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Martins em Pauta

Estudo sugere ser arriscado reduzir de 14 para 10 dias quarentena para infectados por Covid

Publicado em 19 fevereiro 2021

Apesar da recomendação do Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos, a redução do tempo de quarentena de pacientes com casos leves e moderados de Covid-19 de 14 para 10 dias pode ser arriscado. A constatação foi feita pelo Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo (IMT-USP) em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Foram analisadas 29 amostras de pacientes com diagnóstico confirmado para a infecção por exame RT-PCR. O material foi coletado em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) de Araraquara no décimo dia após o início dos sintomas.

Os pesquisadores identificaram que em 25% dos casos o vírus presente nas amostras se mostrou capaz de infectar as células e de se replicar in vitro.

Em teoria isso pode significar que pessoas que tivessem contato com gotículas de saliva expelidas por 25% desses pacientes no período em que o material foi coletado ainda poderiam ser contaminadas. Os dados completos da pesquisa foram publicados na plataforma medRvix. Os resultados não foram revisados por outros cientistas.

“Recomenda-se que os infectados com sintomas leves permaneçam totalmente isolados em casa, sem contato com ninguém, durante todo o período de quarentena. E há uma grande pressão para reduzir o tempo de isolamento – tanto por fatores econômicos como psicológicos. Mas, se o objetivo da quarentena é mitigar o risco de transmissão do vírus, 25% [de pacientes com vírus viável] é uma proporção muito alta”, alertou Camila Romano, coordenadora da investigação, em entrevista ao jornal da FAPESP.

A pesquisadora lembra que a quarentena de 14 dias era a adotada no início da pandemia com base no tempo médio que leva, após o início dos sintomas, para o SARS-CoV-2 deixar de ser detectado no teste de RT-PCR.

“Partiu-se do princípio de que quando a carga viral é tão baixa a ponto de ser indetectável nesse tipo de exame – considerado padrão-ouro para o diagnóstico da Covid-19 – o risco de transmissão torna-se muito pequeno. Naquela época nem sequer havia testes suficientes para diagnosticar todos os casos suspeitos e menos ainda para liberar os pacientes com sintomas leves da quarentena. Então estabeleceu-se como padrão o período de 14 dias para infectados não hospitalizados”, explicou ela.

A reportagem da FAPESP destaca que estudos posteriores mostraram ser possível detectar o RNA viral nas vias respiratórias pelo teste de RT-PCR por um período até superior a 14 dias. Contudo, segundo esses mesmos trabalhos, após o oitavo ou nono dia de sintomas dificilmente se conseguia isolar em pacientes com quadros leves ou moderados o vírus ainda viável, ou seja, com a capacidade de se replicar em células.

Diante disso, o CDC reviu a recomendação sobre o tempo de quarentena, que passou a ser de 10 dias para pessoas expostas ao Sars-CoV-2 sem diagnóstico confirmado por teste molecular. Esse período foi então considerado como suficiente para reduzir o risco de transmissão para 1%.

“No Brasil, a regra ainda é a quarentena de 14 dias, embora alguns municípios estejam cogitando reduzir para dez dias. Em países como a Suíça, infectados com sintomas leves são liberados do isolamento após sete dias apenas”, complementou a pesquisadora à FAPESP.