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Etiologia da prematuridade

Publicado em 24 fevereiro 2011

O índice de partos prematuros em Ribeirão Preto teve um aumento significativo num período pouco maior que 30 anos. Em 1978, um abrangente estudo epidemiológico foi realizado, tendo como principal objetivo conhecer a saúde perinatal da população de Ribeirão Preto. Em 1994, outro estudo semelhante foi feito num período de quatro meses. Mais de 15 anos depois dessas pesquisas, o número de partos prematuros dobrou.

Em comparação a ambos os estudos, Ribeirão registrou uma porcentagem crescente quanto à prematuridade, de 6,8% para 13,5%. Através desses resultados surgiu o desafio de estudar a etiologia da prematuridade.

Iniciada em outubro de 2010, a nova pesquisa está sendo realizada pela FMRP-USP de Ribeirão Preto. Essa linha de pesquisa "Saúde perinatal da criança e do adulto jovem" pertence ao grupo liderado pelos médicos Marco Antonio Barbieri e Heloísa Bettiol, responsáveis pelos dois primeiros estudos epidemiológicos realizados em 1978 e 1994.

O objetivo do estudo é entender as razões do aumento de nascimentos prematuros e as suas consequências no desenvolvimento infantil, inclusive o desenvolvimento cognitivo. Segundo o médico e professor titular da FMRP-USP, Marco Antonio Barbieri, a pesquisa pretende identificar novos diagnósticos etiológicos para os partos prematuros.

"Um dos estudos possibilitará a comparação histórica dos nascimentos de 2010 em Ribeirão em relação a 1978 (a primeira coorte) e em relação a 1994 (a segunda coorte) e em dois momentos também em São Luís/MA, 1997 e 2010", explica.

O grupo de pesquisa de Ribeirão Preto, por ter uma longa tradição de parceria com os pesquisadores da Universidade Federal do Maranhão, mostrará também que Ribeirão e São Luís são contrastantes em aspecto social, cultural e econômico.

Os dados obtidos serão comparados entre as cidades, se tratando este de um grande estudo para mostrar a mobilidade dos aspectos da saúde, economia e social em 30 anos de diferença. A prematuridade tornou-se uma questão de saúde pública e vem aumentando no mundo todo. Um exemplo disso está nos Estados Unidos, pois na década de 70 o índice era de 6% e atingiu patamares de 12% a 15% no início do século. Em alguns lugares esse índice está estabilizando, mas, em principio, em lugar algum está diminuindo.

"Precisamos entender o que representa esse processo, pois a prematuridade é pouco estudada", diz Barbieri. Ainda segundo o professor, um dos motivos para a contribuição do índice de prematuridade se dá aos partos por cesariana, uma vez que o Brasil é o campeão dessa técnica cirúrgica.

Entre os dois períodos estudados pelo grupo, constatou-se que a prematuridade aumentou, entre vários fatores, devido à cesariana, sendo este o índice que mais se destacou. De 30% desse tipo de parto em 1978, o número aumentou para para 51% em 1994.

"Estão retirando as crianças pelo menos duas semanas antes do previsto naturalmente. Isso, somado ao avanço tecnológico e da medicina na área perinatal, promove um cenário de aumento de nascimentos de "grandes" prematuros, em função da existência de crianças com grande sofrimento intra-uterino e podem morrer ainda no útero materno", observa Barbieri.

Envolvendo um grupo de 14 mil crianças — sete mil em Ribeirão e sete mil em São Luís — a pesquisa da FMRP-USP é totalmente acadêmica e vai consumir R$3 milhões. Feita em duas universidades e financiada por duas das maiores agências de pesquisa do país, o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e a FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), envolverá, além de professores/pesquisadores, a formação de alunos de graduação, pós-graduação - mestrado e doutorado, e pós-doutorado.

A ideia do estudo é contribuir para que os partos prematuros diminuam e, quem sabe, sejam evitados. "Genericamente, o que queremos é descobrir coisas novas, que é um dos objetivos da ciência. Queremos que o prematuro e a mãe tenham mais e melhor qualidade de vida", afirma Barbieri.

As avaliações do estudo são únicas, sendo da mulher duas, entre a 22ª e a 25ª semana de gestação; depois as mães serão re-entrevistadas quando o bebê nascer. Por fim, o bebê será reavaliado quando tiver um ano de vida.

Sandra Maquileide Lourenço da Silva gostou de contribuir. "Fui indicada pela minha cunhada e, como eu estava dentro dos padrões do estudo, resolvi participar. Fiz vários exames e gostei bastante. Espero que essa pesquisa evolua para todo mundo saber por que ocorre a prematuridade", conta a empregada doméstica de 38 anos, mãe de uma menina.

Para a vendedora Daiane Stefanie Carreira, de 20 anos, foi muito gratificante participar do estudo. "A gravidez é privilégio de toda mulher, então temos que saber como cuidar, saber como se passa por uma gestação, como o bebê se desenvolve. Todos os meus dados ficaram com os médicos, tudo muito bem sigiloso. Essa pesquisa vai ajudar muitas mães de primeira viagem como eu", afirma Daiane.

O projeto está financiado até 2014, tempo que o grupo terá para organizar os dados e divulgar os resultados.

Possíveis causas da prematuridade

Segundo Barbieri, grande parte dos partos prematuros é de causa desconhecida e o estudo, realizado em duas etapas, pretende diagnoticar nesse sentido. "Na primeira parte serão investigadas hipóteses neuroendócrinas e imunoinflamatórias que podem levar a partos prematuros. Na segunda parte do estudo serão analisados os impactos da prematuridade e outras condições do nascimento e no desenvolvimento da criança", afirma o professor.

Dentro das hipóteses neuroindócrinas, será avaliada a interferência do estresse, do uso de drogas, álcool e tabaco; já nas imunoinflamatórias serão estudadas infecções maternas. A segunda parte da pesquisa contará com uma série de análises, como resistência a insulina, alterações neurológicas e comportamentais, fatores de risco para alergia e chiado e alterações na saúde bucal.

"Se a pesquisa conseguir detectar causas ainda não descritas, ou ainda pouco estudadas, podem ser desenvolvidos mecanismos para se evitar o nascimento de prematuros", conclui o pesquisador.

Revide On-line (colaborador: Fernando Belezine)