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TN Sustentável

Evento em Curitiba abrirá oficialmente agenda da ONU para 2010

Publicado em 07 janeiro 2010

Por Fabio Reynol

Agência Fapesp

A ocupação desordenada de áreas naturais, a exploração predatória de recursos da natureza e a poluição são algumas ações humanas que têm trazido sérias consequências, levando o planeta a perder cada vez mais espécies animais e vegetais. Para chamar a atenção ao problema, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 2010 o Ano Internacional da Biodiversidade. Um dos eventos que abrirá oficialmente o programa será realizado em Curitiba, nesta sexta-feira (8/1). Estarão presentes autoridades governamentais do Brasil e do exterior, representantes da ONU e pesquisadores.

O Programa Biota-FAPESP será representado pelo professor Roberto Gomes de Sousa Berlinck, do Instituto de Química de São Carlos da Universidade de São Paulo.

"A natureza é uma rede extremamente intrincada que precisa ser mantida para a vida existir. Porém, essa harmonia tem sido cada vez mais ameaçada", disse Berlinck sobre a importância da coexistência das espécies.

De acordo com levantamentos da Convenção sobre a Diversidade Biológica (CBD), órgão da ONU que trata do problema, a taxa de perda de espécies chega a cem vezes à da extinção natural e vem crescendo exponencialmente.Pensando em pelo menos diminuir esse ritmo, em 2002 a Conferência das Partes (COP) da CBD propôs uma série de metas a serem alcançadas até 2010 e obteve o comprometimento de vários países.

Nos moldes da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-15), que em dezembro, em Copenhague, na Dinamarca, fez um balanço dos compromissos assumidos no Protocolo de Kyoto, a COP da biodiversidade tem um encontro marcado para outubro deste ano, na cidade japonesa de Nagoya, a fim de avaliar os resultados das ações assumidas em 2002 para preservar a biodiversidade. Como a reunião de Copenhague, a de Nagoya deverá ser igualmente frustrante. É o que pensa Berlinck, para quem a natureza tem dado sinais de que o problema continua crescendo.

"A morte de recifes de corais no mundo todo e o desaparecimento das abelhas na América do Norte são apenas duas das consequências da destruição de áreas nativas", disse.

Carlos Alfredo Joly, coordenador geral do Biota-FAPESP e professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas, concorda com o pessimismo.

"Precisamos este ano estipular metas mais confiáveis e usar indicadores mais mensuráveis", disse, ressaltando que considera os indicadores escolhidos em 2002 um dos pontos fracos do acordo.

Natureza desconhecida

Joly também chama a atenção para a importância das pesquisas de levantamento de dados como as feitas no Biota-FAPESP, que visam à caracterização, conservação e ao uso sustentável da biodiversidade. "Como saber quantas espécies desapareceram se ainda estamos fazendo os inventários?", disse.

Em dez anos, os pesquisadores do Biota-FAPESP, que tem como foco o Estado de São Paulo, catalogaram cerca de 2 mil novas espécies. Mas, para Joly, é fundamental que programas como esse sejam implantados em outras regiões do Brasil.

"Não sabemos quase nada sobre o Brasil, a última lista oficial da flora brasileira é de 1908. Há somente levantamentos regionais", disse. Joly destaca a necessidade de que sejam conduzidos inventários como o das plantas que produzem flores (fanerógamas) na flora paulista, que conta com o apoio da FAPESP e teve o seu sexto volume (lançado recentemente).

Justamente por ignorar os números exatos, Joly calcula que as estimativas da CBD sobre o desaparecimento de espécies estejam subestimadas. Atualmente, o órgão faz projeções a partir do desaparecimento de hábitats. Para cada unidade de área degradada, estima-se um determinado decréscimo das espécies que nela habitavam. No entanto, sem um levantamento taxonômico adequado não há como saber com exatidão o tamanho das perdas da biodiversidade. Muitas espécies desaparecem sem ao menos serem conhecidas.

Diversidade genética

A sobrevivência das espécies também passa pela diversidade genética, a qual deve ser considerada nos projetos de conservação, segundo os coordenadores do Biota-FAPESP. Indivíduos de uma mesma espécie que possuem pouca variação genética podem ser suscetíveis às mesmas doenças e acabar rapidamente dizimados.

"O mesmo ocorre quando vamos fazer um reflorestamento. Se não considerarmos as diversidades genéticas e não reintroduzirmos todas as espécies envolvidas, a floresta pode morrer depois de uma década por doença ou mesmo pela ausência de um animal polinizador", explicou Joly.

Para trabalhar também com a diversidade dos genes, o Programa Biota-FAPESP deverá aumentar o uso de ferramentas de biologia molecular. "Os felinos selvagens que hoje habitam canaviais e fazendas são geneticamente iguais aos seus ancestrais que viviam nas matas nativas de São Paulo?", questiona Joly. Segundo ele, responder a essa pergunta ajudará a preservar esses animais, o que ressalta a importância da biologia molecular para a biodiversidade.

Berlinck aponta que desconhecer a natureza pode custar caro. "O deslizamento de encostas neste início de ano é uma consequência do desconhecimento do que pode e do que não pode ser feito com a natureza", disse.

Segundo ele, preservar as diversas espécies é uma forma de manter e de garantir qualidade de vida também para as gerações futuras. "No entanto, é preciso que populações e governos conheçam o decréscimo crônico da biodiversidade e tomem iniciativas", disse. É isso que a ONU e os cientistas esperam de 2010.

Biota-FAPESP em 2010

No Ano Internacional da Biodiversidade, o Biota-FAPESP estará envolvido de diversas outras formas, tanto no Brasil como no exterior. No dia 14 de janeiro, Joly representará o programa no evento nos 350 anos da Royal Society Britânica, no Reino Unido. Na celebração, o professor da Unicamp participará como debatedor em discussões sobre biodiversidade e no espaço reservado para pôsteres. No período de 22 a 25 de fevereiro, o Biota-FAPESP participará da reunião do Earth Observations Biodiversity Observation Network (Geo Bon), nos Estados Unidos.

No mesmo mês, nos dias 25 e 26, o programa realizará, na sede da FAPESP, em São Paulo, o Workshop International on Metabolomics in the Context of Systems Biology: A Rational Approach to Search for Lead Molecules from Nature. No dia 22 de maio, para comemorar o Dia Internacional da Biodiversidade, o Biota-FAPESP realizará um evento com foco no Third Global Biodiversity Outlook, que terá a participação do professor Thomas Lovejoy.

Lovejoy, presidente do Centro Heiz para Ciência, Economia e Meio Ambiente e consultor chefe para biodiversidade do Banco Mundial, foi quem introduziu o termo diversidade biológica na comunidade científica em 1980. Em outubro, o Biota-FAPESP participará da COP10, em Nagoya, em dezembro, sediará um workshop de três dias para marcar o fim do Ano Internacional da Biodiversidade e o início do Ano Internacional das Florestas (2011).

• Ano Internacional da Biodiversidade: www.cbd.int/2010 • Biota-FAPESP: www.biota-fapesp.net