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Gazeta do Povo online

Evoluindo. Sem muito sucesso

Publicado em 13 novembro 2009

Por Francisco Camargo

Pobre só vai pra frLente quando tropeça. Ou quando a polícia corre atrás. Ou, então, quando lota o ônibus e o cobrador grita: "Mais pra frente, faça o favor!" Como estamos celebrando os 150 anos de A Origem das Espécies e os 200 do nascimento de Charles Darwin, Natureza Morta recebeu na mansão da Vila Piroquinha a inesperada visita do Beronha. Aflito, nosso anti-herói queria saber coisas da tal "teoria da evolução". O máximo que conseguiu absorver de exemplos de avanço, no Google boteco que frequenta, foram as três pilhérias que abrem a presente coluneta.

Com paciência de Jó (muita, até porque é usuário do SUS), ensaiou algumas explicações, mas desistiu. Não reúne nenhuma das virtudes do personagem do Velho Testamento, começando pela perseverança, é claro. Além disso, apesar do evolucionismo, ainda reza pela cartilha do "cada macaco no seu galho". E mandou a bola pro mato, no caso, Beronha para a biblioteca. E tal qual o famoso passageiro do Beagle, em busca de respostas.

Em todo o caso, e como insistem em ressuscitar figuras como Lombroso e Gobineau, vale a pena beber de fonte segura. Natureza indicou, então, duas edições da revista Pesquisa, da Fapesp, que trazem respostas. As primeiras, do texto de Carlos Haag "O elo perdido tropical", edição de maio. Transcrição de alguns trechos: em 1832, Darwin, que passara quatro meses por aqui, retornava impressionado com o que vira. "Delícia é um termo insuficiente para exprimir as emoções sentidas por um naturalista a sós com a natureza no seio de uma floresta brasileira." O país, porém, aparece de forma bem menos idílica: "Espero nunca mais voltar a um país escravagista."

O estado da enorme população escrava deve preocupar todos que chegam ao Brasil. Os senhores de escravos querem ver o negro como outra espécie, mas temos todos a mesma origem num ancestral comum". "Até hoje, se eu ouço um grito ao longe, lembro-me, com dolorosa e clara memória, de quando passei numa casa em Pernambuco e ouvi os urros mais terríveis. Logo entendi que era algum pobre escravo que estava sendo torturado. Eu me senti impotente como uma criança diante daquilo". Para ele, não havia diferença entre "raça" e "espécie" e sua pesquisa sobre a origem das espécies é também sobre a origem das raças, incluindo-se os humanos. Da edição de março, "Entendendo Darwin", de Mário de Pinna: "Ele entendeu que a vida em nosso planeta está unida por uma rede de relações genealógicas, criada por um processo de descendência com modificação. Assim, todos os seres vivos são relacionados por descendência comum, em graus variados de parentesco. A diversidade da vida é uma função do tempo: os seres vivos são diversos porque se tornaram diversos ao longo do tempo, e não porque foram criados diversos".

Beronha não evoluiu nem regrediu. Saiu como entrou.

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Correção: a Avenida Atlântica fica em Copacabana, e não em Ipanema, ao contrário do que saiu na semana passada. Por causa disso, Natureza levou cartão amarelo; Beronha, um sempre merecido vermelho.

Francisco Camargo é jornalista.