Efeitos vão além da presença do metal pesado no organismo
Um estudo apoiado pela FAPESP e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal) revelou níveis alarmantes de contaminação por mercúrio em populações que vivem às margens da lagoa Mundaú, em Maceió (AL). A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), encontrou concentrações do metal no sangue e na urina bem acima daquelas verificadas em moradores de áreas distantes da laguna, mas com condições socioeconômicas semelhantes.
Segundo os autores, os efeitos vão além da presença do metal pesado no organismo. O grupo exposto apresenta sinais claros de estresse oxidativo sistêmico, condição ligada ao agravamento de doenças como hipertensão, diabetes e até disfunções renais e hepáticas. O estudo foi publicado no Journal of Hazardous Materials.
“Identificamos alterações preocupantes no metabolismo, com impacto direto no transporte de oxigênio pelo sangue. Isso pode comprometer o funcionamento celular em diversos tecidos”, afirma Ana Catarina Rezende Leite, professora do Instituto de Química e Biotecnologia da Ufal e uma das coordenadoras da pesquisa.
Foram analisadas amostras de sangue e urina de 125 pessoas, das quais 60 viviam nas margens da lagoa e consumiam peixes e mariscos locais, como o sururu. A comparação com o grupo-controle revelou que os moradores da lagoa tinham quase quatro vezes mais mercúrio no sangue e 2,5 vezes mais na urina. Em um dos casos, foi registrada uma concentração de 19 microgramas por litro de sangue — próximo ao limite máximo tolerado pela legislação brasileira, que é de 20, mas bem acima dos valores indicados por agências internacionais, como a EPA dos EUA, que considera seguro até 6 microgramas por litro para consumidores de peixe.
Além da presença do mercúrio, os pesquisadores observaram alterações na estrutura e função das hemácias, o que pode levar à anemia, além de níveis elevados de triglicérides, creatinina e ureia, indicando risco cardiovascular e disfunção renal.
As fontes da contaminação, segundo o estudo, são os efluentes domésticos e industriais que chegam à laguna, vinda não só de Maceió, mas também de cidades vizinhas. A situação é agravada pela falta de políticas públicas eficazes de saneamento e monitoramento ambiental. Um dos bairros afetados, Bebedouro, foi inclusive evacuado nos últimos anos devido ao risco de colapso do solo causado pela mineração de sal-gema.
Em experimentos anteriores com animais, os mesmos pesquisadores já haviam demonstrado que até doses moderadas de mercúrio inorgânico podem causar danos significativos a tecidos como cérebro, fígado e vasos sanguíneos, especialmente em organismos com colesterol elevado.
Os resultados, segundo os autores, oferecem evidências robustas para fundamentar ações emergenciais de saúde pública e recuperação ambiental. "É fundamental monitorar essas populações por mais tempo para entender completamente os efeitos da exposição crônica e buscar formas de mitigar os danos", alerta Josué Carinhanha Caldas Santos, também professor da Ufal e coordenador do estudo.