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Carta Maior

EUA associam Oriente Médio e Tríplice Fronteira em relatórios sobre terrorismo

Publicado em 20 dezembro 2020

Por Isabelle C. Somma de Castro

100 palavras de mais recorrência nos Country Reports on Terrorism 2008-2015 da gestão Obama

Desde 1997, o Departamento de Estado dos EUA publica relatórios anuais com os principais acontecimentos relacionados a atos, atividades de indivíduos e de grupos relacionados ao terrorismo internacional ocorridos no ano anterior. As informações são direcionadas ao Congresso, responsável pela aprovação do orçamento, entre outras demandas voltadas para o setor de defesa. Chamados inicialmente de Patterns of Global Terrorism e, desde 2005, de Country Reports on Terrorism, os relatórios são públicos e, por isso, também se tornam uma valiosa amostra de como a região é representada por cada administração.

O Brasil é mencionado nos relatórios, devido às reiteradas acusações de que a Tríplice Fronteira com Argentina e Paraguai seria um hub de terroristas e/ou responsável pelo financiamento de grupos terroristas. O foco na região continuou com mais ou menos ênfase na última década e meia, apesar de ter sido descartada qualquer relação com os atentados do 11 de Setembro pelo The 9/11 Commission Report, de 2004, e de não haver evidências da participação da comunidade local com as explosões de 1992 e 1994 contra alvos judaicos em Buenos Aires.

Com o objetivo de observar mais de perto como foi essa representação da região nos governos de George W. Bush e de Barack Obama, realizou-se uma análise crítica dos 16 relatórios publicados durante as duas administrações. Além de uma leitura hermenêutica, o software NVivo foi empregado a fim de se elencar as 100 palavras e os principais campos semânticos mais mobilizados nos recortes que mencionam a Tríplice Fronteira.

Excetuando-se os nomes dos três países que dividem a fronteira – Argentina, Brasil e Paraguai – a palavra mais utilizada durante os períodos W. Bush e Obama foi “terrorist”. Enquanto na primeira administração mencionada a palavra foi publicada 92 vezes (11,5 vezes por documento), na segunda foi 192 vezes (24 vezes por documento), mais do que o dobro do anterior. Esse achado parece ser contraintuitivo, considerando-se a promessa de Obama de se afastar da retórica da “Guerra Global ao Terror” (GWOT, na sigla em inglês).

Além de “terrorist”, as palavras mais frequentes nos documentos publicados entre 2001 e 2008 (sob W. Bush) foram “terrorism”, “government”, “money”, “laundering” e “united”. No período posterior, de 2009 a 2016, sob Obama, foram: “border”, “financial”, “security”, “money” e “enforcement”. O campo semântico mais mobilizado, especialmente nos anos Obama, foi o financeiro. Além de “financial” e “money”, outras palavras como “laundering”, “financing” e “FATF” (sigla de Financial Action Task Force) estiveram entre as 25 mais utilizadas.

Tríplice Fronteira: governo Obama mobilizou a palavra ‘terrorist’ mais do que o dobro na gestão Bush (Crédito da imagem)

Financiamento aos terroristas

A principal ideia disseminada pelos relatórios, relacionada ao campo semântico financeiro, foi que a comunidade árabe da região estaria financiando grupos como Hizbullah e Hamas, por intermédio da lavagem de dinheiro. Essa relação foi encontrada com mais ênfase nos documentos publicados em abril de 2006 e abril de 2008, antes dos ataques de Israel ao sul do Líbano, em julho de 2006, e a Gaza, em dezembro de 2008. É necessário relembrar que ambos os grupos mencionados foram antagonistas de Israel, maior aliado americano no Oriente Médio, nos respectivos embates.

A Tríplice Fronteira foi incluída na lista de “safe havens” (refúgios seguros) para o terrorismo internacional na edição publicada em 2006, a mesma que antecede o ataque israelense ao Líbano. Embora nunca tenha apresentado evidências, ou argumentos, que não fossem somente retóricos, a região se manteve na lista juntamente com países como Somália e Afeganistão, por exemplo. Já o território controlado pelas então Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc, hoje o Partido Força Alternativa Revolucionária do Comum), na Colômbia, não foi mencionado na lista, apesar de os EUA considerarem o grupo como terrorista. A lista inclui grupos de pouco mais de 60 países, entre eles o Hizballah e Hamas.

A Tríplice Fronteira permaneceu entre os “safe havens” mundiais até a publicação, em 2013, da edição do Country Reports referente ao ano de 2012. Neste relatório, não foi apresentada qualquer justificativa para a retirada da região. É interessante notar que as negociações formais com o Irã, que resultaram no acordo nuclear firmado em 2015 entre os EUA e outras cinco nações (Joint Comprehensive Plan of Action) começou meses depois, no final de 2013. A República Islâmica é uma aliada do Hizballah.

Entre as principais conclusões da pesquisa está a percepção de que há uma forte associação entre conflitos no Oriente Médio e o aumento da pressão contra a região nos documentos estudados. Isso se mostrou um movimento de securitização, que foi parcialmente exitoso com a aprovação de leis antiterrorismo na região. Entre os objetivos aparentes para o uso da retórica também estão o de pressionar a comunidade local a retirar seu apoio aos grupos mencionados e enquadrá-los como agentes do “terrorismo internacional”. Além disso, observou-se uma especial ênfase no nexo entre o crime de lavagem de dinheiro e financiamento de terrorismo, apesar da falta de evidências que corroborassem essas inferências.

Isabelle C. Somma de Castro é bolsista Fapesp de pós-doutorado no Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo e pesquisadora do Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais (Nupri-USP). Faz parte do Grupo de Pesquisa Tríplice Fronteira e Relações Internacionais (GTF/Unila) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU). Foi Visiting Scholar 2018-2019 no Arnold A. Saltzman Institute of War and Peace Studies, Universidade de Columbia, com bolsa Fapesp. Contato: isasomma@hotmail.com.

*Publicado originalmente em OPEU