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Evasão de alunos em cursos sobe pelo 3º ano seguido e Unicamp planeja ações para reduzir índice

Publicado em 03 abril 2019

A evasão de alunos em cursos de graduação da Unicamp aumentou pelo terceiro ano seguido em 2018, segundo dados fornecidos pela universidade ao G1 por meio da Lei de Acesso à Informação. O total chega a 1.355, o maior número registrado na série desde 2009, e as carreiras que mais tiveram saídas de alunos no período foram ciências sociais, licenciatura em matemática e física.

Em dez anos, a quantidade acumulada entre as opções oferecidas nos três campi corresponde a 12,5 mil. A Pró-Reitoria de Graduação, em contrapartida, planeja realizar um levantamento até o próximo ano com a expectativa de, posteriormente, alcançar redução estimada em 10% no índice verificado; e diz que a ação inclui análises sobre currículos e ambientes onde estão os estudantes.

Além disso, a instituição garante que os números não refletem perda institucional ou do ensino superior, uma vez que há transferências entre cursos da própria universidade, e alega que a taxa é menor do que as verificadas para instituições públicas federais ou privadas. Além disso, a professora Eliana Martorano Amaral avalia que uma das características das gerações mais recentes é a busca por mudanças. A evasão subiu 13,5% no comparativo com 2009 – veja abaixo gráfico.

Atualmente, a Unicamp tem quase 20 mil alunos matriculados em 70 cursos de graduação.

“Existe um componente que tem a ver com a nova geração, que é de mais busca e de menos certeza do que quer fazer. Então, nós temos estudantes que simplesmente não renovam a sua matrícula e as razões de não renovação podem estar na decisão de que ‘esse não é o curso que eu quero fazer’. Não é incomum hoje para essa geração esse tipo de movimento”, explica.

A pró-reitora coloca a “dificuldade de desempenho” como um segundo fator de explicação sobre os desligamentos nos cursos. “A Unicamp tem uma regra que limita e faz projeção se o aluno tem condição de concluir ou não o curso, pelo seu desempenho, e a partir daí ele é informado através de documentação da diretoria acadêmica que ele está com dificuldade. Alguns deles, a partir daí, decidem evadir e procurar outro curso ou instituição”, explica. Segundo Eliana, o regimento interno prevê que o estudante pode finalizar a graduação com acréscimo de até 50% no tempo previsto.

Ao ponderar sobre a característica de mudança nas gerações mais recentes, a docente diz que a universidade registra uma série de casos em que o aluno opta por mudar de curso dentro da própria Unicamp – seja por ter feito disciplinas obrigatórias ou por novamente encarar as provas do vestibular. Entretanto, cada mudança significa a evasão para uma carreira oferecida pela instituição.

“É uma evasão por cursos e não da instituição […] A gente não tem números firmes para saber, por exemplo, a evasão do número superior. Isto é, eventualmente ele saiu da Unicamp por algum motivo, mas resolveu ir para outra instituição e se gradua. Não estamos dizendo que ele saiu da universidade, de que o tempo que ele ficou aqui foi perdido…Não temos essa informação.”

Ao longo do período avaliado, a Unicamp não registrou aumento expressivo em número de vagas abertas, embora tenha adotado medidas que visam elevar a inclusão social – a última vez em que isso ocorreu foi entre 2008 e 2009, quando o total passou de 2.830 para 3.310. Já na edição mais recente do processo seletivo a universidade estadual disponibilizou 3.340 cadeiras para 70 cursos.

Incentivos da universidade

Outro ponto abordado por Eliana em entrevista ao G1 são os incentivos concedidos pela Unicamp aos estudantes de baixa renda. Ela defendeu as medidas para garantir moradia e alimentação.

“A Unicamp disponibiliza cerca de R$ 35 milhões do orçamento para bolsas em geral e o aluno também tem acesso muito grande às bolsas de pesquisa da Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa no estado] e CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico]”, destaca ao falar sobre “facilidade” gerada por causa do conceito da universidade neste campo.

