Notícia

Correio do Estado (Campo Grande, MS)

Estudo mostra que macaco-prego utiliza ferramentas

Publicado em 18 fevereiro 2005

Um quebra um coco com uma pedra. Não muito longe, outro enfia uma vareta numa colméia, para conferir se as abelhas estão lá dentro antes de se deliciar com o mel. Um terceiro manuseia uma pedra, que remete a um ancinho pré-histórico, para cavucar a terra em busca de insetos. Se sua mente formou um quadro de alguns chimpanzés em bando, reduza a escala: os protagonistas são três pequenos macacos-prego observados no interior do Piauí por uma equipe entusiasmada de cientistas do Brasil, dos EUA e da Itália.
A animação é justificada. Em apenas um ano de trabalho no Parque Nacional Serra da Capivara e na reserva biológica de Gilbués, grupos distintos de pregos selvagens (Cebus libidinosus) foram vistos empregando ferramentas em um hábitat natural pela primeira vez. Até então, o processo só havia sido comprovado numa situação de semiliberdade. Assim, livres na natureza, só chimpanzés e orangotangos na África — bichos mais próximos do primo homem na escala evolutiva do que os pequenos macacos-prego — mostraram tal grau de refinamento na hora de conseguir comida.
O comportamento é muito parecido ao já observado por parte da equipe de cientistas no Parque Ecológico do Tietê, em São Paulo. Foi ali que um time liderado pelo etologista (especialista em comportamento animal) Eduardo Ottoni, da Universidade de São Paulo (USP), viu pela primeira vez o macaco-prego colocar um coco sobre uma pedra, chamada de "bigorna", pegar outra, o "martelo", e desferir um golpe certeiro para abrir o fruto. "Na época, trabalhava com crianças no Instituto de Psicologia da USP quando uma aluna me procurou para contar o que os funcionários do parque diziam", lembra Ottoni. "Não acreditei de imediato".
No Tietê, vivem macacos com origens e histórias diferentes: a maioria foi recolhida em operações de fiscalização do Ibama e jogada lá, enquanto outros apareceram em movimentos migratórios não muito claros, formando uma comunidade heterogênea que aprendeu forçosamente a viver em conjunto em um trecho relativamente pequeno de mata atlântica. A prática de quebrar cocos com pedras passada para os mais novos, que aprendem olhando os mais velhos, poderia ser uma anomalia, moldada pelas condições sociais adversas e pela facilidade para conseguir as ferramentas, ponderam os cientistas.
Por isso, eles mergulharam no interior do Nordeste, onde a situação é bem diferente: os grupos de macacos seguem gerações juntos, não têm contato com humanos e mesmo entre eles as reuniões são esparsas. "Um aspecto importante que tentamos verificar no Piauí é a capacidade de transmissão não genética, mas cultural", explica o etologista. Capacidade essa que caracteriza homens e chimpanzés — mas só depois de evidências claras serem apresentadas na década de 1970 pela primatologista Jane Godall, e não antes de fomentar muitas discussões entre biólogos e antropólogos. "Se mostrarmos que o processo de transmissão também faz parte da vida de outras espécies, precisaremos repensar alguns conceitos sobre o que é cultura, que deixa de ser quase exclusividade humana".
Para Ottoni, a virada é uma questão de tempo. Tanto que ele parece menos confiante ao usar a expressão "cultura material", termo cunhado para diferenciar o comportamento animal do assumido pelo Homo sapiens ("Como se o homem não fosse também um animal", comenta), do que simplesmente "cultura".

Evolução
É muito mais simples assumir comportamentos semelhantes entre o homem e os great apes (como são conhecidos em inglês os primatas grandalhões como chimpanzés e orangotangos), que estão separados de nós na evolução por apenas 6 milhões de anos, do que aceitar similaridades com os Cebus, cujo ancestral comum existiu há 40 milhões de anos, explica Patricia Izar, que trabalha com Ottoni, enquanto desenha uma linha evolutiva dos primatas no ar, com as mãos. "Como poderemos explicar esse miolo?"
A explicação pode estar no campo da neurociência, especificamente no estudo da evolução cognitiva. Institutos de pesquisa espalhados pelo mundo têm buscado similaridades entre os primatas para explicar como o pensamento é construído no cérebro das mais diferentes espécies desses animais. A conclusão ainda está distante, mas há pistas cada vez mais fortes de que muita massa encefálica não significa raciocínio complexo. "Antes do prego, muita gente achava que os macacos do Novo Mundo não seriam capazes de mostrar um comportamento do gênero, que seria exclusividade dos grandes", diz Ottoni.

Ferramentas na manga
Enquanto a discussão acadêmica esquenta, os cientistas em campo continuam a recolher evidências. Em Gilbués, os macacos-prego não apenas usam ferramentas para conseguir comida como guardam as melhores pedras para quebrar o coco. Isso porque a rocha na região é bastante arenosa, esfarelando na primeira bordoada. Os melhores "martelos" costumam aparecer nas enxurradas, quando material de outras localidades é carregado pela chuva. "Quando encontram uma pedra resistente, esses caras a guardam para usar mais para a frente", conta o pesquisador.
O trabalho em Gilbués é financiado por instituições internacionais, como a National Geographic Society, e é conduzido por uma pesquisadora americana e outra italiana; na Serra da Capivara, a verba é da Fapesp. Em ambos os casos, mais alguns anos de observação estão garantidos.
Por enquanto, o trabalho rendeu um trabalho publicado em dezembro no periódico especializado American Journal of Primatology e apresentações no Congresso Brasileiro de Primatologia, que terminou ontem em Porto Alegre. Para os cientistas, é apenas o começo.