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Estudo mundial investiga apoio oferecido a pessoas com deficiências durante pandemia

Publicado em 28 setembro 2020

Por Camila Tuchlinski

Cláudia Sofia Indalécio Pereira e Carlos Jorge são surdocegos e casados há 15 anos. Morando sozinhos no bairro da Aclimação, na capital paulista, ficaram assustados no início da pandemia do novo coronavírus, pois as informações chegavam desencontradas para eles. "Dependemos de guia intérprete em alguns momentos. Um dia desses, um deles veio até o meu apartamento para trazer algumas compras. Ele estava de máscara e luvas. Levei um susto muito grande e pensei: 'Meu Deus, o mundo acabou'. Falava muito sobre isolamento social e mortes", recorda Cláudia, que descobriu que tinha Síndrome de Usher, tipo 3, quando era adolescente.

Ela nasceu ouvindo normalmente, mas aos seis anos perdeu a audição e, aos 19, passou a ser surdocega. Para conseguir compreender o que está sendo dito, Cláudia Sofia usa a comunicação tadoma, ou seja, precisa colocar as mãos no lábio inferior das pessoas para decodificar a mensagem através da articulação e da vibração de voz. "Quando falavam que o toque de mão, abraço, beijos eram proibidos por causa da pandemia, entrei em pânico. Fiquei bem preocupada por nossa comunicação ser com um toque. Sempre estamos com álcool gel por perto, usamos máscara e cumprimos as regras sanitárias", diz.

Depois de três meses, Cláudia e o marido, que se comunica por Libras tátil, foram ao médico algumas vezes, porém, com alguém da família ou um amigo: "As outras pessoas que são guia intérprete não iam com a gente. Os médicos nem sonhavam em deixar eu tocar nos lábios".

O governo não disponibiliza profissionais intérpretes para os surdocegos no Brasil. A única alternativa para vencer as adversidades de comunicação no mundo exterior são familiares ou estagiários do Grupo Brasil de Apoio ao Surdocego e ao Múltiplo Deficiente Sensorial. "A única contratação de intérprete é quando tem eventos pelo governo, prefeitura, estado, como conferências de saúde, do trabalho. Agora, para irmos aos médicos, supermercado, área de lazer e tudo o mais, aí são amigos e voluntários ou estagiários que fizeram curso conosco no grupo", explica Cláudia.

A adversidade a ser enfrentada por Bruna Rocha e o marido é outra. Ele, que é professor de História, está tetraplégico em decorrência da esclerose múltipla. O acesso ao benefício do INSS está praticamente parado. "O Jaime não trabalha por causa da sua deficiência e não conseguimos, como boa parte da população brasileira, acesso à perícia para ter o auxílio-doença. No nosso caso, temos de onde tirar sustento porque eu sigo trabalhando. Mas tem muitas famílias que não têm uma rede de apoio", desabafa a publicitária, que mora em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

Bruna lembra que a falta de apoio dada para pessoas com deficiência no Brasil ocorre antes mesmo da covid-19. "O acesso, físico mesmo, à saúde, ao trabalho, é escasso, o que dificulta muito a participação dessas pessoas a atividades comuns para a maioria da população. Elas já viviam em isolamento social antes da pandemia, porque nossas ruas e nossa população não estão preparadas para viver com pessoas com deficiência", enfatiza.

Para tentar fazer um retrato fidedigno da realidade de pessoas com deficiência em meio à pandemia, pesquisadores de diversos países do mundo estão investigando o apoio de comunidades.

Um estudo coordenado pela McMaster University, do Canadá, está sendo realizado em países como Alemanha, Estados Unidos, Chile e outros.

No Brasil, a pesquisa é desenvolvida por Beatriz Helena Brugnaro, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Fisioterapia (PPGFt) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), sob orientação de Nelci Adriana Cicuto Ferreira Rocha, docente do Departamento de Fisioterapia (DFisio) da instituição.

Estão sendo investigados aspectos arquitetônicos de acessibilidade, como rampas e piso tátil, linguagem acessível, como Libras ou linguagem simplificada para pessoas com deficiência intelectual. O projeto busca voluntários para responderem a um questionário online sobre o tema até o final de outubro; para participar. "Pelas respostas obtidas até o momento, é possível verificar que o apoio oferecido a pessoas com deficiência está insatisfatório, o que nos preocupa, pois essa população já possui muitas dificuldades para enfrentar a pandemia e isso é agravado se não há apoio da comunidade", na opinião de Beatriz Helena Brugnaro.

O estudo leva em conta o apoio de entidades governamentais ou ONGs. Das respostas enviadas até agora, muitas pessoas com deficiência não sabem se há ou não esses serviços disponíveis, segundo a pesquisadora da UFSCar: "O que também é preocupante, na medida em que precisamos ter primeiro o conhecimento sobre a disponibilidade ou não para que possamos utilizar desses serviços".

O objetivo da pesquisa no Brasil, que tem financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), também é apontar quais são os principais desafios que as pessoas com deficiência estão enfrentando durante a pandemia de coronavírus para que sirvam como diretrizes para auxiliar essa população.

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