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Etecs e Fatecs incentivam alunas a seguir carreira científica

Publicado em 09 março 2017

Durante a recente cerimônia de entrega do Oscar, um dos concorrentes ao prêmio de melhor filme abordou a questão da presença feminina no mundo da ciência. O debate é oportuno para trazer à tona as dificuldades enfrentadas por elas numa área historicamente dominada por homens.

Baseado em fatos reais, Estrelas além do tempo revela a história de Katherine Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughn (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monae), três matemáticas afro-americanas que trabalharam na Nasa, a agência espacial norte-americana, a partir da década de 1950, quando ganhava força a corrida espacial entre Estados Unidos e a então União Soviética.

Apontadas como as principais responsáveis por uma das maiores operações da história – o lançamento em órbita do astronauta John Glenn –, elas lutaram contra as barreiras de gênero e raça para alcançar o feito.

No decorrer do século passado, foi possível notar certo crescimento na proporção de cientistas mulheres. “Historicamente, a ciência sempre foi vista como uma atividade realizada por homens. A mudança nesse quadro inicia-se somente após a segunda metade no século 20, quando a necessidade crescente de recursos humanos para atividades estratégicas – como a ciência –, o movimento de liberação feminina e a luta pela igualdade de direitos entre homens e mulheres permitiram a elas o acesso, cada vez maior, à educação científica e a carreiras tradicionalmente ocupadas por homens”, avalia Joana Félix, pesquisadora e professora de química da Escola Técnica Estadual (Etec) Professor Carmelino Corrêa Junior, de Franca.

Maioria

Apesar de serem maioria nos cursos de graduação no Brasil – 55% entre os matriculados e 60% entre os formados, segundo levantamento do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) divulgado em 2015 –, as mulheres ainda encontram dificuldades para seguirem carreira científica, segundo a pesquisadora.

Em outra análise, dados da agência de fomento norte-americana National Science Foundation mostram que a representação de mulheres nas universidades dos EUA cai conforme elas progridem nos níveis acadêmicos. Em 2015, representavam cerca de 46% entre os instrutores, 35% entre os professores assistentes, 25% entre os professores associados e 11% entre os professores titulares, aqueles de maior prestígio e reconhecimento entre os pares.

Na contramão desse quadro, as Etecs e as Faculdades de Tecnologia do Estado (Fatecs) apresentando um número notável de alunas que desenvolvem projetos de pesquisa científica a cada ano. Na última edição da Feira Tecnológica do Centro Paula Souza (Feteps), realizada em outubro do ano passado, por exemplo, dos 56 estudantes premiados, 24 são meninas.

“A inclusão de estudantes em atividades de iniciação científica a partir de projetos de pesquisa é uma forma de desenvolver neles algumas características fundamentais para a vida profissional, seja ela voltada para setores produtivos ou para a academia”, acredita Joana.

Inspiração

Ex-aluna do Ensino Médio da Etec Dr. Júlio Cardoso, em Franca, Joana formou-se em Química na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde iniciou a vida de pesquisadora até alcançar o pós-doutorado na Universidade de Harvard, nos EUA. Atualmente, além de docente da Etec, trabalha como assessora científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Joana pesquisou resíduos ao longo de sua carreira acadêmica e agora usa esse conhecimento para auxiliar os estudantes da Etec a transformar o que sobra nos curtumes da região de Franca em produtos úteis à sociedade. Além de supervisionar a produção de iniciativas muito criativas, ela se preocupa em viabilizá-las, articulando a transferência de tecnologia para que os produtos cheguem ao mercado.

Entre seus projetos está a criação de pele artificial feita a partir da derme de porcos, trabalho premiado que será exposto a partir de abril no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.

Natyeli Silva é uma das estudantes que foram incentivadas por Joana. Entre 2012 e 2016, formou-se no curso técnico de Agropecuária integrado ao Ensino Médio, e mais três outros cursos técnicos, além de fazer uma especialização, tudo na Etec Professor Carmelino Corrêa Junior.

Em sua pesquisa, orientada por Joana, ela desenvolveu um tecido a base de couro a prova de água e fogo para ser utilizado em roupas para bombeiros. O projeto venceu a Mostra Paulista de Ciências e Engenharia (MOP), em 2013. No ano seguinte, ficou em segundo lugar na Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace) e em quarto na Mostra Internacional de Ciência e Tecnologia (Mostratec) – colocação que a levou aos EUA para apresentar a pesquisa.