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Exercício combate infecção e pode melhorar resposta vacinal

Publicado em 01 setembro 2020

Entre as muitas estratégias não farmacológicas supostamente capazes de fortalecer o sistema imune, o exercício é de longe a que mais encontra amparo científico. Graças aos avanços da Imunologia do Exercício — disciplina que estuda as adaptações imunológicas induzidas pelo esforço — compreendemos melhor como a atividade física combate infecções.

A cada sessão de exercícios, bilhões de células imunes são mobilizadas, especialmente as que exercem as funções de reconhecer e matar patógenos — uma delas denominada “natural killer”, em referência a sua vocação fisiológica contra invasores.

Esse exército de células migra de compartimentos vasculares, baço e medula óssea e circula pelo sangue até atingir órgãos mais susceptíveis à invasão de antígenos, como o intestino e os pulmões. O frequente vaivém de células combatentes – prontamente acionadas pela sirene do exercício – é o que garante o estado de patrulha contra agentes infecciosos, a que chamamos de imunovigilância.

Além de montar uma barricada de enfrentamento a patógenos, o exercício deflagra uma estratégia de resistência à infecção, coordenada pelas citocinas. Secretadas pelos músculos ativos, essas substâncias direcionam o tráfego de células imunes rumo às áreas de infecção e sinalizam a produção de novas células de defesa.

Por fim, sabemos que o exercício regular atenua as concentrações de cortisol – o hormônio do estresse –, que pode se elevar com o isolamento e o sedentarismo e prejudicar funções críticas do sistema imune, como a ação antiviral.

É incerto se (ou como) a atividade física combate especificamente o SARS-coV-2, porém estudos sugerem que o exercício alivia outras infecções. Em camundongos infectados por influenza, por exemplo, o exercício reduz a mortalidade.

Astronautas com melhor capacidade física enviados à missão espacial – condição que deprime a imunidade – sofrem menos com a reativação de herpesvirus, um indicativo de melhor resposta imune global; e apresentam reduzido número de cópias de DNA viral, o que lhes conferiria menor chance de infectar terceiros.

Recentemente, cientistas brasileiros financiados pela Fapesp (sob o risco de rapinagem pelo abjeto PL 529/2020 de João Dória) demonstraram que a irisina – hormônio produzido pelo exercício – modula a expressão de genes que podem reduzir a replicação do SARS-coV-2 em células de gordura cultivadas em laboratório. Os autores especulam que novos fármacos à base de irisina são promissores. Poderíamos dizer o mesmo sobre o exercício, um booster natural do sistema imune?

Também alvissareiro é o potencial da atividade física em incrementar a resposta vacinal.

Pessoas fisicamente ativas vacinadas para influenza apresentam maior elevação de anticorpos em níveis protetores (ou soroproteção) do que as inativas. O exercício também pode melhorar a popularizada imunidade celular (mediada pelos linfócitos T) à vacinação, ao menos em roedores. Num cenário em que as primeiras vacinas para a Covid-19 poderão ser apenas parcialmente eficazes, a atividade física emerge como um potencial “adjuvante comportamental” capaz de salientar o efeito do imunizante.

Se confirmada, essa hipótese seria especialmente relevante a idosos e obesos – grupos de risco à Covid-19 que, como sabemos, desenvolvem resposta imune menos robusta a algumas vacinas. Eis o impasse: ambos os grupos estão (não coincidentemente?) entre os mais refratários à atividade física. Reduzir o sedentarismo dessas populações é tarefa árdua, porém cada vez mais fundamental.

Fonte: Bruno Gualano é professor da Faculdade de Medicina da USP. Fisiologista, conduz estudos sobre promoção de estilo de vida saudável para populações clínicas. / Via Folha de S.Paulo

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