os três ensaios iniciais resumem uma tentativa de compreender o impulso literário tendo em vista a variada gama das experiências de vida, a da família, a da guerra ou até mesmo a do cinema. O primeiros deles, "O caminho de San Giovanni", trata de um período intermediário entre a infância e a adolescência, abordando os momentos em que o menino sobe e desce o caminho íngreme que liga a cidade ao campo para ajudar o pai no transporte de alimentos, colhidos na propriedade da família. Aí, o discurso da memória funde as percepções da criança com a reflexão do adulto para compreender dois modos distintos de dar sentido à existência um associado às atividades agrárias do país socialista botânico, que procura estabelecer uma relação harmônica com a natureza, objetivando seu progresso técnico, mas também tentando evitar seu esgotamento pela monocultura] e. assim, sua submissão ao lucro; a outra forma de conceber a existência, delimitada pela visão do menino, recusa a vida no campo e contempla a expectativa de vida urbana aberta pela imagem do mar. Mas do ponto de vista do adulto que olha para trás, é o remorso de quem tomou a direção da cidade, tornando-se parte da sociedade do consumo e traindo os ideais paternos, que abala a tentativa de recuperar a imagem da infância e. conseqüentemente, a fragilidade da memória. Em "Autobiografia de um espectador", o relato da freqüência assídua, quase cotidiana, aos filmes de Hollywood dos anos 30 e 40 não desemboca numa avaliação moral a respeito do abismo, interposto por esse cinema, entre a vida real e sua reprodução sublimada numa "idealização mentirosa". Para o pré-adolescente situado numa província em que cada ação da rotina familiar é programada e dirigida por certa finalidade, o sistema de mistificações e a convencionalidade hollywoodia-nos permitem dilatar epifanicamente os limites do tempo real e revelar as dimensões incomensuráveis do tempo da imaginação. Num momento em que a literatura ainda não havia chegado, o efeito de distancia-" mento dos problemas da vida gerado por Hollywood proporciona a descoberta das imagens e o armazenamento de sensações particulares, decisivas na formação do escritor. Num movimento inverso, o impacto da guerra (e não menos a herança do cinema francês) permite reformular a avaliação de Hollywood, arrancar o indivíduo da coleção de imagens fragmentadas e desconexas da vida e evidenciar os fios intransponíveis que ligam o mundo de dentro ao de fora, a realidade à ficção, desembocando nos questionamentos a respeito do equilíbrio entre a expressão da vida individual e da coletiva. Os horrores da guerra impelem o indivíduo, agora escritor feito, a procurar uma fórmula literária que permita diminuir a distância que separa a percepção subjetiva do impulso de retratar o mais fielmente possível a realidade. Num modelo exemplar, Fellini sobressai-se por sua capacidade de tratar do horror não por meio de nomeações diretas ou mesmo por reproduções parciais, mas pela cadeia de significados formada pelas caricaturas, permitindo aproximar evocativamente a figuração do universal. Mas numa solução própria o narrador submete a enunciação à técnica da associação livre. "Em lembrança de uma batalha" procura recuperar a memória de uma manhã em que combate ao lado dos partigiani. Emblemático da luta I interior, que busca um modo adequado de recuperar a memória da guerra escapando do relato sentimental, o ensaio realiza a incursão nas lembranças pelo vai-e-vem da enunciação em que as várias tentativas de narrar a ação se frustram dramaticamente. Em seus momentos iniciais, o texto expõe desorganizadamente as marcas dos fragmentos; de realidade impressas na memória por meio da anotação da sensibilidade, das carências materiais, das dores e dos sons da guerra que ainda ecoam na lembrança. Abruptamente, no entanto, como na fala de um analisando em que inesperadamente escapa uma imagem que reorganiza o material desconexo, eis que a narração e a imaginação se precipitam para fazer emergir a emboscada, a traição e o descaso com a vida, iluminando retrospectivamente a irregularidade mnemônica e fazendo predominar a objetividade sobre a sensibilidade. Nos dois ensaios finais, ainda que narrados em primeira pessoa, o fio condutor da narração não é mais a contemplação da experiência passada. Em "La poubelle agrée", o narra dor, situado em Paris, medita sobre a transformação do design da lata de lixo e o rito de enchê-la e esvaziá-la para compor uma espécie de meta física irônica desse objeto. Num estilo ao mesmo tempo leve e denso, estabelece um paralelo entre o ciclo de produção industrial e a civilização administrada, de um lado, com a atividade literária, de outro. No sistema de produção industrial de mercadorias, o processo de moenda do lixo e a reciclagem do produto final remetem ao adorniano mundo do "sempre igual", que decreta o fim da experiência e da cultura e, em conseqüência, a impossibilidade da narração. No último ensaio, "Do opaco", as dificuldades da arte de narrar, e não menos a presença da morte, retornam na tentativa de definir a tridimensionalidade da forma do mundo, que, não obstante a carga imagética e a luminosidade fortíssima, não alcança seu avesso opaco e sombrio. Apesar de resumir sucintamente certas experiências do autor, desde a infância em San Remo até a maturidade em Paris, predomina, sobre a sintética narração cronológica da vida, uma reflexão, muitas vezes lírica, acerca do género autobiográfico, do exercício da literatura e das contradições da sociedade, alternando constantemente a visão subjetiva com a objetiva, num estilo em que ensaio e literatura, documentação e ficção, reflexão e imaginação pouco se dissociam Cilaine Alves Cunha, doutoranda em Literatura Brasileira na USP, é autora de O Belo e o Disforme (Edusp/fapesp)