Notícia

CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico

Estudo quantifica estoques de Carbono Azul em Manguezais

Publicado em 18 setembro 2018

O professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Angelo Fraga Bernardino, e o Prof. Tiago O. Ferreira da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (USP), ambos bolsistas de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), são co-autores do artigo publicado na  revista da Sociedade Real Inglesa de Ciências (Biology Letters), que apresenta dados inéditos de estoques de carbono mensurados em manguezais do Norte do Brasil como parte de esforços mundiais na quantificação e identificação do Carbono Azul. O Carbono Azul se refere ao sequestro natural de carbono atmosférico em ecossistemas marinhos costeiros e úmidos, incluindo Florestas de Manguezais, Marismas e bancos de gramíneas marinhas. Estudos iniciados em 2014 pela equipe brasileira em parceria com o Prof. Boone Kauffman (Oregon State University), primeiro autor do artigo, conseguiu recursos da Agência Americana de Desenvolvimento Internacional (USAID) para vir ao Brasil quantificar esses estoques e avaliar as emissões de gases do efeito estufa associadas a impactos nesses ecossistemas.

Os primeiros resultados publicados agora em 2018 permitiram o inventário de estoques de carbono ecossistêmicos baseados em amostras obtidas in-situ associados a manguezais equatoriais, incluindo o Nordeste e Norte do Brasil, onde está uma das áreas de maior extensão de Florestas de Manguezais do mundo. Também se procurou avaliar, seguindo protocolos internacionais, as emissões de gases estufa (CO2) decorrentes de mudanças no uso do solo, que levam a perda de florestas de manguezal.

Os resultados foram publicados em dois artigos de 2018. "Em geral, nesses estudos mostramos que estoques de carbono azul em solos de manguezais do semi-árido do Nordeste se assemelham aos estoques de manguezais Amazônicos (341 a 413 Mg C por hectare), mesmo com grandes diferenças pluviométricas entre essas regiões. Porém, verificamos que o estoque aéreo na Amazônia é um dos mais altos do mundo em razão do alto desenvolvimento das florestas", esclarece Bernardino.

O estudo mostra ainda que mesmo nessas áreas de alto desenvolvimento de florestas de manguezais, cerca de 70% dos estoques ecossistêmicos de carbono estão nos solos. Assim, comparativamente, cada hectare de manguezal amazônico sequestra mais de duas vezes o carbono retido em florestas tropicais continentais, como a Floresta Amazônica. No semi-árido, manguezais do Nordeste sequestram mais de 8 vezes o equivalente a ecossistemas terrestres da Caatinga. Nas marismas costeiras o mesmo padrão é encontrado, sendo que cerca de duas vezes mais carbono é retido nessas marismas se comparado ás savanas do Cerrado Brasileiro.

Comparação de estoques de carbono aéreo (verde) e sub-aéreo (azul e marrom) entre manguezais (mangrove) e florestas continentais (Floresta Amazônica, Caatinga e Cerrado). Reproduzida de Kauffman et al., 2018, Biology Letters.

Bernardino explica que a remoção de mangues para fazendas de camarão que provoca a retirada de cerca de 1 a 2 metros superficiais de solo, muito comum no Nordeste, leva a perdas da ordem de 58 a 82% dos estoques de carbono, emitindo em média 1,390 Mg CO2e por hectare de área removida. "Nesses casos, a emissão de gases do efeito estufa por hectare é cerca de 10 vezes o equivalente a emissões por fogo em florestas continentais".

"Quando se considera a vida útil de certas carciniculturas e a sua produtividade, o consumo de cerca de 1 kg de camarão produzido em áreas onde houve remoção de manguezais tem uma pegada ecológica, ou seja, emite uma quantidade de CO2 equivalente similar a dirigir um carro econômico por 100 km", complementa, Bernardino. Esses protocolos e estudos ecológicos estão sendo aplicados pelo grupo de estudo no sítio PELD Hábitats Bentônicos Costeiros do Espírito Santo (PELD-HCES), onde procura-se entender melhor a dinâmica do carbono e de diversos gases do efeito estufa em florestas de manguezais.

O grupo de pesquisa incliu os pesquisadores J. Boone Kauffman (OSU), Angelo F. Bernardino (UFES), Tiago O. Ferreira (ESALQ-USP), Gabriel N. Nóbrega (UFF), Hermano M. Queiroz (ESALQ-USP), Leila R. Giovannoni (OSU), Luiz Eduardo de O. Gomes (UFES), Danilo Jefferson Romero (ESALQ-USP), Laís Coutinho Zayas Jimenez (ESALQ-USP), Francisco Ruiz (ESALQ-USP).

Os pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo e da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo foram apoiados pelo CNPq, Fundação de Apoio à Pesquisa do Espírito Santo (FAPES) e FAPESP, através de financiamento de bolsas e apoio a projetos.

Os dois artigos publicados em 2018 podem ser acessados online:

http://rsbl.royalsocietypublishing.org/content/14/9/20180208

https://doi.org/10.1002/ece3.4079