Por Elton Alisson - Agência FAPESP | As frutas, assim como os extratos de plantas, contêm compostos bioativos que podem ajudar no tratamento ou na prevenção de doenças.
Para caracterizar e entender seu mecanismo de ação, pesquisadores de universidades e instituições de pesquisa do Brasil e da Alemanha têm realizado estudos independentes, mas complementares. Alguns dos resultados foram apresentados em uma sessão de palestras sobre o futuro da pesquisa em alimentos e nutrição em 25/03, durante a FAPESP Week Alemanha, na Universidade Livre de Berlim.
A mesa contou com a presença de Bernadette de Melo Franco, Hans-Ulrich Humpf, Ulrich Dobrint, João Paulo Fabi e Peter Eisner | foto: Elton Alisson/Reproduçãoo Agência FAPESP De acordo com Ulrich Dobrindt, professor da Universidade de Munique, as plantas medicinais contêm diferentes tipos de fitoquímicos [substâncias químicas naturais] que neutralizam a infecção bacteriana de diferentes maneiras, fortalecendo a defesa do hospedeiro. Por isso, há um interesse crescente em empregar extratos dessas plantas no tratamento e na prevenção de infecção do trato urinário, uma das mais comuns globalmente e que é tratada hoje com antibióticos.
“Embora os seus efeitos anti-inflamatórios, antipiréticos e analgésicos sejam bastante conhecidos, ainda não foram caracterizados os compostos ativos dessas plantas – como flavonoides, alcaloides e terpenoides – e seus mecanismos de ação nas células dos patógenos. Alguns são antibacterianos, mas muitos não têm esse efeito”, ponderou o pesquisador. A fim de avançar no entendimento da questão, os cientistas alemães têm desenvolvido modelos de infecção para estudar o impacto dos extratos vegetais na resposta imune inata e na regulação epigenética da expressão gênica (processos bioquímicos que ativam e desativam genes). Em células da bexiga, por exemplo, eles estão estudando o efeito de plantas tradicionais com ação urológica, de acordo com a farmacopeia alemã.
Em trabalho realizado em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), foi constatado que alguns extratos vegetais à base de água (de espécies comoSolidago giganteaeEquiseti herba, por exemplo)diminuem significativamente a adesão e a sobrevivência deEscherichia coliem células epiteliais da bexiga humana.
“Observamos que ocorre uma redução drástica da adesão e multiplicação dessa bactéria em células da bexiga”, contou Ulrich. Fibras de frutas Já no Brasil, um grupo vinculado aoCentro de Pesquisa em Alimentos(FoRC) – um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) da FAPESP – tem se dedicado à prospecção tecnológica e à avaliação dos efeitos biológicos em humanos de polissacarídeos hidrossolúveis não digeríveis (polissacarídeos bioativos), como as pectinas. Encontradas em mamão, maracujá e cítricos, constituindo grande parte da fração de fibras desses frutos, as pectinas têm sido associadas à diminuição de doenças crônicas não transmissíveis.
Alguns dos desafios para extrair esses compostos de frutos como o mamão, contudo, é que o amadurecimento se dá muito rapidamente, resultando no amolecimento da polpa e na modificação química das estruturas de suas pectinas, relacionadas a efeitos biológicos como a modulação da microbiota intestinal.
“Durante o amadurecimento do fruto são expressas enzimas que modificam a estrutura das pectinas, resultando em uma diminuição dos efeitos biológicos benéficos. Já as pectinas do maracujá e de cítricos precisam ser quimicamente modificadas para apresentar atividades benéficas ao intestino”, disse à Agência FAPESPJoão Paulo Fabi, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidadede São Paulo (FCF-USP) e coordenador do projeto. Para isso, os pesquisadores brasileiros desenvolveram técnicas para extrair a pectina do albedo da laranja e do maracujá – a parte branca, entre a casca e a polpa, normalmente descartada durante o processamento dos frutos para produção de suco – e modificá-la em laboratório para diminuir sua complexidade molecular, de modo a aumentar a atividade biológica. O desenvolvimento resultou em patente para o processo de extração de pectina de frutos carnosos, como o mamão e o chuchu.
Uma segunda patente relacionada à modificação da pectina de subproduto do maracujá está em vias de ser depositada. “Já temos um protótipo para extração e modificação dessas pectinas em escala de laboratório. A ideia é obter um produto, como uma farinha rica em pectina modificada, que poderia ser consumida como um suplemento ou ingrediente alimentício”, avaliou Fabi
. Os pesquisadores realizaram em parceria com outros grupos experimentos em animais em que demonstraram a correlação das pectinas modificadas com o aumento da atividade biológica. “Esses estudos pré-clínicos podem servir de base para o desenvolvimento de estudos clínicos [com as pectinas modificadas] atuando como adjuvantes ao tratamento quimioterápico do câncer de cólon ou mesmo como moduladores benéficos da microbiota intestinal”, disse o pesquisador.
Mais informações sobre a FAPESP Week Alemanha em:FAPESP.br/week/2025/germany.
Este texto foi originalmente publicado pela Agência FAPESP, de acordo com a licença CC BY-SA 4.0. Este artigo não necessariamente representa a opinião do Portal eCycle.