Pesquisadores da USP combinaram exame de sangue com questionário e inteligência artificial para detectar hanseníase precocemente.
Amostras de sangue foram coletadas durante inquérito de Covid-19 em Ribeirão Preto e avaliadas pela equipe da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto.
Foram convidados cerca de setecentos participantes; 224 aceitaram responder ao questionário, e 195 tiveram amostras de sangue analisadas.
Do total, 12 novos casos de hanseníase foram identificados após avaliação clínica, trespassando a suspeita em pessoas sem sintomas claros.
O anticorpo IgM contra o antígeno Mce1A apresentou o melhor desempenho entre os testes laboratoriais; quando aliado à IA, o método atingiu cem por cento de sensibilidade.
O exame de sangue, aliado a um questionário de suspeição e a uma ferramenta de inteligência artificial, pode ajudar a diagnosticar hanseníase de forma mais precoce no Brasil. Pesquisadores da USP testaram a estratégia em amostras coletadas durante um inquérito de Covid-19, com resultados promissores para detectar a doença em estágios iniciais.
O estudo foi conduzido pelos departamentos de Clínica Médica, Bioquímica, Imunologia e Medicina Social da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, com apoio da FAPESP. Coordena o biomédico Marco Andrey Frade e o trabalho foi publicado na revista BMC Infectious Diseases.
A pesquisa utilizou um conjunto de dados do inquérito sorológico de Covid-19 para identificar pessoas expostas ao bacilo da hanseníase. A ideia foi testar se amostras existentes poderiam indicar novos casos antes do surgimento de lesões graves.
Triagem
A triagem combinou dois instrumentos: um questionário clínico de suspeição de hanseníase (QSH) com 14 perguntas voltadas a sinais neurológicos, e o sistema de IA MaLeSQs para análise das respostas. Além disso, foi aplicado um exame de sangue que detecta anticorpos contra o antígeno Mce1A, ligado ao Mycobacterium leprae.
O antígeno Mce1A difere do tradicional PGL-I por detectar três classes de anticorpos (IgA, IgM, IgG), o que amplia a sensibilidade e ajuda a distinguir exposição, infecção ativa e contato prévio. Em contraste, o teste anti-PGL-I costuma positivizar apenas em formas mais avançadas.
Resultados e avaliação
De aproximadamente 700 participantes do inquérito, 224 aceitaram participar, 195 tiveram amostras de sangue analisadas e 37 compareceram à avaliação clínica. Ao cruzar dados, foram identificados 12 novos casos, cerca de um terço da amostra avaliada.
O IgM contra Mce1A apresentou o melhor desempenho entre os exames laboratoriais, identificando dois terços dos casos confirmados. A combinação com IA elevou a sensibilidade a 100% na triagem para casos suspeitos, segundo os autores.
Impressões sobre o diagnóstico
O pesquisador ressaltou que o exame de sangue não confirma hanseníase sozinho, mas sinaliza quem deve ser avaliado por um especialista. A estratégia pode fortalecer a triagem no SUS, com custo similar aos métodos atuais e execução semelhante em laboratórios.
Além do diagnóstico, o estudo mapeou a distribuição geográfica dos casos, revelando padrão difuso de exposição. A Hanseníase permanece distribuída de forma ampla na cidade, com pacientes de diferentes perfis socioeconômicos.
Implicações e próximos passos
A hanseníase é uma doença infecciosa que afeta pele e nervos, com mais de 200 mil novos casos anuais no mundo. O Brasil é o segundo país em casos, atrás da Índia, e concentra grande parte das notificações da região.
Os próximos passos incluem validar as ferramentas para uso ampliado no SUS e na atenção básica. Também está em curso uma etapa para aumentar a especificidade do marcador Mce1A, explorando partes da proteína para melhorar a acurácia do teste.