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Diário Digital (Portugal)

Estudo revela que Parkinson não tem origem só no cérebro

Publicado em 31 janeiro 2011

 

 

 

Uma experiência realizada por investigadores da Universidade de São Paulo (USP) com modelos genéticos traz novos indícios de que a doença de Parkinson pode ter origem periférica, no sistema nervoso autónomo – isto é, na parte do sistema nervoso situada nos diversos órgãos do indivíduo – e não exclusivamente no cérebro, como acredita a maior parte dos neurologistas e neurocientistas. De acordo com o coordenador do estudo, Antonio Augusto Coppi, esteorologista e professor associado do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP, a identificação de uma nova rota de origem do Parkinson é um passo importante para que os cientistas possam, no futuro, desenvolver uma técnica de diagnóstico precoce.

«Até ao momento a doença é incurável e o foco do tratamento é melhorar a qualidade de vida do paciente. Para isso, é fundamental que o diagnóstico seja feito o quanto antes. Começando o tratamento precocemente, poderemos retardar o aparecimento da doença ou suavizar os seus sintomas», disse Coppi à Agência Fapesp.

A experiência foi realizada com 20 ratos geneticamente modificados. «Esses ratos são alterados geneticamente para expressar o gene da alfa-sinucleína, um dos principais genes implicados na doença de Parkinson, assim como ocorre em humanos. Adquirimos animais com um mês de idade e analisamo-los com três e seis meses, para observar o aparecimento e a cronologia de evolução da doença. Em todos os 20 animais confirmamos que a doença teve origem em órgãos periféricos e só depois atingiu o cérebro», explicou.

Ao investigar o local de origem da doença, um dos objectivos do estudo é entender o mecanismo pelo qual a doença afecta o coração. Cerca de 30% dos pacientes com Parkinson morrem de problemas cardíacos.

«Uma das perguntas que ainda permanecem é: se a doença afectaria primeiro as células nervosas do coração e só depois acometeria o músculo do miocárdio, ou se ocorreria o contrário. Estimamos que até ao fim de 2011, quando se encerra o projecto, possamos nos aproximar de uma resposta. A partir daí, vamos apresentar os dados no 19º Congresso Mundial de Parkinson e Desordens Relacionadas, que será realizado na China em Dezembro e, em seguida, publicar os estudos em revistas científicas internacionais com arbitragem», disse.

O grupo já havia feito experiências semelhantes com base num modelo químico, injectando em animais drogas que simulavam a doença de Parkinson. Os resultados, segundo Coppi, foram muito satisfatórios, mas, com o uso da droga, é difícil saber se os sintomas apresentados pelos animais são provenientes do Parkinson ou de alguma neurointoxicação causada pela própria droga.

«O modelo genético é muito mais fidedigno. Por isso, no fim de 2009, pedimos à Fapesp (Fundação de Ajuda à Pesquisa do Estado de São Paulo) recursos adicionais para adquirir os ratos geneticamente modificados. O acompanhamento que fizemos consistiu em análises esteorológicas microscópicas de três e quatro dimensões, combinadas com análises funcionais, bioquímicas e comportamentais», disse.

Os animais doentes com seis meses já apresentavam alterações periféricas muito maiores que as dos animais com três meses. Um dos aspectos inéditos da pesquisa, segundo Coppi, foi o uso da estereologia – uma ciência em expansão que permite a contagem minuciosa de partículas em 3D e 4D.

«Conseguimos visualizar o coração dos animais em quatro dimensões – isto é, todas as dimensões do volume variando ao longo do tempo – e com isso observamos com muita precisão as alterações na estrutura do miocárdio, do plexo nervoso e do sistema excito-condutor cardíaco», disse.

De acordo com Coppi, classicamente, a doença de Parkinson surge na parte do cérebro conhecida como corpo estriado, que é um dos chamados gânglios da base, onde ocorre a diminuição ou ausência da produção de dopamina. «Estamos a mostrar que nem sempre isso é verdade. O nosso trabalho não nega a teoria antiga, mas avança o conhecimento ao apontar que não há uma rota exclusiva para a origem da doença», afirmou.

Uma das motivações para a experiência foi um artigo publicado em Fevereiro de 2010 no Cleveland Clinic Journal of Medicine por um grupo norte-americano. O trabalho destacou o caso de um paciente que foi diagnosticado com Parkinson aos 56 anos de idade, mas que já aos 52 anos apresentava sintomas periféricos e redução de dopamina no coração.

«Os autores descreveram a cronologia da evolução da doença desde a sua origem até à manifestação clínica e os resultados comprovaram uma origem periférica. O papel do sistema nervoso autónomo na origem da doença está a ser também investigado por cientistas na Alemanha e no Japão. Estamos a dar a nossa contribuição nessa linha de pesquisa, que tem como horizonte a descoberta de marcadores biológicos precoces para a doença», disse Coppi.

O cientista ressalta que os neurónios não são células exclusivas do cérebro: estão presentes também em órgãos como o estômago, o intestino, a bexiga urinária e o coração, entre outros.

A hipótese formulada pelo grupo é a de que esses neurónios do sistema nervoso autónomo periférico apresentar-se-iam degenerados pela doença, afectando subsequentemente os órgãos enervados por eles, provocando assim sintomas periféricos inespecíficos, ou seja, a «fase silenciosa» da doença.

«Nesse contexto, os pacientes podem apresentar taquicardia, insuficiência cardíaca e picos de pressão alta e baixa, no caso do coração e vasos, incontinência urinária, no caso da bexiga, ou constipação intestinal, no caso do intestino, por exemplo. Nas nossas experiências, os ratos apresentaram todos esses sintomas – que coincidiam com o relato de caso do grupo norte-americano», afirmou.

Segundo Coppi, como a doença de Parkinson tem uma componente genética importante, o histórico familiar combinado com a detecção precoce dos sintomas periféricos podem ser um importante facilitador para o diagnóstico precoce da doença.

«Evidentemente, nem todos os que têm problema de coração, bexiga ou intestino vão ter a doença de Parkinson. Mas, se a pessoa apresentar esses sintomas inespecíficos e tiver familiares com a manifestação cerebral da doença, é importante que procure um neurologista para uma investigação mais detalhada do contexto», afirmou.