Diversidade genética é apontada como fator-chave para viver mais de 100 anos com qualidade
Um novo estudo publicado na terça-feira na revista científica Genomic Psychiatry aponta que o Brasil abriga um dos maiores tesouros do mundo para a compreensão — e futura democratização — dos segredos da longevidade humana extrema. O artigo é assinado por Mayana Zatz e pesquisadores do Centro de Pesquisa do Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo (USP).
De acordo com o trabalho, o país reúne características únicas que o tornam um verdadeiro laboratório natural para o estudo da longevidade. Apesar desse potencial, os autores ressaltam que esse recurso ainda é pouco explorado pela ciência internacional.
A força da miscigenação brasileira
Segundo o estudo, nenhum outro país apresenta uma diversidade genética comparável à do Brasil. Desde a colonização portuguesa em 1500, passando pela migração forçada de cerca de 4 milhões de africanos escravizados, até as sucessivas ondas de imigração europeia e japonesa, formou-se no território brasileiro o que os pesquisadores definem como “a maior diversidade genética do mundo”.
Pesquisas conduzidas pelo próprio grupo de Mayana Zatz, assim como por outras equipes científicas, estimam que cerca de 70% da população brasileira é miscigenada, fator considerado central para entender os mecanismos biológicos associados à longevidade extrema.
Um país de centenários
Com aproximadamente 37 mil centenários, segundo dados do IBGE, o Brasil se destaca globalmente quando o assunto é vida longa. Os números apresentados no artigo são expressivos: três dos dez supercentenários masculinos mais longevos do mundo, com idade validada documentalmente, são brasileiros — incluindo o homem mais velho vivo, nascido em 5 de outubro de 1912.
Mayana Zatz destaca que esse dado é ainda mais relevante porque a longevidade extrema é muito mais rara entre homens do que entre mulheres. Entre elas, o Brasil também se sobressai: supercentenárias brasileiras figuram entre as 15 mulheres mais longevas do mundo, superando inclusive países mais populosos e desenvolvidos, como os Estados Unidos, conforme levantamento da LongeviQuest, empresa especializada na validação de dados de centenários.
O que eles têm em comum? O genoma
Apesar de virem de diferentes regiões do país e de contextos sociais, econômicos e culturais variados, os supercentenários brasileiros compartilham apenas dois pontos em comum: a idade avançada e a miscigenação genética.
“Alguns deles nunca tiveram acesso adequado à medicina, nem puderam seguir dietas consideradas ideais, como a mediterrânea. Há casos de sobrepeso e hábitos alimentares longe do que se costuma recomendar”, observa Mayana Zatz.
Segundo a geneticista, a diferença não está no estilo de vida visível, mas sim no genoma. Muitos dos genes de interesse associados à longevidade estão ligados ao sistema imunológico, à resistência a doenças, além de funções cognitivas e musculares, permitindo que essas pessoas ultrapassem os 100 anos com autonomia e lucidez.
Mesmo com pouco ou nenhum acesso à medicina moderna, alguns supercentenários brasileiros permaneceram independentes nas atividades básicas do dia a dia. Até o momento, os pesquisadores identificaram ao menos 163 variantes genéticas de interesse relacionadas à longevidade extrema.
Uma amostra inédita no mundo
O estudo analisou mais de 160 centenários, incluindo 20 supercentenários totalmente validados, oriundos de diversas regiões do Brasil e com origens sociais, culturais e ambientais distintas. Entre os participantes estava Irmã Inah, reconhecida como a pessoa mais velha do mundo até sua morte, em 30 de abril de 2025, aos 116 anos.
O levantamento também incluiu os dois homens mais velhos do planeta: um deles faleceu em novembro de 2025, aos 112 anos, e o outro segue vivo, atualmente com 113 anos.
Características biológicas únicas
A equipe liderada por Mayana Zatz, da USP, já identificou algumas características que tornam os supercentenários brasileiros biologicamente singulares:
Faxina celular eficiente Algumas variações genéticas estão associadas a linfócitos do sangue periférico com alta atividade proteassomal, responsáveis por eliminar proteínas antigas ou danificadas dentro das células. Esse processo costuma se deteriorar com o envelhecimento, mas nos supercentenários brasileiros funciona de forma semelhante à observada em pessoas na faixa dos 20 anos, ajudando a prevenir doenças.
Sistema imunológico adaptável Os pesquisadores observaram a presença de células de defesa CD4+ citotóxicas com características típicas de linfócitos CD8+, um fenômeno praticamente inexistente em pessoas jovens. Em termos simples, células que normalmente atuariam como “comandantes” do sistema imunológico passam a agir diretamente no combate a vírus e células cancerígenas. Essa transformação parece ocorrer apenas em indivíduos com mais de 100 anos, funcionando como uma espécie de arma secreta do sistema imunológico.
O estudo reforça a importância do Brasil no cenário científico global e indica que a diversidade genética nacional pode ser fundamental para avanços futuros no entendimento do envelhecimento saudável e da longevidade humana extrema.