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Estudo quer identificar as 150 espécies brasileiras de maracujá

Publicado em 17 fevereiro 2016

Agência FAPESP – Existem cerca de 520 espécies conhecidas de maracujazeiro.  Elas crescem como trepadeiras, cipós ou arbustos nas florestas tropicais das Américas, mas predominam na Amazônia.  O Brasil abriga ao menos 150 espécies.  A Colômbia, 170.  São os centros de diversidade do maracujá.  Apesar de tamanha variedade, só duas espécies foram domesticadas e têm valor comercial, como alimento ou então nas indústrias de bebidas, cosméticos e farmacêutica.  São elas o maracujá-amarelo ou maracujá-roxo, mais azedos (Passiflora edulis), e o maracujá-doce (P.  Alata), que se come de colher – daí o nome tupi da fruta, mara kuya, que quer dizer "alimento na cuia”.  Algumas espécies selvagens têm ainda uso ornamental.

O Brasil é o maior produtor mundial de maracujá e também o maior consumidor.  Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2014 foram produzidas 823 mil toneladas, sendo que 75% da produção está concentrada no Nordeste.  A produção e a área plantada decuplicaram desde os anos 1980, graças aos melhoramentos genéticos feitos pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Daí a importância de pesquisar e conservar a riquíssima diversidade do maracujá.  Mas há um problema: à exceção das duas espécies domesticadas, todas as demais são selvagens e pouquíssimo estudadas.  Suas propriedades são desconhecidas da ciência.  “É um desafio do ponto de vista da conservação.  Não sabemos quase nada sobre a variabilidade genética da maioria das espécies de maracujá selvagem”, alerta a pesquisadora Anete Pereira de Souza, do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Anete Pereira de Souza é a responsável pelo projeto “Variabilidade genética e molecular em acessos de maracujá (Passiflora spp.)  comerciais e selvagens, visando conservação ex situ e melhoramento de plantas”, apoiado pela FAPESP.

Ela é coautora de um balanço do estado atual do conhecimento da conservação e diversidade genética do gênero Passiflora, publicado no livro Genetic Diversity and Erosion in .  O estudo foi desenvolvido em colaboração com pesquisadores da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Embrapa Cerrados (DF) e Embrapa Mandioca e Fruticultura (BA).

A maioria das espécies selvagens de maracujá floresce em florestas úmidas e quentes.  “Este é o grande problema com as mudanças climáticas.  Qualquer alteração hídrica ou da temperatura pode significar a perda de um grande número de espécies”, afirma Anete Pereira de Souza.

Prospecção e preservação

Em outras palavras, muitas espécies selvagens correm simplesmente o risco de desaparecer antes mesmo que tenhamos a chance de conservar amostras da sua variabilidade genética, uma fonte promissora e insubstituível para futuros melhoramentos nas espécies domesticadas.  “Há genes de resistência contra doenças que a gente poderia usar para melhorar as espécies cultivadas”, diz a pesquisadora.  A única amostragem do genoma do maracujá foi publicada por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP).

“Para conservar a biodiversidade do gênero Passiflora precisamos obter informações genéticas, genômicas e fenotípicas de todas as espécies”, afirma Anete Pereira de Souza.  O primeiro passo é a identificação e prospecção de todas as espécies selvagens.  O segundo é a preservação dessas amostras em coleções botânicas e bancos de germoplasma, unidades conservadoras de material genético.

Outro risco que expõe a fragilidade do maracujá às mudanças climáticas tem a ver com a polinização.  Os maracujazeiros dependem das abelhas mamangabas para a polinização.  Mamangabas são as abelhas do gênero Bombus, com cerca de 250 espécies.  Pela sua importância na polinização de vários tipos de plantas, sua perseguição, destruição, caça ou apanha é proibida por Lei Federal desde 1998.

“O maracujá só dá frutos se o pólen vier de uma outra planta.  A mamangaba é quem faz esse trabalho.  É uma abelhona preta, grande, que está rareando na natureza”, ela explica.  As mamangabas costumam fazer suas colmeias em troncos ocos de árvores.  É por isso que, com o desmatamento, elas estão desaparecendo.

Por causa do sumiço das mamangabas, uma queixa recorrente dos agricultores é que os maracujazeiros estão deixando de frutificar.  Sem flores, nada de frutos.  “Já faz tempo que os agricultores estão tendo que recorrer à polinização manual.  Como se isso não bastasse, nós ainda não sabemos nada sobre as espécies de abelhas e outros insetos que realizam a polinização das variedades selvagens de maracujá”, diz.

Caso existam espécies de maracujá que dependam de uma espécie específica de abelha para a polinização, e se esta abelha desaparecer por causa dos desmatamentos e mudanças climáticas, aquelas espécies selvagens também desaparecerão.  Será uma perda insubstituível.

O artigo The Genetic Diversity, Conservation, and Use of Passion Fruit (Passiflora spp.), de Anete Pereira da Silva e outros, publicado em Genetic Diversity and Erosion in Plants pode ser lido em http://link.springer.com/chapter/10.1007/978-3-319-25954-3_5.