De acordo com a pró-reitora, entre 60% 70% dos alunos da instituição conseguem algum tipo de bolsa, mesmo “sem dificuldade social”. Já sobre moradia, ela diz que o número atende à demanda.

“Nenhuma universidade tem 911 vagas oficiais […] e ano passado terminamos com 200 liberadas. Estudantes veteranos, ao invés de optarem pela moradia, estão escolhendo a bolsa-moradia. A Unicamp tem mais 1,7 mil bolsas […] é uma complementação financeira. Com isso, a gente consegue atender a todos os estudantes que tenham, em princípio, renda per capita de até um 1,5 salário mínimo. Alegar falta de moradia não se configura na demanda que nos chega oficialmente”, frisou ao lembrar que a Unicamp inclui uma faixa de isenção nos restaurantes universitários.

A pró-reitora também lembrou que há bolsas sociais, incentivos para que alunos atuem em projetos nas comunidades e iniciativas em que a Unicamp busca parceiros externos.

Evasões na década

Os três cursos com mais abstenções no ano passado também concentram os maiores índices ao longo ao longo da década. Confira o total por curso em 2017, 2018 e o acumulado desde 2009.

De acordo com a universidade, os índices de evasão por curso refletem demandas de mercado em alguns casos, e o fato de que parte dos alunos opta por cursos menos concorridos no vestibular como uma estratégia de ingresso na universidade e de “testar” a área pretendida.

Para Eliana, os números da Unicamp são positivos quando comparados aos de outras universidades. Além disso, destaca que a taxa é relativamente alta no mundo todo.

“Não existe um número de referência, porque depende do número de matriculados, vagas e outras coisas. Sabemos que a taxa de evasão no ensino privado é muito maior do que no público, e dentro dele as estaduais são muito menores do que federais. As taxas de evasão na Unicamp são muito baixas comparativamente porque no mundo inteiro se sabe que ela existe por causa de elementos que não têm a ver com a instituição.”

Segundo a pró-reitora, a Unicamp trabalha em um projeto estratégico para acompanhar os índices e propor ações. Entre elas, explica, estão a valorização do conceito da permanência no ensino superior, por meio de apoio social e análises sobre currículos e ambientes onde estão os alunos.

“Temos certeza de que nosso apoio é muito amplo, estamos trabalhando em rever todos os currículos para 2020 e para melhorar o ambiente, inclusive com suporte psicológico, ofertas de atividades culturais, físicas, mais próxima ao bem-estar do estudante”, destaca Eliana.

Segundo ela, a Unicamp também planeja fazer entre este ano e o próximo um estudo sobre o que aconteceu com os egressos dos últimos cinco anos, por meio de uma plataforma de encontro. “Queremos saber o que estão fazendo, o que contribuímos, quais as sugestões. Essa avaliação do egresso, e também de quem não foi egresso, mas saiu da universidade por outras causas”, falou ao mencionar que o prazo pode chegar a dez anos, para que os reflexos do mercado sejam analisados.

Formados na década

Embora seja o curso com mais evadidos, ciências sociais também é o que detém maior número de formados entre 2009 e o ano passado. Na sequência estão engenharia mecânica e medicina.

A quantidade total de formados ao longo da década corresponde a 24,4 mil, segundo a Unicamp. Já a carreira que teve mais alunos formados ao longo de 2018 foi a de administração, diz o relatório.

Meta

A pró-reitora foi categórica ao mencionar que a meta da universidade é reduzir o índice de evasão.

“Sou médica de formação e qualquer aluno evadido eu sinto que é um paciente perdido. A meta é reduzir sim, mas quanto vamos conseguir não dá para ter a previsão por causa dos determinantes que precisam ser estudados. Acredito que a gente consegue reduzir pelo menos 10%”, falou a docente sem, contudo, estipular prazo para alcançar este percentual.