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Ex-chanceler vê “falta de decoro” no governo Bolsonaro

Publicado em 26 maio 2020

Por Redação Digitais

Celso Lafer, 78, diz que confronto e combate não interessam às relações internacionais

O ex-chanceler Celso Lafer, no Roda Viva: ““Nunca vi nada parecido com aquela forma de conduzir uma reunião” (Imagem: YouTube)

Por Anna Scudeller

O ex-ministro das Relações Exteriores Celso Lafer, 78 anos, disse ontem que a falta de decoro ao governo do presidente Jair Bolsonaro compromete a política externa brasileira caracterizada pelo pragmatismo em suas relações diplomáticas. Lafer, que conduziu o Itamaraty em duas oportunidades – nos governos de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso – foi entrevistado na noite de ontem (25), no programa Roda Viva, da TV Cultura, quando disse faltar ao governo federal preocupação com o interesse público na condução do país.

“Nunca vi nada parecido com aquela forma de conduzir uma reunião”, afirmou quando se referiu à reunião ministerial do dia 22 de abril, cujo vídeo foi liberado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na semana passada. No encontro ocorrido no Palácio do Planalto, 41 palavrões foram usados pelos participantes, dos quais 33 apenas pelo presidente Bolsonaro.

Lafer destacou que a forma de fazer política do presidente – calcada no confronto e no combate – ofereceu resultados eleitorais, uma vez que ele foi eleito, mas que não ajuda na condução do país. “Ele fala para pessoas que se identificam com a linguagem dele, mas não serve para governar”, disse o ex-chanceler brasileiro, que já presidiu a Fapesp e foi professor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. “Um governante tem que administrar para a sociedade”, destacou.

De acordo com Lafer, o Brasil sempre se pautou, na política externa, pelo costume de buscar espaços favoráveis, com decoro, estilo e cortesia, procedimento deixado de lado pelo governo de Bolsonaro. Segundo ele, Itamaraty não está tendo o papel que deveria ter durante a crise provocada pela Covid-19, buscando abrir canais de cooperação internacional. “Se houver continuação política do embate e confronto, será preciso outros canais”.

Lafer revelou não observar similaridade entre Bolsonaro e Collor, por se tratarem de situações e figuras muito diferentes na forma de governar. Segundo o ex-ministro, Bolsonaro parte para o confronto e não corresponde ao prescrito pela Constituição para o exercício do cargo, nem em relação à política externa brasileira. Collor, segundo ele, manteve o decoro que a liturgia exige do cargo, mesmo durante a crise que o tirou do governo.

“Toda a reunião [do dia 22 de abril] é um dado que oferece preocupação”, disse ao analisar o vídeo liberado pelo STF. Conforme o ex-ministro, a falta de decoro poderia levar a China a diminuir ou cortar as importações brasileiras de soja, por exemplo. “Não se trata um parceiro como a China da forma como foi tratado”, afirmou ao mencionar as falas do ministro da Educação, Abraham Weintraub, e do deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, sobre a China, a quem responsabilizam pela origem do novo coronavírus.

Lafer considerou “inaceitável” que jornalistas que fazem a cobertura de imprensa do presidente Bolsonaro – confinados ao “cercadinho” e expostos ao xingamento público por parte dos apoiadores do presidente – não estarem completamente seguros para a cobertura de ações do próprio presidente no Planalto. O jurista afirmou ser um cerceamento da atividade da imprensa, por parte do governo federal, não criar condições para o exercício do trabalho dos jornalistas, sendo consequentemente um cerceamento da liberdade individual.

Questionado sobre os desentendimentos entre Estados Unidos e China, o ex-ministro afirmou que o país não deveria escolher um lado do conflito, para evitar futuros constrangimentos. A chinesa da tecnologia Huawei, interessada em vender seu serviço de telefonia 5G para o Brasil, também esteve no centro da entrevista, tema considerado “uma das decisões mais difíceis de serem tomadas” pelo governo brasileiro. De acordo com ele, o uso da telefonia móvel é de interesse da sociedade, que dela fará uso, e não do governo.

Em ano de eleições presidenciais nos Estados Unidos, Lafer supôs que, caso Trump não se reeleja, os movimentos de extrema direita tenderiam ao afrouxamento ao redor do mundo. Contudo, o Brasil poderia ser colocado de escanteio em políticas externas, devido ao apoio demonstrado a Donald Trump pela família Bolsonaro.

Lafer também criticou o papel desempenhado pelo atual chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, que chegou a atribuir ofensas aos autores de um artigo do qual foi signatário, em parceria com outros ex-chanceleres, sobre a atuação do Itamaraty sob comando de Bolsonaro. Lafer citou, em latim, um trecho de “Inferno”, da obra “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, para comentar o palavreado de Araújo: “Não preste atenção nele, mas olhe e vá em frente”.

Uma das principais forças por trás do congresso internacional sobre proteção ao meio ambiente, a chamada Rio 92, o Brasil hoje se defronta com as posições do atual ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que propôs aproveitar o episódio da pandemia para passar medidas de interesse do governo federal. Ele atribuiu, ao evento brasileiro de quase três décadas atrás, a inserção do meio ambiente nas pautas internacionais, sendo o desenvolvimento científico brasileiro – particularmente por obra da Embrapa – o responsável por colocar o Brasil como uma potência agrícola. “E não o desmatamento”, disse ao avaliar que tem levado a alterações do clima ignoradas apenas pelos “negacionistas”, que dizem que mudança climática é um exagero.

Orientação: Prof. Carlos A. Zanotti

Edição: Laryssa Holanda