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Jornal da Unicamp

Estudo vincula estatura e maturidade sexual às condições socioeconômicas

Publicado em 01 maio 2003

Por MANUEL ALVES FILHO
Estudo inédito coordenado pelo pediatra Antonio de Azevedo Barros Filho, professor da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, pretende conferir a evolução da estatura e a maturidade sexual de crianças e jovens entre 7 e 18 anos de Campinas, levando em consideração o aspecto socioeconômico. O trabalho, que está em fase final de coleta de dados, representa um avanço em relação às informações disponíveis no Brasil, que se restringem apenas ao peso e altura dos jovens. Uma constatação já feita pela equipe envolvida na pesquisa é que a menarca (primeira menstruação) das meninas que pertencem à classe social mais elevada ocorre antes do que a das garotas de nível socioeconômico mediano - 11, 4 anos contra 12, 3 anos, em média. Os fatores que concorrem para acelerar a maturidade sexual de crianças "ricas", conforme o coordenador do estudo, estão relacionados ao bom estado nutricional, às condições sanitárias adequadas e à ausência de doenças que comprometem o desenvolvimento. "Esse fenômeno, porém, não é uma exclusividade brasileira. Ele é verificado em várias partes do mundo", esclarece o pediatra. De acordo com Barros Filho, esse aspecto da pesquisa faz parte de uma tese de doutorado em fase de conclusão. Nela, o autor contesta uma teoria consagrada, segundo a qual a primeira menstruação é determinada pelo nível de gordura do corpo. "Esse trabalho, ao contrário, relaciona a menarca à massa magra, composta pelos músculos, vísceras e esqueleto. Trata-se de uma tese que deve gerar alguma polêmica, uma vez que já se sabe que mulheres muito magras não têm menstruação. O que se tenta demonstrar é que a gordura é importante, mas não é fundamental para a ocorrência do fenômeno", afirma o pediatra. Segundo o professor da FCM, a pesquisa está sendo realizada junto a estudantes de escolas públicas e particulares de Campinas. O trabalho envolverá cerca de 7 mil jovens. Aproximadamente 5 mil deles já tiveram a altura e o peso conferidos. Além disso, acrescenta Barros Filho, os especialistas também estão medindo a dobra da pele e a área muscular dos braços e das costas para checar o nível de gordura corporal, informações ainda indisponíveis no país. "Embora a pesquisa não seja uma representação de todo o Brasil, ela é importante porque pode ajudar a ajustar os dados internacionais que são utilizados para aferir o crescimento e o desenvolvimento da nossa população", explica o pediatra. O principal padrão de referência aplicado no País foi concebido nos Estados Unidos pelo National Center for Health Statistics (NCHS). Acontece, porém, que há diferenças entre as populações dos dois países, o que torna provável a necessidade de sua adequação às características brasileiras. "Nossa expectativa é que, no futuro, essa massa de dados sirva de ferramenta para auxiliar no planejamento de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento dos nossos jovens", afirma Barros Filho. Intitulada "Composição Corporal de escolares: dimorfismo sexual e diferenciação social", a pesquisa coordenada pelo professor da FCM conta com financiamento da Fapesp. Corpo - Ainda como parte da linha de pesquisa que investiga os fatores ligados ao crescimento e desenvolvimento dos jovens campineiros, a equipe coordenada por Barros Filho está analisando a composição corporal dos escolares. Os especialistas "dividem" o corpo humano em dois compartimentos: massa gorda e massa magra. Trata-se, na definição do docente, de um trabalho simples de campo, mas que poderá dar respostas importantes a questões ainda desconhecidas. "Queremos saber, por exemplo, se as crianças obesas ricas apresentam semelhanças com as obesas pobres", explica. Outro aspecto que os cientistas querem entender é que influência essa composição corporal tem no dimorfismo sexual da população analisada. Sabe-se que a mulher tem mais massa gorda do que o homem. Entretanto, entre indivíduos pobres as diferenças diminuem, uma vez que, em virtude da carência nutricional, tanto o homem quanto a mulher apresentam características corporais semelhantes. "A redução da massa gorda aproxima um do outro. Queremos verificar como isso anda", afirma. BRASILEIRO ESTÁ MAIS ALTO A população brasileira está ficando mais alta, seguindo o que os especialistas denominam de "tendência secular". De acordo com o pediatra e professor da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, Antonio de Azevedo Barros Filho, nas décadas de 60 e 70 já se verificava que os jovens tinham uma estatura maior do que os das gerações anteriores. Isso foi confirmado mais tarde por estudos realizados entre os anos de 1967 e 2000. Os especialistas mediram, a cada três anos, a altura de jovens que fizeram o alistamento militar. Confrontados os números, constatou-se que houve um avanço médio de 8 centímetros na estatura dos recrutas ao longo do período analisado. Mas a evolução da altura não corre de maneira linear em toda a população. Os fatores ambientais, além dos genéticos, têm influência importante. Estudo realizado pelo próprio Barros Filho na década de 90, junto aos alunos da primeira série do ensino fundamental de Campinas, apurou que a diferença de altura entre estudantes de escolas públicas e particulares da cidade era de 4 centímetros, em favor desses últimos. "Nossa expectativa é que a pesquisa que estamos concluindo agora aponte para uma redução dessa diferença", diz o professor da FCM. De acordo com ele, a tendência mundial é que o nível da estatura da população aumente e a diferença de altura entre ricos e pobres diminua conforme o país vai se desenvolvendo economicamente. Quando a nação atinge um razoável padrão socioeconômico, ocorre a estagnação do fenômeno. Isso já aconteceu na Noruega, Suécia e Dinamarca. Atualmente, o mesmo está sendo verificado nos EUA. Na opinião de Barros Filho, é um equívoco tratar o Brasil como um país em desenvolvimento, situando-o no mesmo patamar de nações da América Latina e África, quando o assunto é o padrão de crescimento dos jovens. "Nesse aspecto, felizmente, estamos muito mais próximos das nações desenvolvidas do que das subdesenvolvidas. Nos últimos anos, as taxas de desnutrição e mortalidade infantil caíram significativamente no País. Isso não significa, entretanto, que não tenhamos que avançar ainda mais nesses campos", adverte o pediatra.