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Estudos comprovam que mulher também tem próstata

Publicado em 08 fevereiro 2014

Ao contrário do que se acreditava até recentemente, a próstata não é um órgão exclusivamente masculino. Estudos recentes indicam que a mulher também pode possuir a glândula, cujas características se aproximam das do homem. Pesquisas sugerem que a próstata feminina pode ser afetada pelas terapias de reposição hormonal ou pelo uso de anabolizantes, procedimentos que contribuiriam para o eventual desenvolvimento de tumores malignos. “Apesar de novos, esses dados são importantes para orientar as abordagens voltadas para a preservação da saúde da mulher”, analisou o professor Hernandes F. Carvalho, do Instituto de Biologia (IB) da Unicamp, um dos coordenadores das pesquisas sobre a próstata feminina.

A descoberta da próstata feminina promete fomentar intensos debates entre a comunidade científica. Primeiro, porque toda novidade leva algum tempo para ser aceita e, consequentemente, absorvida. Segundo, porque as funções da glândula estariam relacionadas com dois tabus envolvendo a sexualidade da mulher.

De acordo com o professor Hernandes F. Carvalho, que também é coordenador do curso de Farmácia da Unicamp, os estudos preliminares indicam que o órgão estaria associado com a chamada ejaculação feminina. Além disso, também teria ligação com o Ponto G, zona erógena que, graças à concentração de terminações nervosas e vasos sanguíneos, estaria relacionada à estimulação sexual da fêmea da espécie humana. “Entretanto, essas expressões da glândula prostática feminina precisam ser investigadas com maior profundidade”, advertiu o docente.

Hormônio – As pesquisas sobre a próstata feminina tiveram início com um estudo em torno de células cancerígenas presentes em órgãos do aparelho reprodutor da mulher. Os cientistas perceberam que algumas delas apresentavam características semelhantes às da próstata do homem. Ao investigarem mais detidamente os materiais celulares, por meio de técnicas específicas, os pesquisadores acabaram por identificar a existência da glândula.

O professor Hernandes F. Carvalho explica que, dependendo do ambiente ou situação hormonal durante a formação do feto, a mulher pode ter um maior desenvolvimento do órgão. “No homem, o desenvolvimento da próstata depende da testosterona, hormônio produzido pelos testículos em dois momentos distintos: durante a embriogênese e, depois, na puberdade. Na mulher, a glândula não se desenvolve por causa da ausência dessa substância. No entanto, se o ambiente hormonal for alterado por algum motivo, a pessoa do sexo feminino pode, sim, vir a desenvolver o órgão na idade adulta”, explicou.

Essa hipótese foi confirmada por pesquisas realizadas com o auxílio de modelos animais. A equipe do IB usou nos estudos um roedor denominado gerbilo, comum no deserto da Mongólia, país da Ásia. Cerca de 50% das fêmeas dessa espécie apresentam próstata. Ao alterarem o ambiente hormonal dos animais, por meio da administração de testosterona, os cientistas fizeram três constatações importantes.

Lesões – Primeiro, identificaram um aumento da glândula. Segundo, confirmaram preliminarmente a atuação funcional do órgão. Por último, detectaram o desenvolvimento de lesões pré-malignas. O estudo rendeu artigo que foi publicado numa das mais prestigiosas revistas internacionais da área da reprodução, a Biology of Reproduction.

Ao estabelecer uma associação desses resultados com a situação das mulheres, o professor Hernandes F. Carvalho lembra que algumas populações femininas têm o que os especialistas classificam de hiperandrogenismo. Mulheres com essa alteração hormonal apresentam naturalmente dosagens mais elevadas de testosterona. Uma das manifestações que acompanham o hiperandrogenismo é o hirsutismo, que consiste no crescimento de pêlos em áreas do rosto. Outra é o ovário policístico. “Mulheres com esses problemas devem merecer um cuidado especial por parte dos ginecologistas, pois podem vir a apresentar patologias ligadas ao desenvolvimento da próstata”, alertou o docente do IB.

A mesma atenção precisa ser dada às atletas que porventura façam uso de anabolizantes e aos transsexuais do tipo mulher-homem. Estes últimos, após a cirurgia para a mudança de sexo, normalmente, são submetidos a tratamentos hormonais complementares. O mesmo é válido em relação às mulheres que lançam mão de terapias de reposição hormonal, procedimentos adotados comumente após a menopausa. O professor Hernandes F. Carvalho esclarece que, nesse tipo de abordagem, a mulher recebe dosagens de um precursor do estrógeno, hormônio feminino.

Acontece que este precursor, depois de ser absorvido pelo organismo, tanto pode se transformar em hormônio feminino quanto em masculino. “Na hipótese de receber uma dosagem excessiva de testosterona, a mulher também pode ter manifestações patológicas relacionadas ao desenvolvimento da próstata. Em outras palavras, nesses casos, os médicos devem fazer uma investigação mais profunda para identificar a possível presença da glândula e de eventuais doenças a ela relacionadas”, insiste.

O docente do IB afirma que é possível que cânceres de cavidade abdominal constatados em mulheres possam ter relação com problemas prostáticos, mas que essa associação dificilmente é feita. Por conta disso, em alguns casos, a causa da doença é classificada como desconhecida. Hernandes F. Carvalho revela que uma diferença fundamental entre a próstata feminina e a masculina está na estrutura da glândula. No homem, o órgão conta com uma espécie de cápsula que restringe a disseminação das células. Na mulher, essa proteção não existe, o que permite a livre disseminação das células tumorais na cavidade abdominal.

As pesquisas foram conduzidas pela equipe do IB em conjunto com Fernanda C. A. Santos, que realizou seu doutorado no Instituto, e o professor Sebastião R. Taboga, da Unesp de São José de Rio Preto. De acordo com Hernandes F. Carvalho, os estudos estão tendo continuidade, desta vez, com a investigação sobre o balanço dos hormônios masculino e feminino no desenvolvimento das próstatas feminina e masculina. Parte dos trabalhos é financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estão de São Paulo (Fapesp).