Notícia

Gazeta Mercantil

Ética e clonagem são tema de debate da UFRJ

Publicado em 10 setembro 1997

Por Lívia Ferrari - do Rio
A polêmica que se trava hoje no meio científico internacional em tomo da reprodução humana através da clonagem de células invadiu o Centro de Ciências da Saúde (CCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O tema foi intensamente debatido, ontem, pela professora do Collège de France, Nicole Le Douarin, uma das mais renomadas pesquisadoras da biologia contemporânea. Le Douarin, que no início desta semana recebeu o título de Doutor Honoris Causa da UFRJ, participa do seminário Ciência, Natureza e Sociedade, organizado em conjunto com a École Normale Supérieure (ENS), de Paris. "Teoricamente é possível fazer clonagem de células de seres humanos. Mas para demonstrar essa teoria na prática, é preciso continuar tentando". Dessa forma clara e objetiva, a pesquisadora francesa defende com entusiasmo o avanço das pesquisas científicas nesse sentido. Para ela, a questão não suscita, necessariamente, conflitos de natureza ética, desde que os trabalhos sejam conduzidos com responsabilidade e regras de atuação sejam respeitadas. O princípio básico dominante na comunidade científica é a seguinte: a ciência, em si, não é boa nem má. O que determina a diferença entre o bem e o mal é o uso que se faz da descoberta científica. Le Douarin, diretora do Instituto de Embriologia do Collège de France, não tem dúvidas dos benefícios da técnica de clonagem humana em futuras aplicações terapêuticas. Nesse sentido, a clonagem de células de seres humanos poderá dar importante contribuição à cura de doenças. A cientista francesa, que coleciona vários prêmios internacionais recebidos ao longo dos anos por sua obra científica - iniciada por pesquisas sobre os mecanismos de desenvolvimento embrionário -, disse que a clonagem humana não produzirá um ser idêntico àquele do qual a célula foi obtida. No âmbito do intercâmbio científico e tecnológico, a UFRJ está encaminhando à Unesco proposta de financiamento para a criação de uma cátedra internacional sobre Biologia da Forma e do Desenvolvimento. Pelos cálculos do professor Vivaldo Moura Neto, do Departamento de Anatomia da UFRJ, essa nova cátedra exigirá investimentos da ordem de US$ 300 mil/ano, necessários pa-/a a instalação de laboratórios e manutenção de um corpo docente composto por quatro professores estrangeiros, encabeçado por Le Douarin. O envelhecimento da população brasileira e a pressão desse processo sobre os sistemas de saúde foi apontado pelos especialistas como um dos principais desafios da medicina brasileira no próximo século. O Brasil já conta com aproximadamente 15 milhões de velhos com mais de 65 anos.