Por décadas, a busca pela longevidade se apoiou em receitas quase sempre envolvendo peixe, azeite, vinho tinto, iogurte, típicos da dieta mediterrânea. Mas um estudo recém-publicado por pesquisadores da USP sugere que viver mais de 100 anos com autonomia e lucidez tem pouco a ver com o que está no prato — e muito mais com o que está no DNA.
Segundo o artigo divulgado no dia 6 na revista Genomic Psychiatry, o Brasil abriga um dos patrimônios genéticos mais valiosos do mundo para entender a longevidade humana extrema. Não devido a hábitos alimentares específicos ou estilos de vida idealizados, mas pela extraordinária diversidade genética da população brasileira.
A miscigenação formada ao longo de mais de cinco séculos, envolvendo povos indígenas, europeus, africanos e imigrações posteriores, criou uma combinação genética única. É nesse mosaico que os pesquisadores encontraram pistas para explicar por que tantos brasileiros ultrapassam a marca dos 100 anos com qualidade de vida.
Tesouro genético escondido à vista de todos
O grupo liderado pela geneticista Mayana Zatz, do Centro de Pesquisa do Genoma Humano e Células-Tronco da USP, analisou mais de 160 centenários brasileiros, incluindo 20 supercentenários (pessoas que chegam a 110 anos ou mais) com idade rigorosamente validada. Entre eles, estavam alguns dos indivíduos mais longevos do planeta: homens e mulheres que desafiam estatísticas globais.
O dado chama atenção sobretudo no caso masculino. A longevidade extrema é muito mais rara entre homens, mas três dos dez supercentenários masculinos mais velhos do mundo são brasileiros. Entre as mulheres, o país também ocupa posições de destaque nos rankings internacionais.
O mais curioso é que esses superidosos não compartilham hábitos de vida padronizados. Vieram de diferentes regiões, classes sociais e contextos históricos. Muitos nunca tiveram acesso regular à medicina moderna, não seguiram dietas consideradas "ideais" e alguns sequer mantiveram peso corporal dentro do que hoje se recomenda.
Futuro da medicina pode estar no DNA brasileiro
O ponto em comum não está no estilo de vida, mas no genoma. Os pesquisadores identificaram variantes genéticas raras, muitas delas ligadas ao sistema imunológico, à preservação cognitiva e à manutenção da função muscular. São genes associados à resistência a doenças e à capacidade de atravessar um século mantendo autonomia, não apenas sobrevivendo, mas vivendo bem.
Supercentenários não são pessoas mantidas vivas por aparelhos, mas indivíduos cujo organismo, por si só, resistiu ao tempo.
Já foram identificadas mais de 160 variações genéticas que parecem proteger o corpo contra doenças e o envelhecimento, e que não aparecem em outros países. Essa mistura genética pode funcionar como uma vantagem, criando defesas naturais que não existem em populações mais homogêneas.
Para os cientistas, estudar os supercentenários brasileiros é como consultar um manual vivo de como o corpo humano pode resistir ao tempo. A ideia, no futuro, é usar esse conhecimento para desenvolver tratamentos que ajudem mais pessoas a envelhecer melhor, inclusive aquelas que não tiveram a sorte de nascer com essa combinação genética especial.
*Com informações de reportagem publicada em
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