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Biocana

EUA pode tomar a frente no etanol celulósico

Publicado em 29 setembro 2009

Processo norte-americano promete ser mais eficiente na produção do etanol de segunda geração. Há mais de três décadas o Brasil desenvolve um dos mais promissores mecanismos para obtenção de etanol no mundo, com um rendimento superior a 90% da transformação do açúcar em combustível renovável. Agora, o país estuda dobrar a oferta transformando os resíduos, bagaço e palha, em álcool. Mas antes, terá de superar obstáculos técnicos tornando os custos de produção menores.

Para responder questões como essa, pesquisadores se reuniram neste mês (setembro), em São Paulo, para discutir novas formas de aperfeiçoar o processo industrial do etanol, durante o Bioen Workshop, promovido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

A obtenção do biocombustível da cana-de-açúcar que consiste na fermentação do caldo extraído da planta, recebeu o nome de Etanol da Primeira Geração, e está próxima do aproveitamento máximo de produtividade. O pesquisador do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), Daniel Atala, calcula um rendimento médio de 91% nas usinas que deve chegar a praticamente 100%, nos próximos anos, com a melhora do processo fermentativo - estágio onde mais ocorrem perdas.

Mas a nova revolução nos números de oferta do etanol deverá acontecer quando os usineiros souberem dominar os mecanismos de produção do combustível a partir do bagaço - que representa até 2/3 da biomassa da cana-de-açúcar. E quem está à frente dos estudos nesse âmbito, não é o Brasil, e sim os Estados Unidos.

Convidado para participar do workshop, o pesquisador norte-americano Lee Lynd falou sobre o bioprocessamento consolidado (CBP, na sigla em inglês), técnica que possibilita em apenas uma fase - e não em quatro, como usualmente - produzir etanol de resíduos agrícolas, ricos em celulose. Lynd utiliza microorganismos geneticamente modificados que produzem anaerobicamente substâncias enzimáticas com potencial mais avançado que as enzimas aplicadas em outros processos.

O CBP foi tema da monografia do pesquisador, em 1979. Deste então os estudos de Lynd têm sido fundamentais para o desenvolvimento do etanol de segunda geração nos Estados Unidos, sendo também um dos líderes do Projeto Global Sustainable Bioenergy: Feasibility and Implementation Paths - equipe formada por cientistas de vários países que se uniram para estudar biocombustíveis.

Estima-se que uma destilaria que produz cerca de 1 milhão de litros de etanol por dia, com o caldo da cana, pode gerar mais 150 mil litros de etanol a partir do bagaço. O estudo, realizado no âmbito do Projeto Bioetanol/Fapesp, acrescenta que em 2025, a partir da aplicação de tecnologias melhoradas, a mesma propriedade conseguirá aumentar a oferta em 400 mil litros.

Daniel Atala, do CTC, acredita que o mundo será capaz de produzir comercialmente o etanol de segunda geração nos próximos dois anos. E, como o pesquisador norte-americano, reconhece que o maior obstáculo a transpor são os custos de processamento - a Mascoma, empresa fundada por Lynd, estaria próximo de obter a aplicação comercial do processo.

O cientista norte-americano estima que a partir da segunda geração o mundo terá condições de atender até 25% da frota de veículos. "A cana, francamente, tem mais mérito em relação a outras culturas. E a biomassa celulósica é uma matéria prima bastante promissora", diz. A cultura do Brasil se destaca por ser mais sustentável em relação às espécies plantadas com a mesma finalidade pelo mundo - tem baixas emissões de gases estufa, elevada produção de combustível por hectares e menores impactos sobre a poluição da água.

Iniciativas brasileiras

No Brasil, a Petrobras está investindo R$ 2,6 bilhões em biocombustíveis no âmbito do Plano de Negócios 2008-2012. Em 2007, e empresa inaugurou uma planta-piloto para estudos em hidrólise enzimática, com substancias produzidas por microrganismos capazes de quebrar o açúcar da celulose transformando em álcool, após o processo de fermentação. A planta foi instalada no Centro de Pesquisa da Petrobras (Cenpes), na Ilha do Fundão, Rio de Janeiro.

O engenheiro químico e consultor da companhia, Marcos Sugaya, afirma que no cenário mundial o país é bastante competitivo e acredita que até 2012 o fluxo comercial entre outras nações tende a crescer fortemente. "A Petrobras iniciou discussões com o Japão e Colômbia. Além disso, países como França e Espanha estudam variar as fontes de combustíveis a partir da utilização do etanol", diz.

O Centro de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), do Ministério de Ciência e Tecnologia, pretende concluir em 2010 outra planta-piloto, em Campinas, interior paulista. O coordenador de pesquisa em hidrólise enzimática do Centro, Carlos Vaz Rossell, destacou que o objetivo é tornar essa tecnologia comercialmente viável apostando que a hidrólise do bagaço de cana-de-açúcar poderá aumentar a produtividade de conversão em 40%, em relação aos padrões atuais de fermentação. Já a Fapesp, tem parcerias com as empresas Dedine e Oxiteno no desenvolvimento do etanol de celulose.

Terceira Geração

Daniel Atala, do CTC, acrescenta que já se discute uma Terceira Geração do etanol, a partir da queima controlada de palha que sobra dos canaviais. "Quando queimados a uma certa temperatura, é possível desmontar esses resíduos em moléculas e obter substâncias para formar o etanol tranqüilamente", conta.

Mas essa fase da produção ainda está muito longe de ser aplicada. Em se tratando de segunda geração, o pesquisador ressalta que o Brasil tem grandes vantagens competitivas, comparado aos Estados Unidos, pois a cultura da cana fornece mais resíduos agrícolas ricos em celulose que a do milho. "A cada ano, as usinas aumentam investimentos na co-geração de energia elétrica, e as caldeiras que hoje utilizam a queima do bagaço como fonte de aquecimento se tornam mais potentes demandando menor quantidade desse material. Logo, sobram, cada vez mais, excedentes de bagaço que poderão ser convertidos em etanol", conclui.

Fonte: Portal Luis Nassif