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Estudo revela complicação que pode aumentar risco de morte por Covid-19

Publicado em 21 setembro 2020

Distúrbios digestivos como refluxo gastroesofágico e a síndrome de Barrett podem estar associados a um risco aumentado de morte por Covid-19, segundo estudo apoiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e divulgado na plataforma medRxiv, ainda sem revisão por pares.

De acordo com os autores, a agressão causada ao esôfago pelo ácido estomacal induziria no tecido um aumento na expressão do gene ACE2, responsável por codificar a proteína à qual o novo coronavírus se liga para entrar nas células humanas. Desse modo, as células esofágicas se tornariam mais suscetíveis à infecção da Covid-19.

Helder Nakaya, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo e coordenador da investigação, conta que a descoberta ocorreu por acaso, quando seu aluno de doutorado Leandro Jimenez e outros pesquisadores de sua equipe analisavam dados de transcriptoma – conjunto de moléculas de RNA expressas em um tecido, de portadores da síndrome de Barrett.

Considerada uma complicação crônica do refluxo gastroesofágico, a doença é caracterizada por alterações no revestimento do esôfago, que se torna semelhante ao tecido que reveste o intestino.

“Notamos nos pacientes com esôfago de Barrett um aumento na expressão de ACE2 e também alterações em vias de sinalização relacionadas à regulação do pH intracelular. Surgiu então a suspeita de que células submetidas a um pH ácido seriam mais suscetíveis ao Covid-19”, conta Nakaya.

Experimentos in vitro foram conduzidos para testar a hipótese.

Culturas de monócitos humanos – células de defesa presentes no sangue – foram colocadas em meios com diferentes graus de acidez e incubadas com o novo coronavírus. O pH de cada grupo experimental variou de 7,4 até seis.

Análises feitas após 24 horas mostraram que as células cultivadas no meio mais ácido eram as que apresentavam maior expressão de ACE2 e também maior carga viral.

O passo seguinte foi analisar dados de duas coortes de pacientes hospitalizados por complicações associadas à Covid-19, 551 em Manaus (AM) e 806 em São José do Rio Preto (SP). Depois foi possível verificar se, de fato, havia uma associação entre a doença e distúrbios gástricos preexistentes.

“Ao dar entrada no hospital, todos os pacientes são questionados sobre os medicamentos que costumam tomar. Nós consideramos como portadores de distúrbios digestivos aqueles que disseram fazer uso contínuo de fármacos do tipo inibidores da bomba de prótons [omeprazol, pantoprazol e similares], capazes de suprimir a secreção do ácido gástrico”, explica Nakaya.

“Importante ressaltar que esses medicamentos serviram apenas como uma referência para que pudéssemos identificar quais pacientes tinham problemas gástricos antes de contrair o novo vírus. Os fármacos em si não têm qualquer relação com o agravamento da infecção. Também não sabemos se pessoas com sintomas leves de Covid-19 e que tomavam esses medicamentos teriam um maior risco de morte”, completou.

Por meio de uma análise estatística multivariada – na qual os resultados foram ajustados para eliminar a influência de fatores como idade superior a 60 anos e outras comorbidades -, os pesquisadores concluíram que os pacientes com problemas no aparelho digestivo associados à acidez estomacal tinham duas vezes mais risco de serem internados em UTI e três vezes mais risco de morte.

*Com informações da Agência Fapesp.