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Estudo sugere que amebas se modificam há pelo menos 750 milhões de anos

Publicado em 04 março 2019

Pesquisadores brasileiros do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) em parceria com a Mississippi State University, dos Estados Unidos, descobriram, ao reconstruir a história evolutiva das amebas, que a Terra, há 750 milhões de anos – no período conhecido como Pré-Cambriano –, era muito muito mais diversa do que se imaginava até então.

O estudo, publicado na revista Current Biology, revelou oito linhagens de ancestrais das teca-amebas, grupo cujos os indivíduos são parcialmente cobertos por uma carapaça. Elas representam uma grande linhagem de organismos que se locomovem por tentáculos chamados pseudópodes, e fazem parte do maior grupo do clado Amoebozoa (conjunto de organismos originados de um ancestral comum).

Para chegar ao resultado, os pesquisadores utilizaram técnicas inovadoras para a reconstrução da árvore de relações de parentesco (filogenética) das teca-amebas (Arcellinida).

Após montarem uma nova árvore filogenética utilizando algorítimos matemáticos, foi possível, também, estabelecer a morfologia e a composição dos ancestrais hipotéticos desse grupo de amebas. A pesquisa permitiu ainda que uma comparação desses ancestrais com registros fósseis fosse feita.

Com o resultado, foi possível revelar que há pelo menos 750 milhões de anos ancestrais das teca-amebas estão em processo evolutivo, o que torna o fim do Pré-Cambriano mais diverso do que o imaginado. Foi possível ainda desmontar completamente a classificação anterior do grupo das teca-amebas.

As teca-amebas eram divididas em aglutinadas ou orgânicas, porém, ao fazer a reconstrução molecular, descobriu-se que a classificação é determinada pela forma da carapaça e não por sua composição.

De acordo com os pesquisadores, a antiga classificação já estava sob questionamento há algum tempo, mas faltavam provas suficientes para derrubá-la. Estudos genéticos anteriores haviam mostrado que a classificação atual não tinha suporte, mas também não existiam dados suficientes para sugerir uma nova.

Segundo Daniel Lahr, professor do IB-USP e autor principal da pesquisa, o estudo traz uma visão diferente sobre como os microrganismos evoluíram no planeta. Para o final do Pré-Cambriano, era atribuída a existência de baixa diversidade de seres vivos, com apenas poucas espécies de bactéria e alguns protistas. Outra contribuição do estudo foi aumentar a compreensão das mudanças climáticas atuais.

— Começamos a entender mais profundamente como essa vida microbiana afetou o planeta em diversos aspectos. Nesse período, também ocorreram mudanças climáticas fundamentais, como um dos maiores eventos de glaciação do planeta, a glaciação do Sturtiano, ocorrida há cerca de 717 milhões de anos — disse à agência Fapesp.

De acordo com Lahr, essas modificações podem ter tido origens biológicas.

— Ao aumentar a resolução sobre como a vida evoluiu em épocas tão remotas, é possível entender um pouco melhor sobre como a vida afeta o clima do planeta ou mesmo outras mudanças geológicas e isso vai nos ajudar a entender o momento de mudanças climáticas que passamos hoje também — afirmou.