Notícia

Jornal da USP

Estudos da fisiologia personalizam a medicina

Publicado em 07 dezembro 2015

Por Karina Ninni

“Uma grande tendência hoje é a chamada personaliza- ção da medicina. Com o acesso ao genoma humano, a gente sabe qual é a fisiologia básica. Mas existem condições e características que são bem especí- ficas de cada pessoa ou grupo. A personalização da medicina tem de levar em conta toda a fisiologia do organismo. E o estudo da microbiota intestinal certamente poderá contribuir para isso.” É o que afirma o professor Chris Hoffmann, docente da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP e pesquisador do Food Research Center (Forc), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) financiados pela Fapesp, instalado na FCF.

A manipulação da microbiota intestinal é um tema relativamente novo na academia, mas sua interface com a alimentação e a saúde leva a crer que esse campo de estudo pode ser uma ferramenta valiosa para a concretização de tendências como a personalização da medicina. Novas pesquisas sugerem diversas formas de manejo da microbiota, desde o uso de pré e probióticos até a manipula- ção da dieta e o transplante de bactérias presentes nas fezes humanas. “Um dos interesses da comunidade científica é essa interface entre dieta e microbiota, porque a modulação da dieta seria um ponto de acesso bem fácil e com menos efeitos colaterais do que a administração de medicamentos ou afins”, afirma Hoffman.

Segundo o pesquisador, é sabido que existe um padrão de relação entre dieta e microbioma, a longo prazo. “O efeito dos hábitos alimentares da pessoa a longo prazo é muito mais forte do que o efeito daquilo que ela comeu ‘ontem’. O que ela ingeriu ontem tem um impacto momentâneo. Mas, como tudo no corpo humano tende a buscar a homeostase, a tendência é uma volta ao equilíbrio”, diz ele.

Hoffmann explica que ao menos dois padrões de alimentação estão claramente conectados com microbiomas intestinais distintos: a dieta rica em carboidratos e a dieta rica em proteínas de origem animal. “Nós sabemos, por exemplo, que uma dieta com muita carne vermelha, rica em gordura, dá propensão a arteriosclerose, risco cardiov ascu lar e aumento do colesterol. Entretanto, ainda existiam algumas lacunas em como tais dietas causavam essas doenças. Agora, algumas dessas lacunas estão sendo preenchidas por esse link do microbioma intestinal”, resume.

A ascensão do tema coincidiu com o surgimento de novas tecnologias de sequenciamento de DNA, mais baratas e rápidas. “O desenvolvimento de novas tecnologias de sequenciamento permitiu estudos com centenas de pessoas ao mesmo tempo, sequenciando milhares de bactérias dessas pessoas. E com esses grandes estudos alguns padrões emergiram”, esclarece Hoffmann.

Mudanças – Segundo o professor, uma pessoa normal tem uma composição definida de microrganismos. “A gente sabe, de maneira geral, quais os microrganismos que devem povoar o intestino grosso. Estudos indicam que a dieta mais industrializada está modificando a microbiota. Nos Estados Unidos e Europa, onde as dietas são muito manipuladas, percebemos que o padrão da microbiota não é o mesmo, se comparado a locais na América do Sul e na Á frica, onde a dieta não é tão processada. ”

De acordo com Hoffmann, a manipulação da microbiota pode se dar por diversos acessos. Um deles é o uso de probióticos, algo que já se faz há algum tempo. “O que há de novo é que a próxima geração de probióticos que chegará ao mercado é completamente distinta do que já existe. O que temos hoje são produtos que, muitas vezes, levam em consideração grupos bacterianos que não temos, como adultos, no nosso intestino. Fazem efeito? Em algumas pessoas sim, em outras não. Um bom exemplo são as bifidobactérias, presentes nos probióticos mais famosos que conhecemos. As crianças as têm, mas os adultos geralmente têm poucas.”

Ele explica que atualmente os cientistas estão reisolando bactérias e tentando encontrar aquelas que são realmente interessantes para um adulto. Outra ideia é utilizar os prebióticos. ”Em vez de alimentar as pessoas com as bactérias, a ideia aqui é alimentar as bactérias que estão precisando ser incentivadas, com compostos criados exclusivamente para isso. É outra via de manipulação da microbiota”, aponta Hoffmann.

Transplante de bactérias é alternativa

O transplante fecal é mais uma ferramenta utilizada para repovoar o intestino com as bactérias que deveriam estar lá e que, por algum motivo, perderam espaço para um patógeno qualquer. “Ele está sendo muito usado para tratar pessoas que pegam infec- ção hospitalar. São bactérias super-resistentes, agressivas, imunes à última linha de antibióticos. A pessoa vai morrer de sépsis, o que é medieval. Elas destroem a mucosa intestinal, a impermeabilidade, e podem passar para a corrente sanguínea. Reintroduzir as bactérias que não estavam mais ali pode fazer com que o organismo pare de reconhecer simplesmente o patógeno.”

Hoffmann afirma que, geralmente, o procedimento só é usado quando nada mais funciona. “Porque há um risco, a gente não sabe exatamente o que está lá dentro; pode haver, por exemplo, um vírus que não se conseguiu detectar.” Segundo o professor, já existem empresas trabalhando para criar uma comunidade padronizada de bactérias, isoladas e sequenciadas, e que teria os mesmos efeitos do transplante.