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Estudo relaciona desmatamento e commodities agrícolas com aumento de malária

Publicado em 28 maio 2020

Um estudo realizado por pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, que contou com a participação de pesquisadores australianos, demonstrou que o consumo global e o comércio internacional de commodities associadas ao desmatamento das florestas tropicais, como madeira e produtos agrícolas como tabaco, cacau, café e algodão, aumentam em 20% o risco de contrair malária na África, Sudeste Asiático, Índia e América do Sul.

“O desmatamento pode aumentar a transmissão da malária. Neste sentido, o comércio internacional pode influenciar indiretamente o risco da doença. Quantificamos que cerca de 20% do risco de malária nos hotspots de desmatamento é impulsionado pelo comércio internacional”, afirma o biólogo Leonardo Suveges Moreira Chaves.

Chaves é primeiro autor do artigo científico Global consumption and international trade in deforestation-associated commodities could influence malaria risk, publicado na revista Nature Communications.

“Mostramos ainda que, em 2015, cerca de 110 milhões de pessoas corriam risco de contrair malária devido ao desmatamento nos países em desenvolvimento”, revela Chaves.

De acordo com Maria Anice Mureb Sallum, professora titular do Departamento de Epidemiologia da FSP e pesquisadora corresponsável pelo trabalho, “nosso estudo estabelece pela primeira vez o peso do comércio internacional nos casos de malária em todo o mundo”.

Para realizar o trabalho, os pesquisadores usaram bancos de dados comerciais de commodities associadas ao desmatamento para demonstrar que seu consumo, nos países ricos, pode aumentar o risco de malária nos países em desenvolvimento.

“Obtivemos essas evidências através da aplicação da análise dos dados disponíveis para 189 países,” explica Chaves. Utilizando computação de alto desempenho, examinou-se mais de um bilhão de rotas da cadeia de suprimentos internacional para descobrir a contribuição do comércio global na promoção do risco de malária nos países em desenvolvimento.

De acordo com a pesquisa, as commodities que mais pesam no comércio global para o aumento dos casos de malária são madeira e produtos agrícolas como tabaco, cacau, café e algodão, cujas cadeias produtivas provocam desmatamento das florestas tropicais do planeta e o consequente aumento do risco de transmissão da malária.

“Não encontramos carne e óleo de palma nos principais elos comerciais porque essas mercadorias são comercializadas, predominantemente, por países com incidência de malária relativamente baixa”, explica Chaves.

Este trabalho se insere no âmbito do projeto Genômica de paisagens em gradientes latitudinais e ecologia de Anopheles darlingi, um projeto apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O estudo contou com a participação da equipe do professor Manfred Lenzen, da Universidade de Sydney, na Austrália.

Estudos de caso: Nigéria, Tanzânia, Camarões e Uganda

O artigo fornece diversos exemplos de países em desenvolvimento onde a exportação de commodities para o mundo desenvolvido está relacionada ao desmatamento e ao aumento no risco de malária em 2015 (o ano-base dos dados empregados no trabalho).

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou a ocorrência de 214 milhões de casos de malária no mundo em 2015 (88% na África). Em 2018, o total foi de 228 milhões de casos.

A Nigéria sofre o maior risco, com 5,98 milhões de casos em 2015, ou 9,8% dos 61 milhões de casos de malária estimados no país em 2015. As commodities ligadas ao desmatamento e ao risco de malária na Nigéria são a madeira exportada para a China, o cacau (Holanda, Alemanha, Bélgica, França, Espanha e Itália) e o carvão vegetal (países da Comunidade Europeia).

No caso da Tanzânia, o estudo atesta um risco de 5,66 milhões de casos de malária, ligados às exportações de tabaco para a Europa e a Ásia, algodão cru (Ásia) e madeira (Índia).

A malária ligada ao desmatamento em Camarões (risco de 5,49 milhões de casos) pode ser conectada às exportações de cacau para a Holanda, Espanha, Bélgica, França e Alemanha, e de madeira (China, Bélgica, Itália e Estados Unidos).

Da mesma forma, a malária (risco de 5,49 milhões de casos) foi associada ao desmatamento em Uganda, que por sua vez é potencialmente impulsionado pelas exportações de matérias-primas como café para Itália, Alemanha, Bélgica, Estados Unidos e Espanha, e algodão (Sul e Sudeste Asiático).

As áreas tropicais remanescentes podem ser similarmente ligadas a consumidores distantes, principalmente por meio da exportação de madeira da República Democrática do Congo, Zâmbia, Mianmar, República Centro-Africana e Angola. O principal destino é a China.

O caso brasileiro

No Brasil, 99% dos casos de malária se concentram na Amazônia. Naquela região, aproximadamente um terço do desmatamento está associado à exportação de recursos naturais e commodities, como madeira, soja e carne bovina.

Os países que mais importaram produtos brasileiros vinculados ao risco de malária no Brasil, em 2015, foram Estados Unidos e Japão. As principais commodities brasileiras com destino aos Estados Unidos foram: madeira, àquelas da indústria de couro e carne bovina. As importações japonesas foram principalmente soja e carvão vegetal.

Em 2015, as exportações de commodities do Brasil responderam pelo risco de 1.700 casos de malária, entre os 143 mil casos registrados pelo Ministério da Saúde.

Por outro lado, a importação de commodities pelo Brasil respondeu por risco de 50 mil casos de malária nos países dos quais importa, por exemplo, couro (camurça e vestuários) e madeira em tora. São eles: Nigéria, com 13 mil casos de malária ligados às exportações de commodities para o Brasil, Índia (11 mil), Congo (6 mil), Camarões (5 mil) e Tanzânia (5 mil).

Outros pontos

O estudo ainda aponta que os países que mais contribuem com o financiamento a programas de controle de malária na África são os mesmos que mais importam tais commodities. Também aborda a complexa rede que faz com que o consumo de frango em um restaurante japonês pode ter impacto no risco de malária na população brasileira, só para dar um exemplo. Ainda traz possíveis iniciativas para frear o aumento da malária.

Confira o texto completo disponível no Jornal da USP.