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O Serrano

Estudo relaciona puberdade precoce a defeito em gene

Publicado em 16 fevereiro 2008

Um estudo realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) revelou pela primeira vez evidências da associação de um defeito em um gene com a puberdade precoce central.

Depois de estudar o DNA do sangue de 53 crianças com puberdade precoce central, os pesquisadores identificaram uma mutação no gene GPR54 em uma menina. O GPR54 é um receptor que quando ativado por uma proteína denominada kisspeptina é responsável por regular a secreção de hormônios que desencadeiam a puberdade.

O estudo, cuja primeira autora é a doutoranda Milena Gurgel Teles, foi publicado nesta quarta-feira (13/2) na revista norte-americana The New England Journal of Medicine. A pesquisa faz parte de um projeto temático da FAPESP coordenado por Ana Claudia Latronico, orientadora de Milena.

De acordo com Ana Claudia, até agora a maioria dos casos de puberdade precoce central em meninas não tinha uma etiologia, isto é, não tinha uma causa conhecida. Nos meninos, os casos são muito mais raros e, geralmente, relacionados a tumores no sistema nervoso central.

"Trabalhos anteriores mostravam que 20% das meninas afetadas tinham familiares que também apresentavam história de puberdade precoce, o que sugeria o envolvimento de fatores genéticos. Mas, pela primeira vez, evidenciamos uma causa relacionada a um gene", disse à Agência FAPESP.

Segundo a pesquisadora, o processo puberal, caracterizado por mudanças físicas características, tais como mamas nas meninas e pêlos corporais nos meninos, ocorre entre 10 e 11 anos nas meninas e entre 12 e 13 anos nos meninos. Mas só quando ele ocorre antes dos 8 anos em meninas e dos 9 em meninos é considerado puberdade precoce.

"Em cerca de 90% dos casos, as meninas com puberdade precoce central não apresentam lesões no sistema nervoso central que justifiquem o aparecimento do problema", disse.

Segundo a cientista, quando o problema está relacionado às gonadotrofinas — hormônios produzidos no hipotálamo e na hipófise que produzem ovários e testículos — trata-se da puberdade precoce central. "Essa forma de puberdade precoce é muito mais freqüente entre as meninas, que podem apresentar mamas e menstruação mesmo antes dos 5 ou 6 anos de idade", disse Ana Claudia.

Os pesquisadores avaliaram 53 casos de puberdade precoce central, sendo 48 em meninas e três em meninos. Uma das meninas apresentou um defeito no gene GPR54, que regula a secreção do hormônio GnRH, estimulador das gonadotrofinas hipofisárias.

"O defeito que identificamos age como um ativador do receptor, por isso a criança tem mais hormônios em uma idade que não era a esperada. Esse é provavelmente o primeiro gene identificado entre vários outros que possivelmente estão implicados no início da puberdade e portanto representam potenciais causas desse problema", disse a professora associada da FMUSP.

A puberdade precoce não é rara. Ela afeta cerca de um indivíduo a cada 10 mil. "Em termos estatísticos não é um problema raro. Felizmente, embora as causas sejam desconhecidas, os tratamentos disponíveis hoje são muito efetivos", disse Ana Claudia

O tratamento utilizado é a medicação conhecida como agonista de GnRH, um tipo de hormônio que bloqueia a síntese e liberação das gonadotrofinas, administrado em injeções mensais ou trimestrais.

"Quando não é tratada, a puberdade precoce pode fazer a menina menstruar muito cedo. A principal conseqüência é a baixa estatura na vida adulta. A pessoa, em geral, fica com menos de 1,50 metro. O tratamento, embora seja caro, é muito eficaz", afirmou.

A descoberta do fator genético relacionado ao problema, de acordo com a pesquisadora, não afetará os tratamentos. "O objetivo era contribuir para compreender como agem os hormônios, como funciona o mecanismo que desencadeia a puberdade e entender a fisiopatologia do problema", disse.

"Os mecanismos que controlam esse início da puberdade ainda são misteriosos. Queremos entender como polimorfismos em genes podem modular a idade de inicio da puberdade. E também como as mutações genéticas podem explicar as patologias puberais", destacou.

Fonte: Agência Fapesp