Notícia

Conexão Tocantins

Estudo mostra que formigas saúvas cortadeiras são capazes de prever condições climáticas

Publicado em 05 dezembro 2019

Por Elton Alisson da Agência FAPESP

As saúvas (Atta sexdens) enfrentam dois grandes desafios ao deixar a segurança do ninho para forragear: escolher as melhores plantas para coletar folhas e evitar serem surpreendidas por um vendaval ou um temporal, o que atrapalharia a conclusão da tarefa.

Um estudo feito por pesquisadores da Escola de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP) mostrou que as formigas cortadeiras são capazes de prever condições climáticas adversas ao perceberem mudanças na pressão atmosférica.

Ao detectar uma queda acentuada na pressão atmosférica – que na maioria dos casos é um sinal de chuva e ventos fortes iminentes –, as formigas cortadeiras passam a executar as tarefas rotineiras de corte e transporte das folhas de forma muito mais rápida. Dessa forma, conseguem coletar e armazenar a maior quantidade possível de alimentos para o ninho, observaram os pesquisadores.

Os resultados do estudo, feito no âmbito do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Semioquímicos na Agricultura – um dos INCTs financiados pela Fapesp e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) no Estado de São Paulo –, foram publicados na revista Ethology.

“Observamos que a capacidade de as formigas cortadeiras perceberem mudanças na pressão atmosférica permite prever condições meteorológicas adversas e mudar as estratégias de forrageamento”, disse à Agência Fapesp José Maurício Simões Bento, professor da Esalq-USP e um dos autores do estudo.

De acordo com o Bento, a busca de alimentos é essencial em um ninho de formigas cortadeiras, uma vez que somente uma pequena parte dos indivíduos sai da colônia.

“Muitas castas das saúvas, como a rainhas, as jardineiras e fases imaturas das formigas, permanecem no interior do ninho. Somente saem as forrageiras, para cortar e transportar as folhas, e os soldados, para defender a entrada da colônia”, explicou.

As escoteiras, que são as primeiras forrageiras a sair, têm a função de explorar os arredores do ninho e encontrar uma planta adequada para extrair as folhas. Ao localizá-la, retornam à colônia, marcando uma trilha com um feromônio para que as demais operárias possam se guiar até a planta, fazer o corte e o carregamento das folhas para o ninho.

A maior parte desse material vegetal é usada para cultivar, no interior do formigueiro, um fungo da espécie Leucoagaricus gongylophorus, com o qual essas formigas mantêm uma relação de mutualismo. As folhas trazidas pelas operárias servem de substrato para o crescimento do microrganismo, que doa parte de suas hifas (filamentos de células) para a alimentação da colônia.

“Essas formigas cortadeiras cultivam esse fungo para ter o alimento em grande disponibilidade, principalmente como uma reserva para os períodos de maior escassez”, disse Bento.

Maior rapidez

A fim de avaliar se as formigas cortadeiras são capazes de perceber variações da pressão atmosférica e, dessa forma, mudar suas estratégias de forrageamento, os pesquisadores analisaram o recrutamento de operárias e os padrões de corte e carregamento de folhas desses insetos sob condições de pressão atmosférica alta e baixa em comparação com uma condição estável.

No experimento, ninhos de saúva foram introduzidos em uma câmara barométrica e submetidos durante três horas a condições de pressão atmosférica estável (950 milibar), alta (de 958 mbar) e baixa (de 942 mbar).

“Escolhemos uma variação de pressão de 8 milibar entre as condições baixa, estável e alta, porque tem sido a média registrada nas cidades brasileiras que produzem eucalipto ou rosas, onde a saúva é considerada uma praga agrícola”, explicou Bento.

Após as diferentes condições de pressão atmosférica serem atingidas, o ninho foi filmado por uma hora, uma vez que a chuva e o vento geralmente acontecem horas após a diminuição da pressão.

Nesse estágio, a entrada do ninho foi aberta, de modo a possibilitar às formigas o acesso a uma roseira por meio de uma plataforma montada em frente às colônias.

Foram analisados estatisticamente o tempo que a primeira formiga escoteira deixou ou ninho, além do número total de operárias forrageiras e de folhas cortadas e trazidas para a colônia.

As análises indicam que, em uma condição de baixa pressão, as escoteiras deixaram seus ninhos 2,8 vezes mais rápido do que quando a pressão foi constante e 3,7 vezes mais rápido do que em alta pressão.

“As formigas percebem individualmente a queda da pressão atmosférica e, a partir disso, aumentam a eficiência no forrageamento. Essa maior agilidade permite encontrar maior quantidade de matéria vegetal, uma vez que, após o temporal, as plantas normalmente perdem parte das folhas que carregam, reduzindo a quantidade disponível”, afirmou Bento.

Os pesquisadores não observaram uma diferença no número de operárias recrutadas para a coleta das folhas. No entanto, constataram que entre 1,5 e 2 vezes mais folhas foram cortadas e trazidas para o ninho durante a queda da pressão atmosférica.

Na avaliação do pesquisador, o esforço de todas as forrageiras para transportar e trazer uma quantidade maior de alimentos para a colônia em uma situação adversa mostra a alta capacidade de tomada de decisão desses insetos em favor da manutenção do grupo, sem um controle central ou unitário. “Esse é mais um indício de quão evoluídos são esses insetos”, afirmou.

O artigo Foraging activity of leaf-cutter ants is affected by barometric pressure (DOI: 10.1111/eth.12967), de Fernando R. Sujimoto, Camila M. Costa, Caio H. L. Zitelli e José Maurício S. Bento, pode ser lido na revista Ethology em onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1111/eth.12967.