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Brasil Econômico

Estudo patina no interesse de empresas multinacionais

Publicado em 10 março 2010

Por Priscila Machado

Há milhares de plantas catalogadas que não entram nos laboratórios produtivos

O potencial micro e macromolecular das florestas brasileiras como fonte de bioprodutos não tem sido suficiente para que as fabricantes de medicamentos invistam na identificação de novos princípios ativos. Segundo Alfredo Carlos Joly, coordenador do Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Biota/Fapesp), houve um grande avanço na transformação de conhecimento científico em políticas públicas desde a criação do programa, há 10 anos. O desafio agora é conseguir parcerias como setor produtivo.

Em princípio, a indústria brasileira investe pouco no desenvolvimento de novas fórmulas, usando aquelas já disponibilizadas no mercado. A grande maioria das multinacionais, por sua vez, não têm laboratórios de pesquisa no país e só entram nesse processo quando ele já está bastante avançado.

A professora Vanderlan da Silva Bolzani, do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Unesp), faz coro ao colega. "Ainda temos pouca tradição e as multinacionais têm outros interesses", afirma. Bolzani também é coordenadora da rede Bioprospecta, do programa Biota, que já catalogou cerca de 7 mil espécies de plantas no Estado de São Paulo.

Mas os pesquisadores ainda não conseguiram passar o resultado do programa para o setor privado. Assim, uma nova geração de medicamentos estaciona na fase anterior aos testes. "Cabe a nós descobrir, mas o desenvolvimento é com a indústria", afirma Bolzani.

Perspectiva

Novas tecnologias podem fazer com que os produtos naturais passem a ganhar mais atenção da indústria de fármacos. Em laboratórios robotizados já é possível rastrear substâncias ativas em um mínimo de tempo. O estudo de matrizes biológicas vem ganhando força após a comprovação de que algumas substâncias naturais podem ter uma ação mais ampla no sistema biológico, ajudando no controle de doenças multifatoriais.

Negligenciadas

Pesquisadores também apontam a falta de interesse da indústria farmacêutica no tratamento de doenças negligenciadas - chamadas assim por afetar eminentemente os países pobres e em desenvolvimento - como o principal entrave no avanço das pesquisas médicas no Brasil. Nova e com produção própria ainda considerada incipiente, grande parte das empresas brasileiras apenas reproduz o que está sendo desenvolvido pelos grupos estrangeiros. Já as multinacionais querem projetos que não envolvam riscos financeiros, o que acaba por excluir grande parte dos estudos relacionados às doenças tropicais.

"As multinacionais não se interessam porque o retorno financeiro é baixo", diz Adriano Andricopulo, pesquisador do Instituto de Física, da Universidade São Paulo (USP). O pesquisador destaca a importância de buscar a parceria das grandes empresas para que as pesquisas alcancem ao mercado. "Hoje o pouco que consegue chegar ocorre apenas através de programas de governo", diz Andricopulo.

Há exceções, claro. A Novartis aplicou US$ 1,5 bilhão em doenças negligenciadas em 2009. É um programa sem fins lucrativos "Nos países em desenvolvimento nos quais essas doenças forem endêmicas, a Novartis pretende disponibilizar medicamentos aos pacientes", afirma Renard Aron, porta-voz da empresa.