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Estudo piloto indica que utilização de microagulhas pode aumentar eficácia de anestesia odontológica

Publicado em 01 novembro 2017

Pesquisadores da Faculdade de Odontologia de Piracicaba (Fop), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Texas Tech University (1TU), sediada em Lubbock, Texas, Estados Unidos, desenvolvem um projeto que tem como finalidade avaliar a aplicabilidade de microagulhas (MA) como um dispositivo de liberação de fármacos para a mucosa oral (MO), e que permite uma anestesia tópica efi.ci ente. O projeto é financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e ainda em fase de iniciação.

Na Odontologia, a anestesia tópica é realizada previamente à isenção da solução anestésica. No entanto, devido à baixa permeabilidade da mucosa oral, a aplicação do anestésico tópico não é muito efetiva. Logo, as microagulhas têm sido estudadas como um sistema de liberação transdérmico promissor que permite aplicação indolor e pouco invasiva na pele humana. Recentemente, o grupo de pesquisa de Harvinder Gill, professor do Departamento de Engenharia Química da Texas Tech University (1TU) em parceria com a pesquisadora Michelle Leite, professora da Fop-Unicamp, apresentou durante o simpósio "Fapesp Week Nebraska-Texa5', que aconteceu no mês de setembro em Lubbock, nos Estados Unidos, alguns resultados preliminares e avanços do estudo piloto. Conforme dito por Gill, as microagulhas revestidas com vacina, após a inserção no lábio e língua de coelhos, podem induzir alguma resposta imune sistêmica local e, ainda ser revestidas com lidocaína, um anestésico comumente usado na Odontologia. Esses resultados sugerem que as microagulhas podem ser um sistema de liberação viável para aplicação de lidocaína como anestésico tópico em mucosa oral, no entanto, o sistema não foi avaliado em humanos. De acordo com o resumo do trabalho, a hipótese é que a aplicação possa promover pouca ou nenhuma dor, logo, venha ser um método viável para aprimorar a eficácia da anestesia tópica na Odontologia.

A pesquisadora Michelle Leite, da Fop-Unicamp, adiciona que a ideia da pesquisa surgiu há bastante tempo. "Gill trabalha há muitos anos com o desenvolvimento de microagu- lhas revestidas para aplicação de vacinas na cavidade oral. Os resultados em mucosa oral foram tão promissores quanto em pele. Os resultados demonstraram eficácia semelhante à injeção subcutânea com o uso das microagulhas. Foi então que veio a ideia de aplicar este sistema na cavidade oral, para tentar melhorar a eficácia de anestésicos tópicos de uso odontológico. Porém, para testar a eficácia do sistema em anestesia, inicialmente testaremos se, de fato, esse sistema é indolor quando aplicado na mucosa oral, da mesma forma que é indolor quando aplicado .em pele". Assim, como explicou Gill, trata-se de um pequeno dispositivo contendo 57 microagulhas que, ao ser colocado na gengiva, na bochecha ou em qualquer outro· local da boca a ser anestesiado, cria pequenos furos pelos quais anestésicos locais como a lidocaína penetram - alcançando regiões um pouco mais profundas da mucosa oral. Na avaliação do pesquisador, o receio da injeção é um dos principais fatores que levam os pacientes a evitar tratamentos odontológicos, o que impacta negativamente a saúde oral da população.

Em entrevista à Agência Fapesp, Gill conta que "essa situação causa ansiedade tanto nos pacientes como nos profissionais, podendo comprometer os resultados do tratamento". O método já foi testado em 1 O voluntários em um ensaio preliminar e, segundo Gill, foi bem tolerado. Sobre os resultados preliminares, Michelle adiciona que "os resultados apresentados por Gill demonstraram que as microagulhas promoveram mínima dor Dispositivo com 57 microagulhas utilizado em tratamento odontológico quando aplicadas em diversas regiões da cavidade oral, quando comparadas com a inserção de uma agulha curta (30G) acoplada a uma seringa carpule". A pesquisadora enfatiza que mesmo durante os processos de iniciação, já puderam ter algum resultado promissor, mas será preciso confirmar se a aplicação de microagulhas é de fato indolor quando aplicada em cavidade oral em um "n" amostrai que represente melhor a população. Michelle acrescenta que "após a conclusão desta etapa da pesquisa, já temos outros estudos sequenciais. Pretendemos demonstrar que o uso de microagulhas em cavidade oral pode melhorar a eficácia de anestésicos tópicos de uso odontológico".

A pesquisadora ainda observa que apesar da mídia divulgar alguns estudos científicos envolvendo sistemas de liberação de fármacos que supõem que os anestésicos tópicos podem substituir a anestesia local (injeção propriamente dita), essa conquista ainda está bastante de ocorrer. "Se conseguirmos garantir uma anestesia local indolor, já será uma grande conquista na Odontologia". A parceria entre Gill e Leite foi firmada no âmbito do Fapesp São Paulo Researchers in International Collaboration (Sprint), uma estratégia de organização que consiste no anúncio simultâneo de oportunidades de colaboração da Fapesp com diversos parceiros no exterior e que oferece financiamento para a fase inicial de çolaborações internacionais em pesquisa (seed funding) visando estabelecer projetos conjuntos de médio e longo prazo. •